VOCÊ JÁ PENSOU EM ESCREVER E PUBLICAR UM LIVRO?


 

 


O Dom de Escrever

 

 

Existem algumas perguntas que sempre nos vêm à cabeça quando o assunto é produzir Literatura.
 

Será que já não há muita gente fazendo isso?
 

Já não temos obras demais no mercado?
 

Existe espaço para tanta gente?
 

Ensinar a escrever não será rebaixar a arte ao colocar sua produção ao alcance de tantas pessoas? Não a tornaremos algo fútil se a tornamos mais acessível ao grande público?
 

Há nisso evidentemente um perigo, mas o abuso de uma coisa não prova que ela seja má.
 

Consideremos o seguinte: Toda a gente fala, mas nem todos são oradores. A pintura vulgarizou-se, mas nem todos são pintores. Nem todos os músicos fazem óperas.
 

Portanto, aprendamos a escrever. O tempo vai certamente se incumbir de selecionar o joio do trigo e nos colocar, ou não, entre os que de fato têm vocação e capacidade para isso. Estamos, então, em princípio, ao abrigo de qualquer censura.
 

Por outro lado, podemos escrever, não só para o público, mas para nós próprios, para satisfação pessoal.
 

A literatura é um atrativo, como a pintura e a música, uma distração nobre e permitida a qualquer pessoa, um meio de dulcificar as horas da vida e, muitas vezes, os enfados da solidão.
 

Contudo, muitos questionam sobre as técnicas e as orientações que damos em um curso como este.
 

Acreditam que os conselhos serão bons para as pessoas de muita imaginação, visto que a imaginação é faculdade essencial para este tipo de arte. Será possível dar imaginação àqueles que não a têm?
 

A resposta não é difícil.
 

Aqueles que não tiverem imaginação passarão sem ela, mesmo em se tratando de Literatura. Há um estilo feito a partir de ideais, um estilo abstrato, um estilo seco, formado de nítida solidez e de pensamento puro, simples recortes do cotidiano que é admirável!
 

Cada um pode, portanto, escrever conforme as suas faculdades pessoais.
 

Este poderá apresentar discussões abstratas, aquele poderá descrever a natureza, abeirar-se do romance, dialogar situações. Não há limitações, portanto, neste universo. Quem souber redigir uma carta, isto é, fazer uma narrativa a um amigo, deve ser capaz de escrever, por exemplo, um conto. Isso porque uma página de um texto literário é uma narrativa feita para o público.
 

Quem pode escrever uma página, pode escrever dez. Basta fôlego!
 

E quem sabe fazer uma novela certamente será capaz de fazer um livro, porque uma série de capítulos, nada mais é que é uma série de novelas.
 

Assim, qualquer pessoa que tenha mediana aptidão e leitura, poderá escrever, se quiser. Para isso basta aplicar-se. Se a arte lhe for interessante, se tiver o desejo de expressar o que vê e de descrever o que sente, o caminho estará aberto.
 

A Literatura não é, desta forma, uma ciência inatingível, reservada a raros iniciados e que exija grandes estudos preparatórios.
 

É uma vocação, que cada um traz consigo e que desenvolve, mais ou menos, segundo as exigências da vida e as ocasiões favoráveis.
 

Claro que há muita gente que escreve mal. E muita gente há, que poderia escrever bem, mas que não escreve e não se interessa em melhorar a escrita, porque sequer tem consciência de sua pequenez neste tipo de atividade.
 

O dom de escrever, isto é, a facilidade de exprimir o que se sente, é uma faculdade tão natural ao homem como o dom da fala. Ora, se toda a gente pode contar o que viu, porque não poderia escrevê-lo?
 

A escrita não é senão a transcrição da palavra falada, e é por isso que se diz que o estilo é o homem. O estilo mais bem escrito é, na maioria das vezes, o estilo que se poderia falar melhor.
 

Dessa forma o entendia o francês Montaigne, um dos maiores nomes da Literatura de todos os tempos. Indagou ele certa vez a um amigo: Nunca vos impressionastes com o desembaraço, que os aldeões empregam nas suas narrativas, quando se servem da sua linguagem natal?
 

As pessoas do povo, para exprimir coisas pelas quais passaram, têm certas palavras e originalidades de expressão e uma criação de imagens, que espantam os profissionais. Se qualquer pessoa de coração, qualquer uma, escrever a alguém sobre a morte de uma pessoa querida, fará uma admirável narrativa, que nenhum escritor poderá imitar, quer seja Machado, quer seja Shakespeare.
 

Muitos mestres da Literatura, em visitas a certos lugares, copiava servilmente os diálogos das pessoas com quem falava. E os reproduzia fielmente, dando às suas obras uma qualidade única.

 

Portanto, se toda a gente pode escrever, com muita mais razão e propriedade o podem fazer as pessoas medianamente cultas, as pessoas que têm leitura e que amam a Literatura. Dentre eles estão os jovens que fazem versos elegantes ou registra os seus pensamentos num diário íntimo.
 

Há muita gente, que, dirigida e ensinada, poderá determinar e aumentar as suas aptidões pela criação literária e, claro, desenvolver talentos.
 

Muitos ignoram as suas forças, porque nunca as experimentaram, e estão mesmo longe de imaginar que poderiam escrever. Outros, mal ajudados ou dissuadidos da sua vocação, desanimam por se reconhecerem medíocres, sem um guia que os oriente e os aperfeiçoe.
 

Quase todas as pessoas que escrevem mal, o fazem porque não lhes foi demonstrado o mecanismo do estilo, a anatomia da escrita, nem como se encontra uma imagem e se constrói uma frase.
 

