VOCÊ JÁ PENSOU EM ESCREVER E PUBLICAR UM LIVRO?


 

 


O Dom de Escrever

 

 

Existem algumas perguntas que sempre nos vêm à cabeça quando o assunto é produzir Literatura.
 

Será que já não há muita gente fazendo isso?
 

Já não temos obras demais no mercado?
 

Existe espaço para tanta gente?
 

Ensinar a escrever não será rebaixar a arte ao colocar sua produção ao alcance de tantas pessoas? Não a tornaremos algo fútil se a tornamos mais acessível ao grande público?
 

Há nisso evidentemente um perigo, mas o abuso de uma coisa não prova que ela seja má.
 

Consideremos o seguinte: Toda a gente fala, mas nem todos são oradores. A pintura vulgarizou-se, mas nem todos são pintores. Nem todos os músicos fazem óperas.
 

Portanto, aprendamos a escrever. O tempo vai certamente se incumbir de selecionar o joio do trigo e nos colocar, ou não, entre os que de fato têm vocação e capacidade para isso. Estamos, então, em princípio, ao abrigo de qualquer censura.
 

Por outro lado, podemos escrever, não só para o público, mas para nós próprios, para satisfação pessoal.
 

A literatura é um atrativo, como a pintura e a música, uma distração nobre e permitida a qualquer pessoa, um meio de dulcificar as horas da vida e, muitas vezes, os enfados da solidão.
 

Contudo, muitos questionam sobre as técnicas e as orientações que damos em um curso como este.
 

Acreditam que os conselhos serão bons para as pessoas de muita imaginação, visto que a imaginação é faculdade essencial para este tipo de arte. Será possível dar imaginação àqueles que não a têm?
 

A resposta não é difícil.
 

Aqueles que não tiverem imaginação passarão sem ela, mesmo em se tratando de Literatura. Há um estilo feito a partir de ideais, um estilo abstrato, um estilo seco, formado de nítida solidez e de pensamento puro, simples recortes do cotidiano que é admirável!
 

Cada um pode, portanto, escrever conforme as suas faculdades pessoais.
 

Este poderá apresentar discussões abstratas, aquele poderá descrever a natureza, abeirar-se do romance, dialogar situações. Não há limitações, portanto, neste universo. Quem souber redigir uma carta, isto é, fazer uma narrativa a um amigo, deve ser capaz de escrever, por exemplo, um conto. Isso porque uma página de um texto literário é uma narrativa feita para o público.
 

Quem pode escrever uma página, pode escrever dez. Basta fôlego!
 

E quem sabe fazer uma novela certamente será capaz de fazer um livro, porque uma série de capítulos, nada mais é que é uma série de novelas.
 

Assim, qualquer pessoa que tenha mediana aptidão e leitura, poderá escrever, se quiser. Para isso basta aplicar-se. Se a arte lhe for interessante, se tiver o desejo de expressar o que vê e de descrever o que sente, o caminho estará aberto.
 

A Literatura não é, desta forma, uma ciência inatingível, reservada a raros iniciados e que exija grandes estudos preparatórios.
 

É uma vocação, que cada um traz consigo e que desenvolve, mais ou menos, segundo as exigências da vida e as ocasiões favoráveis.
 

Claro que há muita gente que escreve mal. E muita gente há, que poderia escrever bem, mas que não escreve e não se interessa em melhorar a escrita, porque sequer tem consciência de sua pequenez neste tipo de atividade.
 

O dom de escrever, isto é, a facilidade de exprimir o que se sente, é uma faculdade tão natural ao homem como o dom da fala. Ora, se toda a gente pode contar o que viu, porque não poderia escrevê-lo?
 

A escrita não é senão a transcrição da palavra falada, e é por isso que se diz que o estilo é o homem. O estilo mais bem escrito é, na maioria das vezes, o estilo que se poderia falar melhor.
 

Dessa forma o entendia o francês Montaigne, um dos maiores nomes da Literatura de todos os tempos. Indagou ele certa vez a um amigo: Nunca vos impressionastes com o desembaraço, que os aldeões empregam nas suas narrativas, quando se servem da sua linguagem natal?
 

As pessoas do povo, para exprimir coisas pelas quais passaram, têm certas palavras e originalidades de expressão e uma criação de imagens, que espantam os profissionais. Se qualquer pessoa de coração, qualquer uma, escrever a alguém sobre a morte de uma pessoa querida, fará uma admirável narrativa, que nenhum escritor poderá imitar, quer seja Machado, quer seja Shakespeare.
 