Assim, descobrir o filão, tirar o diamante, sachar a terra, nada é, e é tudo.
 

Quando se refazem as frases, quando se descobrem as imagens, quando se limpa o estilo e quando se reúnem as palavras certas, quanta felicidade!

 

 

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JOGO MORTAL


Em volta da mesa, oito cadeiras; seis homens. Sobre suas cabeças uma lâmpada pênsil do teto. A luminosidade incidia quase que exclusivamente sobre a mesa. O resto da sala estava envolta em uma penumbra. 
Entre alguns, poucas palavras; entre outros, o silêncio. Alberto Bastos Júnior, provavelmente o mais bem aquinhoado do grupo, observava tudo à sua volta. Estava ali pela primeira vez por insistência do amigo Tomás, o qual até então não havia chegado. Mas sua cadeira estava à sua espera. Além de nunca ter estado naquele lugar, há quase três anos não se sentava em uma mesa para jogar. Prometera à mulher, aos filhos, aos santos, mas fora incapaz de manter a promessa diante de tamanha insistência do amigo.
- Você conseguiu o que quase ninguém consegue. É um homem importante agora. – lembrava a esposa, sempre preocupada com o vício do marido. – Este negócio de cartas é vício sim. Se o governador fica sabendo.
Mas não resistiu à tentação. Por insistência do amigo e colega de trabalho foi vencido.
Vão ser apenas umas duas rodadas. Só para relembrar os velhos tempos – disse Tomás Franco naquela tarde.
Alberto sabia que estava sendo difícil manter-se longe do jogo, mas sua condição de secretário de governo exigia prudência naqueles casos.
- Só algumas rodadas – tornou a argumentar o subordinado.   
E ali estava ele. Que maldito vício são as cartas! Sonhara por dezenas de vezes com aquele momento. Sonhava que muitas vezes o rendimento do jogo ia superar os ganhos salariais como secretário do meio-ambiente e então diria à mulher:
- Não te falei, Patrícia?!
Mas aquilo era na cama, enquanto dormia. Na verdade sabia muito bem dos riscos, dos malefícios do jogo, e jamais se esquecera dos prejuízos sofridos no passado.
Mas eram apenas umas rodadas como acabou argumentando a si próprio. E foi ao carteado. Uma só noite, prometera a ele mesmo.  Para a esposa não precisava de desculpas. As intermináveis reuniões, as quais varavam a noite já haviam sido assimiladas pela família. Naquele momento estava reunido com o governador tratando de uma punição exemplar a uma indústria poluidora, na região de Camaçari, pensava a esposa. 
- E então, senhores? – indagou uma voz entre os presentes, quebrando o quase silêncio.
- Acho que deveríamos esperar um pouco mais – aconselhou outro.
- Já são quase nove horas – tornou a falar o primeiro interlocutor.
- Às onze preciso ir. Trabalho de turno – anunciou um terceiro.
Bastos Júnior ouvia aquelas vozes, todas estranhas aos seus ouvidos. Ali não conhecia ninguém. Seu contato com aquele mundo, ou submundo, era seu auxiliar Tomás. Se o sujeito não chegasse, por certo seria melhor ir embora.
De repente, uma voz soou escada acima. Uma voz conhecida. Era o homem esperado que subia finalmente. Junto com ele chegou um outro rapaz, mais jovem ainda que aquele que já se encontrava à mesa.
- Desculpem-me pelo atraso. Precisei passar em casa primeiro para deixar um dinheiro – foi dizendo o recém-chegado enquanto se sentava. – Já se conhecem, creio. 
 - Já nos apresentamos – declarou o secretário de governo, sem demonstrar muito interesse pela identidade dos demais presentes.
- Ah, já ia me esquecendo – acudiu Tomás – Este é Marcelo. – informou referindo-se à pessoa acompanhado de quem havia chegado. 
Alberto dirigiu um mínimo sorriso aos retardatários, mas não fez qualquer comentário. Estava apreensivo. Depois de tanto tempo, estava de volta ao jogo. Sabia do risco que corria, mas foi impossível evitar. Era como se quisesse provar a sim mesmo que o vício ficara para trás, lá longe. Aquela talvez fosse uma boa hora de averiguar seu grau de dependência. Uma noite só, para matar a saudade; como dissera o amigo. Apenas para relembrar os velhos tempos. Sentia as pernas trêmulas e um leve aperto no peito.
Lá adiante, na cabeceira da mesa, as cartas eram dispostas de forma impecável. Hábeis mãos as haviam embaralhado com uma rapidez surpreendente.
Em poucos segundos todos os jogadores receberam aquelas que lhes tocavam. 
- De quanto vai ser? – procurou saber Tomás.
- Cem – sugeriu um.
Alberto contabilizou o que tinha no bolso e, depois de calcular de quantas rodadas poderia participar, aceitou.  
- Começamos com cem e vamos aumentando – sugeriu outro participante -, mas não devemos extrapolar os mil, certo?
Algumas assentiram apenas com a cabeça, outros verbalizaram um sonoro sim. Assim seria feito.
Já com as cartas, o funcionário do governo correu os olhos à sua volta e observou cada rosto em torno da mesa. Ali estavam seus adversários, as pessoas que tinham como único objetivo levarem o seu dinheiro. Que viessem todos eles! Alguns anos afastado das cartas era muito pouco tempo para tirar-lhe a habilidade e a perspicácia no jogo. Estava certo de que o jogo era algo imprevisível, mas confiava em seu talento.
Avançou o tempo e, uma após outra, as rodadas do carteado arrastavam-se noite adentro.
- Preciso ir – anunciou Alberto, ajeitando o corpo na cadeira, cansado que estava depois de várias horas na mesma posição.
- Só mais uma. Olhe que você vai sair no lucro – brincou Tomás. – Precisa nos dar oportunidade de recuperar pelo menos um pouco do que perdemos para você.
- Já é tarde. Amanhã temos trabalho logo cedo – tornou a dizer o secretário do meio-ambiente do estado da Bahia.
- Então a última – arriscou Tomás.
- A última - concordou Bastos apenas para não ser indelicado como os demais jogadores.
Realmente a noite havia sido proveitosa. Divertira, voltara aos áureos tempos e ainda ganhara seis dos oito embates disputados. Impressionante performance! Nunca tivera tanta facilidade em ganhar. Simplesmente triplicara a quantia trazida. Um sucesso, sem dúvida!
Outra vez as cartas foram distribuídas, outra vez Alberto não encontrava dificuldades para bater seus adversários. No entanto, de repente, diante do silêncio peculiar àquelas situações, uma voz se levantou.
- Ele roubou! Está roubando desde o início!
- Quem??!! Eu?! – espantou-se Alberto.
- Você mesmo, seu infeliz! Ganhar desta maneira é fácil – era a voz do rapaz que chegara em companhia de Tomás.
- Você deve estar brincando! Eu roubando?! Que motivos eu teria para roubar em um jogo de cartas? Tomás me conhece.
- Isto não interessa! O que interessa é que você roubou e quero meu dinheiro de volta – disse aos gritos o homem, mostrando-se visivelmente transtornado.
- Você tem alguma idéia de com quem está gritando, meu rapaz?
- Imbecil!! O que isto importa em um lugar destes? Devolva meu dinheiro!
- Calma, pessoal! – interferiu Tomás, percebendo que a discussão poderia geral algo mais sério.
- Conheço este homem há muito tempo. Já joguei com ele centenas de vezes e nunca o vi roubar – tornou a dizer o subordinado de Alberto.
- É, mas agora roubou. Bem vi que as coisas estavam caminhando muito bem para ele. Desse jeito qualquer um pode vencer.
Sem que ninguém percebesse um dos outros homens presentes à mesa, sentado ao lado de Alberto, inclinou-se e voltou com uma carta de debaixo da mesa.
- Veja isto. Esta carta estava no chão.
- Está vendo! Desgraçado! – pôs-se aos gritos o rapaz enfurecido.
- Isto não quer dizer nada, meu jovem. Sempre fui um exímio jogador. Esta carta foi colocada aí no chão.
- Exímio, porcaria nenhuma! Mande-o se levantar. Deve ter mais cartas escondidas em algum lugar. Ele roubou a noite toda e ninguém prestou atenção nisso.
Sem pestanejar Alberto ficou de pé. Estarreceu-se quando percebeu dois ases sobre a cadeira onde estivera sentado todo aquele tempo.
- Eu não disse? Desgraçado??!! – vociferou o homem. Imediatamente outros jogadores também se levantaram.
- Calma, Marcelo! – pediu Tomás. - Isto deve ter uma explicação, não é Alberto?
- Explicação?! Que explicação este canalha teria para algo desta natureza? Alguém aqui nesta sala ainda tem dúvidas sobre o que está acontecendo aqui? Este filho da puta roubou todos nós durante todo este tempo e você ainda vem com esta conversa mole, Tomás! Eu quero meu dinheiro de volta agora mesmo!
Estupefato diante daquela situação inusitada, Bastos ainda argumentou:
- Não sei como estas cartas foram parar aí.
- Não sabe?! Talvez as tenha trazido de casa, ou talvez tenha desenvolvido uma maneira de fazê-las sair do baralho. Isto quem deve explicar é você, seu mau caráter! – comentou um outro jogador, mostrando-se estranhamente calmo diante de tudo aquilo.
- O que é isto, meu amigo? – voltou a falar Tomás, mostrando-se preocupado com o rumo que as coisas tomavam.
- Alguém armou isto para mim – concluiu o secretário de governo.
- Armou isto para o senhor, senhor secretário?! O que está querendo dizer com isto? Que o desonesto aqui é um de nós e não o senhor que foi pego roubando?! – intrometeu-se um quarto homem. – Lamento informa-lo, mas se não devolver cada centavo que ganhou, o senhor não sairá daqui.
De repente o mundo virara de cabeça para baixo. Alberto começou a perceber que qualquer coisa que dissesse poderia colocar mais lenha na fogueira, mas não estava disposto a deixar-se levar por aquela conversa toda.
Tomás, você que conhece esta gente, explique para eles. Diz quem eu sou. Que interesse eu teria em roubar em um jogo de cartas como este.
- Eu sei quem você é, seu calhorda! É gente do governo, gente acostumada a roubar o povo. Mas aqui as coisas são um pouco diferentes – advertiu Marcelo.
- Vou embora – comunicou Alberto, acreditando que se continuasse ali por mais tempo acabaria por agredir algum daqueles homens.
Deu dois passos em direção à porta, mas teve sua passagem bloqueada. Diante dele estava um dos jogadores, um que até então não havia se manifestado. Somente naquele momento pôde observar-lhe as feições, o tipo físico: um homem de rosto queimado excessivamente pelo sol e de quase dois metros de altura. Impossível avançar mais.
A partir daquele instante Alberto sentiu que algo estava muito errado por ali. Um daqueles homens colocara as cartas de alguma forma sobre a cadeira. Maldição! Como fora cair em uma armadilha como aquela?
- Tudo bem, pessoal – falou aquele que encontrara as cartas sobre a cadeira. - Acho que podemos chegar a um acordo.
- Acordo?! De que acordo está falando?! – procurou saber o funcionário do governo.
- Queremos todo o dinheiro que tem aí – anunciou Marcelo. - E mais um cheque que é para compensar por tudo que o senhor nos fez passar.
- Cheque?! Vocês estão loucos!
- Mas o que é isto, pessoal? – ponderou Tomás. Isto é um assalto?!
- Assalto, roubo! É tudo da mesma família. Se é mesmo amigo deste cretino, diga-lhe que não estamos brincando. Ou ele arruma as coisas do jeito que queremos ou vai acabar muito mal.   
Com uma calma surpreendente, o amigo de Alberto se colocou ao seu lado e disse-lhe ao ouvido:
- Dê-lhe o que querem. Isto aqui poderá virar uma merda se não entregar o que estão pedindo.
- Dar meu dinheiro a eles?! E um cheque sabe-se lá de quanto. Você ficou louco? Não roubei coisa nenhuma dessa gente, portanto não vou entregar dinheiro nenhum a eles, muito menos chegue. Vou é sair daqui agora e se tentarem me impedir, não me responsabilizarei pelos meus atos.
Imediatamente todos se movimentaram na direção de Alberto.
- Não façam besteira! – pediu Tomás. – Olhem! Tenho o que trezentos, pois também perdi quase tudo. É o que tenho, mas estou disposto a dar este dinheiro a vocês.
- Você está de parceria com este crápula ou acha que somos idiotas – esbravejou aquele que impedia a passagem de Alberto.
De um momento para outro, nas mãos do sujeito surgiu um revólver; em seguida o barulho característico de uma arma sendo engatilhada.
- Meu Deus!! O que está acontecendo aqui? – disse o secretário de governo visivelmente transtornado.
- O que está acontecendo aqui? O senhor foi desonesto no jogo e isto não aceitamos por aqui, meu caro. É isto que está acontecendo. Quando o nosso amigo Tomás nos falou do senhor, disse que era gente boa, mas pelo que estamos vendo...
- Tomás diga a eles.
- É isto, pessoal. Deve ter havido algum engano – tentou falar o subordinado de Alberto.
- Engano?! Você é cego? Não viu as cartas em cima da cadeira, debaixo desta bunda gorda?
- Isto não quer dizer nada. Tudo pode não ter passado de uma brincadeira de algum de vocês. E se foi mesmo isto que aconteceu, as coisas já passaram dos limites. Se o objetivo era assustar, já conseguiram. Agora deixe o homem ir embora que eu também já estou indo – anunciou Tomás.   
Enquanto falavam os homens, Alberto sentia o suor descer-lhe pelo rosto, arrastar-se pelo pescoço e meter-se por debaixo da camisa branca. À sua frente seus olhos fixavam-se na arma empunhada agora por Marcelo. Fechou os olhos momentaneamente e tentou escapar dali, mas ao abri-los logo depois, tinha ainda diante de si aquela terrível ameaça. Implacável ameaça! Tudo aquilo era, por certo, uma brincadeira, como bem dissera seu amigo Tomás. Daquelas tão costumeiras em programas de televisão.
- Bem, senhores, já vou indo – voltou a dizer Alberto, voltando-se em direção à porta. Não deu mais que um passo e sentiu o impacto de um violento soco na altura do estômago. Imediatamente sentiu as pernas arquearem e não serem capazes de sustentar o próprio corpo. Acabou indo ao chão. Caiu de joelhos. Outro golpe foi sentido; agora nas costas. Acreditou estar sendo espancado com pedaços de madeira. Mas eram apenas socos. Socos de um pugilista, não tinha dúvidas.
Com dificuldades, pôs-se de pé. Diante dele aquelas pessoas se agigantaram. Eram monstros terríveis e já haviam mostrado que não estavam para brincadeiras.  Mais uma vez mirou a arma nas mãos do rapaz. No entanto, pôde perceber certa insegurança por parte deste.  Viu-lhe a mão tremer. Um gesto apenas e o revólver estaria em suas mãos. De posse do revólver, abriria caminho com facilidade.
O jeito era esperar o momento certo para dar o bote. Seu maior ameaçador era alguém que aparentemente também estava amedrontado. Um golpe apenas e em minutos estaria fora dali e a caminho de casa. Mirou nos olhos de quem detinha a arma e viu um brilho estranho, por certo uma réstia de medo. O cano do revólver agora estava quase encostado à sua têmpora esquerda. Um movimento brusco e tudo aquilo estaria acabado. Com aquela gente não adiantava mais argumentos e aquele seria o momento adequado para colocar um ponto final naquela situação vexatória. Correu os olhos em volta e percebeu que não havia mais nenhuma arma. Estavam se garantindo apenas no que tinha nas mãos daquele moleque insolente. Tolos!   