Muitos mestres da Literatura, em visitas a certos lugares, copiava servilmente os diálogos das pessoas com quem falava. E os reproduzia fielmente, dando às suas obras uma qualidade única.

 

Portanto, se toda a gente pode escrever, com muita mais razão e propriedade o podem fazer as pessoas medianamente cultas, as pessoas que têm leitura e que amam a Literatura. Dentre eles estão os jovens que fazem versos elegantes ou registra os seus pensamentos num diário íntimo.
 

Há muita gente, que, dirigida e ensinada, poderá determinar e aumentar as suas aptidões pela criação literária e, claro, desenvolver talentos.
 

Muitos ignoram as suas forças, porque nunca as experimentaram, e estão mesmo longe de imaginar que poderiam escrever. Outros, mal ajudados ou dissuadidos da sua vocação, desanimam por se reconhecerem medíocres, sem um guia que os oriente e os aperfeiçoe.
 

Quase todas as pessoas que escrevem mal, o fazem porque não lhes foi demonstrado o mecanismo do estilo, a anatomia da escrita, nem como se encontra uma imagem e se constrói uma frase.
 

Assim, descobrir o filão, tirar o diamante, sachar a terra, nada é, e é tudo.
 

Quando se refazem as frases, quando se descobrem as imagens, quando se limpa o estilo e quando se reúnem as palavras certas, quanta felicidade!

 

 

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A MÁQUINA DA FORTUNA


Honestamente, quem nunca pensou em ganhar muito dinheiro sem fazer muita força? Não sei, mas talvez escrever um livro com lembranças de sua infância e que vendesse milhões em todo o mundo. Talvez inventar algo extraordinário. Este último, para Carlos Nepomuceno, era mais difícil. Na opinião dele nada mais existia para ser inventado. Tudo já estava ali. Tudo, até surgirem os celulares.
- Como eu não havia pensado nisto? – comentara com um amigo.
Quase que simultaneamente vieram os alimentos transgênicos, os clones...
- Assim não é possível! – reclamara com outra pessoa.
Iam-se os anos e Carlos continuava com aquela obsessão por ganhar dinheiro. Dinheiro, não, muito dinheiro. Trabalho mesmo, que é o mínimo que qualquer um precisa ter para se sustentar, ele não queria.
- Vocês vão ver. É só uma questão de tempo.
- Não sei não – limitava-se a comentar um tio.
- Certa feita ouvi uma história de um sujeito lá nos Estados Unidos que teve uma idéia luminosa para levantar uma grana sem quase nenhum esforço. Veja só que idéia genial: colocou em um jornal um anúncio dizendo o seguinte: se quiser ficar rico em poucos dias eu estou disposto a revelar como. Para tanto envie um dólar para... E deu lá o endereço. Não é que choveu dinheiro na casa dele? Dizem que passou mais de um mês só contando as notas.
- E daí?
- Daí que ele explicou como cada um deveria fazer ganhar uma fortuna em poucos dias.
- E como era? – indagou, curioso, o tio.     
- Fazendo a mesma coisa que ele havia feito, ora.