De repente, sem erguer o corpo, tentou alcançar a arma. Com apenas um movimento sentiu o metal frio do cano do revólver em sua mão. Mas o que a seu ver seria uma tarefa simples e rápida tornou-se algo assustador. O rapaz, pego de surpresa, procurou afastar-se, mas sentiu a força de Bastos impedindo-o.
- Desgraçado!! – bradou Alberto.
Em segundos estavam disputando a posse da arma. Os demais assistiam àquela cena sem se manifestarem. O funcionário do governo, muito mais forte que seu opositor arremessou-o de encontro à parede. Um barulho surdo foi ouvido, mesmo assim ninguém interferiu naquela luta desigual. Com o golpe a arma escapou das mãos do rapaz e foi parar no chão, em um dos cantos da sala. Acreditando que tinha já domínio da situação, Alberto avançou para ela. Antes mesmo de pegá-la percebeu que Marcelo se recuperara da queda e vinha em sua direção. 
De posse do revólver Alberto virou-se de costas, mas não teve tempo de puxar o gatilho. De um salto o infeliz atirou-se pesadamente sobre ele. Imediatamente bastos sentiu uma de suas costelas quebrar. Uma dor lancinante fez com que ele momentaneamente perdesse os sentidos. Em segundos não havia como acionar a arma que ainda tinha em seu poder. Com garras que assemelhavam às de uma águia ele teve a respiração cortada. Estava sendo estrangulado. Era preciso agir, mas não havia como. Reunindo todas as forças que ainda lhe restavam, procurou afastar seu agressor, mas o máximo que consegui foi rasgar-lhe a camisa de malha na região das costas.
De repente um som abafado ecoou pela sala. Um tiro fora disparado. Imediatamente um filete de sangue escorreu pelo ladrilho branco. Ambos os corpos permaneceram imóveis por alguns segundos. No entanto, sabiam todos os presentes que um deles logo se moveria. Mas qual deles?
Com um esforço gigantesco Alberto Bastos afastou o corpo do rapaz de cima do seu. Permaneceu ainda deitado por alguns instantes. Não havia forças sequer para erguer-se. Mas era preciso ficar de pé.
- Santo Deus!! O que aconteceu?! – questionou Tomás ao tomar pé da situação.
Imediatamente ouve um desconcertante silêncio na sala. Alguns homens se aproximaram do corpo e um deles, depois de uma rápida inspeção, sentenciou:
- Está morto – declarou ao virar o corpo do rapaz de costas.
- Meu Deus do céu, Alberto, você matou o sujeito!! – disse Tomás, aproximando-se do amigo que tinha as mãos e o revólver manchados de sangue.                    
Bastos não disse nada. Estava petrificado. Lentamente soltou a arma que ainda portava, e esta foi parar no cão ao lado do corpo. Ao contrário do que imaginou que fosse acontecer em seguida à morte do sujeito - que seria uma agressão desmedida por parte de quase todo o grupo - ninguém se moveu. De onde estava, a pouco mais de dois metros Alberto viu o corpo inerte do infeliz. Era ainda muito jovem, e estava morto. O que fizera? De onde estava podia ver que o sangue continuava jorrando, ainda em grande quantidade. Apesar da enorme mancha vermelha que cobria boa parte do corpo, Bastos pôde perceber parte de uma tatuagem em forma de dragão que se estendia do peito até quase todo o antebraço esquerdo.    
- E agora?! – procurou saber seu subalterno.
- Vou ligar para a polícia – declarou este, certo de que aquela seria a atitude mais sensata a ser tomada em uma situação como aquela.
- Você está louco??!! E o que dirá?
- E o que tem para ser dito a não ser a verdade? Fui agredido. Todos viram. Se o matei foi em legítima defesa.
- Senhores, seria possível eu conversar a sós aqui com o meu amigo – pediu Tomás. – Podem aguardar lá fora, por favor?
- De jeito nenhum. Ninguém vai sair daqui até a polícia chegar – disse Bastos de forma enfática.
- Tudo bem. Saímos nós. Vamos lá fora – insistiu o amigo.
Deixaram a sala em silêncio. Já no corredor começou a conversa.
- Você ficou maluco?! Onde já se viu chamar a polícia em um caso como este. Pense em sua carreira, em sua família. Quer perder tudo que conquistou em uma vida inteira? Acha que terá perdão de alguém? Aquelas pessoas que estão lá dentro jamais testemunharão a seu favor. Vai pegar no mínimo vinte anos, meu amigo.
- Não há outro jeito. Você viu tudo como aconteceu.
- Não seja idiota!! Ali são cinco contra nós. Por que motivo o ajudarão? Já imaginou o que a imprensa fará com um caso como este? Você será condenado antes mesmo de ser julgado.
- O que importa. Não há saída. Estou desesperado. Meu Deus, o que eu fiz afinal?
- Talvez haja uma maneira de se resolver as coisas de uma maneira prática.
- Resolver?! Como? Temos aí dentro um cara morto! Como se resolve uma coisa como esta a não ser chamando a polícia?
- E se em alguns minutos não houver mais ninguém morto aí dentro? 
- Não estou entendendo. De que está falando?
- Fique aqui que vou voltar e conversar com esta gente. Talvez possamos dar um jeito nisto tudo – disse Tomás, batendo nas costas do velho amigo, como se aquilo lhe trouxesse algum conforto.
Em alguns minutos o homem estava de volta.
- Eu não disse? – falou Tomás com um sorriso de satisfação.
- O que você fez?
- Vão dar um sumiço no corpo.
- Como??!! De jeito nenhum!
- É isto mesmo que você ouviu, meu amigo. Vão sumir com o morto.
- Vão sumir assim, sem mais nem menos?
- Claro que isto terá um preço. Mas a um custo bem mais baixo que vinte anos em cana, pode ter certeza.
- Não sei não.
- Deixe tudo comigo que eu dou um jeito em tudo. Afinal, amigos é para estas coisas, não?
- Conhece mesmo estas pessoas? – indagou Alberto ainda em dúvida sobre que caminho tomar a partir dali.
- O único que não conhecia muito bem era exatamente o que morreu. Só sei que é aí da região de Itabuna. Trabalhou em um posto de gasolina lá no centro da cidade, mas agora está desempregado. A falta dele ninguém vai dar por um bom tempo.
- Acho que tudo isto é loucura!
- Loucura ou não, é assim que será. Não vai acabar com sua vida por causa de um marginalzinho destes, vai?
- Não importa. É uma pessoa, um ser humano.
- Esta gente não faz a menor falta. Ele já esteve preso duas vezes, pelo que fiquei sabendo agora mesmo. Boa gente é que não era.
- Mesmo assim.
- Mesmo assim coisa nenhuma! Vá para casa como se nada tivesse acontecido e deixe o resto por minha conta.
Por um momento Alberto chegou à conclusão de que aquela era mesmo a melhor solução para o caso. Pensou na família e na humilhação pela qual passaria. Afinal não teve culpa pelo que acorrera. Aquilo poderia abalar inclusive o próprio governo do estado. Um secretário envolvido com assassinato!  Estavam em ano eleitoral e com aquele acontecimento suas pretensões à assembléia legislativa iriam por terra imediatamente. 
- Vá para casa – insistiu o amigo. – Já não lhe disse para ficar tranqüilo?
- Não sei como lhe agradecer, meu querido amigo.
- Amigos, sempre amigos – foram as últimas palavras de Tomás antes de acompanhar Bastos até o automóvel estacionado à porta do prédio.
Já passava da meia noite quando o responsável pela morte do rapaz chegou em casa.

No dia seguinte Alberto Bastos Júnior chegou atrasado ao trabalho. Já eram quase dez horas quando entrou em sua sala. Mal se sentou, ouviu o telefone interno tocar. Atendeu e ficou sabendo que seu auxiliar Tomás o havia procurado várias vezes. Sentiu um frio na espinha ao ouvir aquele nome. Seria possível que alguma coisa tivesse saído errado? Mandou a secretária avisar que já estava ali. Em poucos minutos seu subordinado estava diante dele.
- Como passou a noite? – procurou saber o homem ao perceber, pelo aspecto do chefe, que este mal havia dormido naquela noite.
- Como pensa que passei? Depois de tudo que aconteceu não era mesmo para ter sono, não acha?
- Não sei por que se preocupar. Demos um sumiço no corpo que nem o diabo vai achá-lo. Além do mais demos um tratamento a ele que ninguém seria capaz de identificá-lo.
- Meu Deus!! Até agora não acredito em nada do que está acontecendo.
- Acontecendo, não, aconteceu. Agora não existe mais nada que possa vir à tona, nem o corpo.
- Jogaram o pobre coitado no mar?
- Prefiro poupá-lo dos detalhes. Isto em nada vai ajudar a esquecer o que aconteceu.
- Aconteça o que acontecer, jamais esquecerei esta tragédia.
- Tragédia?! De que tragédia está falando? Da morte daquele João Ninguém? Esqueça! O mundo não perdeu nada.
- Filho da mãe! Era uma vida e isto por si só é uma grande perda.
- Entenda como quiser. Para mim não faz a menor diferença. O importante é que você ficou livre deste incômodo.
- E o pessoal?
- Estão todos bem, eu acho. Foram muito prestativos todos eles.  
- Por que me procurou tão cedo? A Ana, minha secretária, me falou que antes das oito já estava me procurando.
- Queria falar sobre o que faremos a partir de agora, meu caro. Falei com todos que você seria generoso quando se tratasse de pagamento pelo trabalho que lhe prestaram.
- Pois então falemos. Quanto querem?
- Pouco. Pouco se considerarmos o que foi feito.
- Quanto?
- Vinte mil.
- Razoável.
- Para cada um deles.
- Não acredito! Vinte mil para casa um?! Isto é extorsão! Estão se aproveitando da situação.
- Não acha que este pessoal vai ficar calado por qualquer ninharia, não é mesmo? É uma situação especial e você sabe como é este tipo de gente, tiram proveito de tudo que podem.
- Desgraçados!
- É a vida – disse calmamente Tomás. – E não é só isto.
Alberto sentiu um ligeiro mal-estar. Ainda queriam mais alguma coisa? Não era possível! Infelizes!
- Mais??!!
- Dois deles querem trabalho.
- Sabem que você tem influência... Um emprego qualquer. Não vai lhe custar nada. Afinal o pagamento não vai sair do seu bolso.
- Não acredito no que está acontecendo. Preciso pensar.
- Pensar?! Querem o dinheiro e a resposta o mais rápido possível. Com esta gente não se brinca, meu amigo.
- E você me disse, quando me convidou para jogar, que eram todas pessoas conhecidas.  Isto que estão fazendo é chantagem, sabia?
- Quanto a isto eu não sei, porque não entendo bem destas coisas. Esta é a realidade dos fatos. Você tem um problema e precisa resolvê-lo. E se eu não os conhecesse, acha que teriam ajudado? Só fizeram isto porque são gente de confiança.
- Quanto ao dinheiro vou providenciar até o final da tarde. Não tenho disponível, mas vou ver com alguns amigos. Agora quanto aos empregos...
- Veja isto realmente o mais rápido possível.
- Já entendi o recado. Agora se me der licença, preciso trabalhar. E vá você também que deve ter alguma coisa para fazer, não?  
Tomás deixou a sala e ali ficou, mergulhado em um mar de pensamentos obscuros, o funcionário do governo. Precisava resolver aquilo rapidamente. Não seria nada agradável manter aquelas pessoas por perto. Quanto mais cedo ficasse livre daquela gente, melhor. Pegou o telefone e fez algumas ligações. Logo depois avisou a secretária que cancelasse suas reuniões daquele dia. Não estava passando bem e iria voltar para casa. 
- Aqui tem cento e vinte mil reais. É o que exigiram, não?. Agora quanto aos empregos, não se consegue algo desta natureza assim com tanta facilidade, mas já falei com um amigo a respeito disto – comunicou Alberto ao subordinado logo nos primeiros momentos depois de sua chegada ao gabinete no dia seguinte.
- Vou conversar com eles. Não sei se vão gostar, mas vou ver o que posso fazer.
- Diga-lhes que vou procurar solucionar isto o mais rápido possível. Quem tem mais interesse de que tudo se resolva de forma ligeira sou eu. Vai sair com todo este dinheiro assim? – indagou Alberto entregando ao seu assistente uma valise contendo aquela pequena fortuna.
- Estão me aguardando no estacionamento – foi a resposta de Tomás ao se retirar da sala.
A sós Bastos sentiu-se aliviado, mas algo lhe dizia que não havia colocado um ponto final àquela história. Era uma simples intuição, mas que o deixava meio apreensivo. Sabia que chantagem tinha data para iniciar, mas jamais para ter fim. Tentou se concentrar em seus afazeres. Havia duas reuniões importantes ainda naquela manhã; uma inclusive com o governador.
- Senhor Alberto, sua irmã ligou ontem à tardinha e pediu que eu lhe avisasse que tem um compromisso com ela sexta à noite – disse a secretária ao telefone.
- Compromisso?! 
- Ela disse que o senhor sabe do que se trata. Só pediu para não deixar o senhor se esquecer.
Desligado o telefone, Bastos foi à agenda e conferiu: sexta-feira, vinte horas; teatro.
Se não fosse lembrado certamente se esqueceria.
O dia todo transcorreu sem novidade alguma. Bastos não foi mais visto até por volta das quatro quando foi chamado pelo chefe.
- Fique tranqüilo. Conversei com o pessoal. Vão esperar.