Há alguns anos recebeu como herança uma pequena gleba de terra. Uma tia havia morrido. Era terra nordestina, com todas as características da região da caatinga: muito pedregulho, nenhuma vegetação e um sol lá no céu tal qual um vigilante eterno, como se quisesse o astro rei que nada ali embaixo passasse despercebido.  
Aquilo para o esperançoso sujeito, eram bons presságios. Em terreno semelhante, em um município vizinho, fora encontrado petróleo. Se tinha lá, por que não em sua propriedade? Escreveu à Petrobrás. Solicitou que viessem fazer uma verificação. Sua intuição jamais falhara, dissera na carta. Lá é que nunca apareceram.
Lembrou então de um velho filme americano, o qual mostrava jatos de petróleo brotando da terra a um simples cavar de um buraco. Se havia acontecido lá, por que não ali?  Comprou ferramentas adequadas àquele tipo de atividade e partiu para a batalha. Em poucos dias não havia um palmo de terra em sua propriedade que não houvesse sido atacado. Quem olhasse de longe acreditaria que ali estava sendo preparada a terra para o plantio de algum novo tipo de cultura.
Três semanas mais tarde, desconsolado, Carlos encostou o equipamento a uma parede e voltou para a rede na varanda da casa, lugar de pouco esforço mais propício às meditações.      
- Carlito, meu filho, vá pelo menos ler alguma coisa. A leitura abre a cabeça das pessoas. - dizia a mãe preocupadíssima com o futuro do rapaz. Mas o menino era cabeça dura. Ler lhe doía. Para dar sossego à mãe, já havia tentado, mas não passara da terceira página de um livro sobre... Sobre o que mesmo era aquele estorvo? Não importava. O que importava é que era um aborrecimento, chatice sem tamanho. Muitas palavras desconhecidas. Onde já se viu se esforçar para compreender a história e ainda por cima ficar matando cabeça para achar significado das palavras? Um absurdo! Que não viesse com nenhum daqueles xaropes, sob pena de sair de casa e nunca mais voltar. Sair de casa? E para onde iria? Merda de vida aquela! Era obrigado a ouvir aquele tipo de conversa eternamente. 
Mas as coisas iriam mudar. Ah, se iriam! Tudo era uma questão de tempo. Aliás, tudo nesta vida de meu Deus é simplesmente uma questão de tempo. 
- Carlito, leia este, meu filho. Olha só a espessura. É fininho e, além do mais, são várias histórias. Se começar a não gostar de uma, pule para a outra.
Carlos Nepomuceno tomou o livreto nas mãos e olhou a capa. Nada que o fizesse se interessar pelo que tinha dentro.
Era um pequeno livro de contos de vários autores brasileiros. Abriu em qualquer página, procurou o início da narrativa, respirou fundo e mergulhou na história. Não foi além da quinta linha. Logo apareceu uma droga de palavra que ele desconhecia. Assim não era possível! Estes autores até parece que têm o claro objetivo de acabar com a graça dos leitores. Não respeitam nem aqueles primeiros momentos de preparação e já atacam com um vocabulário confuso, distante da realidade de quem quer que seja.
Partiu para outro. Este, o próprio título já era um mistério. Melhor deixar para lá. 
- E então? – procurou saber dona Malvina, depois de mais de duas horas.
Não houve resposta. Carlos dormia como um anjo. Melhor não acordá-lo. Talvez essa grande idéia que ele tanto buscava, surgisse através de um sonho.
Já era quase noitinha quando o rapaz acordou. Procurou pelo livro e o encontrou amassado sob o seu corpo. Estava aberto exatamente no início de uma das poucas narrativas pelas quais ele não tinha tentado se enveredar. Chamava-se A Máquina Extraviada. Máquina! Aquela era a palavra chave para o seu sucesso. Precisava inventar uma máquina que fizesse algo que ninguém ainda conseguira. Mas o quê? Correu rapidamente os pensamentos pela história das dificuldades humanas e não encontrou nada que pudesse ser criado para resolvê-las. Tudo já fora criado.
Curiosamente começou a ler o texto. Era uma história interessante de uma máquina que tinha aparecido em uma cidadezinha do interior. Todos no lugarejo, por não saberem a que se propunha a tal engrenagem, passam a fazer conjecturas sobre a sua utilidade. Não precisou ir muito longe para deixar o livro. O que havia lido já fora suficiente para dar-lhe uma grande idéia. Bendito texto! Genial aquela idéia e mais brilhante ainda a sua que tivera a partir das idéias de José J. Veiga, seu autor.     