No entanto, no dia seguinte Tomás retornou com más notícias.
- Não querem esperar coisa nenhuma. Além disso, descobriram que você tem várias fazendas aí pelo interior do estado. Estão exigindo mais dinheiro. Disseram que o que pediram é muito pouco, que aquilo é uma besteira perto do que você pode pagar. Afinal lhe prestaram um serviço muito valioso. E algo desta natureza vale milhões. Você na verdade está comprando sua própria liberdade. 
- Mais dinheiro?! Esta gente perdeu a noção das coisas? Diga que não pagarei um centavo a mais. Acabou! Não tenho uma fábrica de dinheiro. Que se danem estes miseráveis! Nem um centavo a mais, ouviu. Pode dizer isto àqueles filhos da mãe – esbravejou Alberto.
- Meu caro Alberto Bastos Júnior, acho bom você reconsiderar e não ficar gritando comigo. O que eu fiz para merecer isto? Só estou lhe prestando um favor. Se fosse outro deixaria você na mão. Estou preocupado porque se a coisa vier à tona, eu também posso, de uma forma indireta, ser envolvido. Tenho família como você. Preciso pensar em meus filhos, em meu emprego.
O que havia para se fazer dinheiro rápido como a situação exigia eras ações na bolsa de valores. Lançou mão delas de um dia para outro e mandou entregar parte do dinheiro solicitado a quem o estava chantageando.
Naquela mesma tarde uma carta anônima foi enviada ao seu gabinete. Nela alguém deixava bem claro que se o restante do dinheiro não fosse providenciado rapidamente, o jornal de maior circulação da cidade também receberia correspondência tratando do mesmo assunto.
Bastos sabia que para acabar com uma carreira política, muitas vezes, basta uma suspeita.
- Diga a eles que tenham paciência. Vou ver o que consigo daqui para o final de semana – mandou seu assessor avisar.

Quando chegaram, o teatro não estava cheio. O espetáculo era a reapresentação de uma antiga peça de sucesso de alguns anos antes. Os ingressos, adquiridos com mais de uma semana de antecedência, permitiram que ficassem a poucos metros do palco. Tinham; pois, uma visão privilegiada do palco. Apagadas as luzes a peça teve início. Era a história de um casal muito tradicional que tinha dois filhos amantes da música. Um dos rapazes, o mais velho, era envolvido com o mundo da música erudita; o mais jovem, porém era surfista e roqueiro. Um contraste absurdo que levava os pais sempre a situações realmente cômicas.  
Mal começou o espetáculo e Alberto teve a estranha sensação de que já havia visto um dos atores: o que fazia o papel do mais jovem dos filhos. Apesar de estar com cabelos longos, soltos e de óculos escuros, sua fisionomia lhe era familiar. No último ato da peça, este mesmo personagem apareceu com camisa de mangas cavadas. Aquele tipo de roupa permitiu que ele exibisse por completo seus braços nus e em um deles, o esquerdo, nitidamente a calda de um dragão.
Alberto sentiu uma quantidade imensa de saliva salgada invadir-lhe a boca. Estaria ali, à sua frente o mesmo rapaz que fora morto por ele dias atrás? Impossível! Impossível??!! Impaciente, Alberto assistiu à peça até ao final. Não prestava atenção a nada a não ser em cada movimento do referido ator. Cada gesto do sujeito, sua voz, seus trejeitos o faziam mais parecido com aquela pessoa que fora morta naquela fatídica noite. Mas o que mais o fazia idêntico ao outro era maldita tatuagem. Não era possível que tudo aquilo fosse mera coincidência! Imediatamente traçou um ligeiro plano para confirmar suas suspeitas.