Saiu da rede animado. Já possuía todo o plano na cabeça. Desta vez nada daria errado. Era dinheiro fácil e mais rápido do que esperava.
Naquela noite nem dormiu direito. Quanto mais cedo colocasse o plano em ação, mais rápido, obviamente, colheria os lucros. Como nunca havia pensado em algo daquela natureza?!
Na manhã seguinte, como fazia todos os dias, tomou café em companhia da mãe. Mas estava à mesa com aspecto diferente e aquilo não passou despercebido aos olhos da velha senhora.
- Vejo você com ares animados hoje, Carlito.
- E estou mesmo, mamãe. Tive aqui uma idéia que, estou certo, vai mudar a minha vida. A minha, não, a nossa – declarou Carlos mostrando-se visivelmente otimista.
Dona Malvina não quis ir muito adiante com a conversa, pois já conhecia o filho. Suas idéias não o levavam muito adiante.
- Vou precisar fazer uma pequena viagem – disse de repente.
- E para onde vai?  
- Lembra-se do Roberto, o filho da dona Engrácia?
- Claro. Tomou um dinheiro emprestado há quase vinte anos e nunca me pagou.
- Mamãe, vou lhe dizer uma coisa – refletiu o rapaz enquanto sorvia o café. - As pessoas não prosperam nesta vida, acho que é por coisas desta natureza.
- Que coisas?
- Esta mesquinhez. Releve isto. Quanto é que o Roberto lhe deve?
- A valores de hoje, uns dois mil provavelmente.
- E o que é isto? Esta quantia não vale nada diante do que virá pela frente. Fez bem em não ficar chateando o sujeito por causa desta ninharia. Agora vou precisar de um grande favor dele. Se tivesse com raiva da gente, agora seria difícil contar com a sua ajuda.
- Seu plano para ganhar dinheiro envolve aquele mau caráter?! Estão vamos ficar mais pobres do que já somos.
- Este seu pessimismo é outra coisa que me deixa triste. Este tipo de pensamento emperra qualquer projeto, qualquer sociedade. Como investir em algo que, de antemão, já cremos que não vai dar certo? Isto atrai coisas negativas. Não é bom, mamãe.   
- Quer dizer que está em seus planos uma sociedade com aquele aprendiz de bandido?
- Não seria bem uma sociedade, mas vou precisar muito da ajuda dele.
- As últimas notícias que tive daquele mau filho, mau marido, mau irmão, mau amigo e mau pagador, claro, foi que ele estava em Feira de Santana trabalhando com ferro velho.
- Pois é justamente isto que quero dele. Que me venda alguns ferros velhos. Mas não gostaria de adiantar nada para a senhora. Do jeito que é vai botar tanta água fria no negócio que ele não sai nem do papel, isto é, da cabeça.
Sabendo que em uma situação daquelas o filho sempre recorria às suas economias, dona Malvina adiantou-se:
- De quanto precisa?
- Besteira. Só mesmo o dinheiro para ir a Feira de Santana. Fico por lá alguns dias.
- Quantos dias?
- Se tudo correr bem volto no sábado
E lá se foi Carlos Nepomuceno. A mãe, zelosa, torcia para que aquela investida do filho não fosse mais uma de suas idéias magistrais, mas que sempre redundavam, se não em prejuízo financeiro para a família, em uma perda de tempo considerável. 
No sábado, como havia sido previsto, o filho estava de volta. Trazia um sorriso no rosto e um olhar confiante na vida. Ao ser indagado sobre o que andara fazendo durante aqueles dias em companhia do amigo, não quis adiantar nada. Tudo era mistério sobre o seu novo projeto. Se nem com a mãe se abrira, imagine com os amigos.
- Nada muito sério – dizia quando questionado.
O segredo, escutara certa feita, era a alma do negócio. E naquele caso ainda mais, sabia.
Naquela noite dormiu pouco. Não eram ainda quatro da manhã e já estava acordado. Foi à janela. A pracinha diante de sua casa estava deserta como deveria estar uma pracinha como aquela, em um lugar daqueles.
- Isto será por pouco tempo – disse a si mesmo com um sorriso de satisfação.
Fechou a janela e tentou conciliar o sono. Curiosamente dormiu, apesar da aflição por alguma coisa que deveria acontecer ainda naquela madrugada. Pela manhã, já com o sol nascendo, voltou à janela. Quase deu um grito de felicidade. Lá estava ela. O amigo havia realmente cumprido a palavra. Estava melhor do que esperava. Com os raios de sol brilhando em sua chaparia metálica, a máquina mostrava-se imponente, senhora da praça.
- Ao perceber a aproximação da mãe, Carlos tentou fechar a janela para evitar qualquer comentário naquele momento, mas não teve tempo.
- O que é aquilo lá?! – procurou saber dona Malvina, estranhando o que tinha diante dos olhos.