Aquela noite fora de inquietude total. Mas sentia-se particularmente menos tenso que nos dias anteriores. Já sabia que meditas deveria tomar para descobrir a verdade sobre tudo aquilo.
Três dias depois, estava sentado à sua mesa de trabalho Davi Malta, um dos mais conceituados diretores de teatro da cidade.
- Veja se são estes os atores que pretende contratar – pediu o homem estendendo a Alberto uma fotografia que trouxera em um envelope.
Uma a uma as pessoas presentes na foto foram observadas detalhadamente. Dos seis que se encontravam naquela fatídica sala de jogos, cinco estavam ali. Um verdadeiro achado!
- São uma companhia?
- Exatamente. Já encenaram algumas peças. Alguns são realmente muito bons, outros nem tanto.
- E este? – indagou o chefe do gabinete apontando para o ator o qual atuara na peça assistida dias antes e que supostamente fora morto durante a luta. 
- É bom!. Tem muito talento.
Ao todo eram dez atores mostrados na fotografia. Mas para os planos de Alberto Bastos só seriam necessários alguns. Os demais precisavam ser descartados. 
- Mas me diga uma coisa – pediu o diretor teatral.
- O que é?
- Por que o secretário de meio-ambiente quer produzir uma peça de teatro?
- Para dizer a verdade, acho que estou no lugar errado. Sempre quis investir neste campo. Mas gostaria de pedir-lhe um favor. Caso venhamos a fechar o negócio, não gostaria que meu nome aparecesse. Sabe como são estas coisas. É para não causar problema com a concorrência, entende?
- Quanto a isto não tem com que se preocupar. Tudo será mantido em sigilo. E quanto aos atores? Nada posso dizer a eles?
- Por enquanto não. Acho que é melhor eu me manter no anonimato. Pode ser que as coisas não saiam como estou prevendo e aí...
- Será como o senhor quiser. E quanto ao texto?
- Texto eu já o tenho. É este aqui – informou Bastos exibindo um calhamaço de folhas impressas. – Só precisamos de alguém que o adapte para o teatro.
- É da autoria do senhor?
- Não. Mas acho que daria uma peça de teatro soberba. Leve-o, leia-o e me diga até o final da semana o que acha.  

Enquanto Malta lia e relia o texto, Alberto fez contato com uma agência de detetives.
- Só quero saber quem são estas pessoas. Estou contratando estas pessoas e quero saber se não vou investir meu dinheiro em pessoas que não mereçam confiança. Quero saber tudo sobre cada um deles – disse Bastos ao investigador contratado.

Três dias depois começaram a chegar as informações trazidas pelo detetive.
- Formam um grupo antigo, mas que ainda não tive muitas oportunidades. Encenaram algumas peças, mas nada representativo.
- E financeiramente?
- financeiramente?!
- É. Como são financeiramente?
- Estranha esta pergunta do senhor, mas ultimamente aconteceu algo estranho. Um deles, o mais jovem, parece que ganhou na loteria. Comprou recentemente um carro de mais de setenta mil. Estranho para um atorzinho sem nenhum significado. Além disso fui informado que está fechando negócio para compra de um apartamento no bairro do Itaigara.
- E os outros?
- Continuam numa dureza só. Dois deles moram com as famílias e quando não estão encenando peça nenhuma, vivem de pequenas apresentações em escolas. Um deles é até caixa de um supermercado.
- Me diga aqui nesta foto quem anda gastando dinheiro além da conta.
- Este – apontou o detetive para aquele que já estava sob suspeita de Alberto.
- Mais alguma coisa?
- Não. Por enquanto já está muito bom. Fez um trabalho de excelente qualidade. Já sei a quem recorrer quando voltar a precisar.
     
- Senhor Alberto, li o texto e acho que não teremos dificuldades em encená-lo. Pedi a um amigo, especialista neste tipo de trabalho, para fazer a adaptação – foi dizendo Malta.- Agora precisamos acertar alguns detalhes.
- E quais seriam?
- Falta ainda um dos atores e precisamos definir os papéis de cada um.
- Este ator que falta será indicado também por mim. Nada pessoal, mas quero gente de minha inteira confiança atuando nesta peça. Agora quanto à divisão dos papéis, só faço uma exigência.
- E qual é?
- Quem vai fazer o papel da personagem que deverá morrer no final será este rapaz aqui – disse Alberto apontando para um dos atores. É o mais importante papel da peça e você mesmo me disse que é uma pessoa de muito talento.
- Conhece-o?
- Eu o vi atuar em uma peça que assisti esta semana.  Não havia dito nada a você ainda porque não queria que fosse influenciado por minha opinião. É mesmo muito bom.  

No outro dia Bastos não compareceu ao trabalho e nem nos outros subseqüentes. Ali não apareceu mais. Simplesmente desapareceu como num passe de mágica. Só vieram a ter notícia dele, quase uma semana mais tarde quando seu corpo foi encontrado em uma das praias do litoral norte.

- Como andam os ensaios, meu caro Malta? – procurou saber Alberto, curioso que estava com o andamento das coisas.
- Muito bem! – Não estamos acostumados com dramas no teatro baiano, mas tenho convicção de que esta peça pegará todo mundo de surpresa – declarou, empolgado, o diretor teatral. – Faremos mesmo sucesso, pode apostar. Vai ser uma surpresa para todo mundo.
- Estou certo de que tudo correrá como estou prevendo. Surpresa! Esta é a palavra. Afinal não foi à toa que convidei o senhor para dirigir.

No dia seguinte, na primeira página de um dos principais jornais da cidade, uma manchete deixou todos atônitos: Jovem ator morre durante ensaios.
Alberto Bastos Júnior correu os olhos pela lide e conferiu as informações: O ator Marcelo Mendes, de vinte e cinco anos, morreu vitimado por uma bala durante o ensaio de uma peça teatral. Ao secretário de governo não interessava a notícia em si. Já a conhecia mesmo antes de ser publicada.
A peça intitulada Jogo Mortal iria mostrar a que ponto chega a bestialidade humana quando um grupo de amigos se envolviam em um tipo de jogo conhecido como roleta russa. Ali durante os ensaios a fantasia cedeu lugar à realidade. A bala de festim que deveria ser usada fora substituída por uma de verdade.



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