- Não faço a menor idéia – mentiu o filho.
Que coisa estranha. Parece... Não. Aquilo não parecia absolutamente com nada que se tinha visto até então. Era uma máquina gigantesca, com mais de três metros de altura por mais de quatro de comprimento. Lá em cima, apontando para o céu claro da manhã, dois tubos negros eram provavelmente os canos de descarga. Em suas laterais um emaranhado de outros tantos canos e cilindros. À frente, uma escada de ferro levava por certo ao local onde deveria se instalar seu operador. Mas uma máquina daquela magnitude seria operada apenas por um homem? Certamente que não. Várias pessoas seriam necessárias para dar conta de tantos canos, tantas engrenagens. Era um monstro!
Mas o que mais estranhava a velha senhora era uma espécie de alça na parte superior da máquina. Se olhasse de longe até parecia uma mala gigante, não fossem os dois canos provavelmente de descarga.
De onde estava, dona Malvina pôde reparar que a única coisa conhecida naquele conjunto de maquinaria era um motor. Este não era muito diferente de um motor de caminhão. O resto era algo que desafiava a mais fértil das mentes humanas. Qual a utilidade daquela coisa?
- Ora, mamãe, com estas novas tecnologias tudo se espera. 
- Isto está me parecendo mais uma daquelas máquinas que servem para colher arroz ou trigo – arriscou a Malvina.
- Pode ser – concordou Carlos com um sorriso maroto, mas sem deixar a velha perceber a sua reação diante do que fora observado. Afinal seu plano começara a dar certo. Quanto mais dúvidas aquela geringonça produzisse nas pessoas, melhor.
Do outro lado da praça um casal também levantava hipóteses sobre o que estava ali plantado diante deles.
- Para mim isto é uma perfuratriz de petróleo. Estava certo o filho de Dona Malvina quando andou cavando lá na propriedade dele. Debaixo desta terra seca deve jorrar rios de petróleo, meu velho. Para mim lá se foram os tempos das vacas magras – comentou a mulher.
O dono da padaria, ao abrir seu estabelecimento comercial e se deparar com aquilo, não conteve a surpresa e exclamou: 
- Jesus Cristo! O que é aquilo?!
- Não sei não, seu Manoel, mas me parece uma máquina de colher trigo. Vi uma destas lá no rio Grande do Sul uma vez – arriscou um de seus empregados.
- E o que estaria fazendo uma colheitadeira de colher trigo em um lugar como este?
- Se uma máquina desta está em nossa cidade é porque vão plantar trigo por aqui, ora.
- Plantar trigo em um lugar seco como este?
- Com estas novas tecnologias, seu Manoel, nada é impossível.
- Deus te ouça. Com o preço do trigo nas alturas que está, isto traria vitalidade à economia de toda a região.
Em poucos minutos a notícia do aparecimento daquele estranho objeto ganhou o mundo seco do sertão da Bahia. Para lá se dirigia gente de toda a cidade, das regiões circunvizinhas e até de municípios próximos.
- Para mim esta máquina não serva para nenhuma destas coisas – comentou um funcionário da prefeitura.
- E para que serve então, Luís? – questionou, intrigado, o dono do único bar da pracinha.
- Estive em Salvador na semana passada e vi uma máquina muito parecida como esta limpando as ruas da cidade. É uma espécie de aspirador de pó gigante. 
- E isto existe?!
- Se existe? Existe sim.
- E que utilidade teria isto por aqui? – insistiu o comerciante.
- O prefeito quando viajou na semana passada me disse que ia trazer novidades. Acho que é esta aí. Estamos na era da modernidade, seu Joaquim! São os novos tempos. Este negócio de vassoura já era!
- Por falar no prefeito, quando ele volta?
- Só na semana que vem. Está em São Paulo.
Dois dias depois ainda se ouvia aqui e acolá algumas teorias sobre a utilidade daquele magnífico equipamento.
- Isto é um extrator de água mineral – afiançou o dono da única funerária da cidade.
- Extrator de água mineral?! E o que vem a ser isto, seu Augusto?
- Não sei se o nome é este, mas é aquele equipamento que serve para sugar a água lá das profundezas.
- Água mineral por aqui? Esta é muito boa – comentou com ares de riso seu interlocutor.
- Já imaginou? Água mineral é coisa preciosa hoje em dia. Feliz daquele que for dono das terras onde botará esta bendita água.
Os dias iam passando e o rosário de suposições crescia de forma vertiginosa. E lá continuava a máquina, impávida, alheia a todo tipo de comentário e hipóteses desvairadas. Com o tempo, aquilo que a princípio era um assombro para a maioria das pessoas, passou a ser algo familiar, tanto que os meninos, curiosos que eram, começaram a se aproximar demais daquele colosso. Alguns até se punham a escalar a escada de ferro e atingir a seu teto. Aquele tipo de intimidade precisava ter um fim. O que diria o dono do equipamento quando chegasse à cidade? Que desrespeito para com o patrimônio alheio! No dia seguinte apareceu uma cerca de arame farpado dando-lhe a proteção que precisava e merecia.
Passavam-se os dias, mas não a curiosidade das pessoas. Duas escolas organizaram excursões para visitas à praça central da cidade. Coube então a algumas professoras outras tantas conjecturas sobre aquela obra-prima da mais moderna tecnologia.
- Muito bonito, mas para que serve, professora Ângela? – quis saber um dos alunos da primeira série.
Ângela era daquelas professoras... 
Isto, meus queridos alunos, pelo que posso perceber, nada mais é que um novo aparelho de medição dos índices pluviométricos. Resumindo é um pluviômetro.
- E o que é um pluvi... Não saiu o resto da palavra.
- Pluviômetro é um negócio que serve para medir a quantidade de chuvas que cai em um determinado lugar – adiantou um menino da quarta série.
- Mas aqui nunca chove – interferiu um terceiro aluno. - Para que vai servir um troço destes? Eu mesmo nem preciso disto para saber quanta chuva cai por aqui: nenhuma.
Naquelas alturas dos acontecimentos Carlos chegou à conclusão de que estava na hora de colocar a segunda parte de seu plano em prática.
Não demorou e a notícia de que o inventor e proprietário da máquina chegaria dentro de alguns dias. Tinha até dia e hora marcados: domingo, nove e meia da manhã. Então acabariam todas aquelas especulações.
Ninguém tinha idéia de quem seria, mas a ele já eram feitas as mais respeitosas referências. 
- Um gênio, sem dúvida! – disse um.
- São de pessoas como este homem que o Brasil precisa para entrar no novo século em igualdade de condições com certos países que se acham melhores do que nós. Quero ver agora o que dirão aqueles norte-americanos metidos à besta.
- Depois de Santos Dumont... – comentou outro.
- Será que é jovem? – arriscou uma das muitas moças casadoiras reunidas nas proximidades da máquina.
- E bonito, será que ele é? – adicionou mais uma.
- Normalmente os gênios são feios – completou a mais velha de todas. - Vi outro dia uma foto do  Einstein. Horrível!
Na tarde daquele mesmo dia, Carlos em companhia de alguns amigos no barzinho da praça, entre uma conversa e outra, entre um a cerveja e outra, arriscou:
- Já que vem mesmo aí o homem da máquina, o que vocês acham de fazermos um bolão?
- Bolão?! – estranharam alguns.
– E para que faríamos um bolão?
- Para ver quem acerta qual a finalidade que tem era geringonça aí – disse apontando para a máquina estacionada a poucos metros dali.
- Não é uma má idéia – concordou o dono do bar.
- E como seria feito isto? – quis saber um dos presentes.
É muito simples. Cada um aposta uma quantia pré-determinada na opção que achar que é a correta – explicou Carlos. – Vamos que você ache que ela sirva para extrair petróleo. Se for mesmo esta a finalidade dela, você ganha o dinheiro de todos os demais apostadores que erraram.
- Achei a idéia fantástica! – exclamou o dono do bar. – Quero apostar!
De repente, só ali no bar, já havia no mínimo umas vinte pessoas interessadas naquela modalidade de jogo.    
- Espere um pouco! – gritou Carlos em meio ao tumulto que se formava.
- Quem fará a lista com os nomes, as quantias apostadas e as sugestões de cada um? – procurou saber uma voz no meio do povo.
- Eu tive a idéia. Eu vou fazer a lista. E como eu terei um certo trabalho e algum custo, nada mais justo que eu embolse uma percentagem.
- Custo?! Que custo? – interveio o dono da funerária.
- Acha que vou trabalhar de graça, meu caro? Tempo é dinheiro. Vou disponibilizar boa parte do meu tempo para coletar as assinaturas, receber o dinheiro. Além de xérox, papel... Essas coisas.
- E quanto seria o seu percentual? – quis saber Luís, o funcionário da prefeitura.
- Que tal vinte por cento?
- É muito. Você não vai fazer quase nada. Isto é um absurdo declarou outro participante da reunião.
- Não se esqueçam que a idéia foi minha – tornou a falar Carlos, convencido de que seu plano estava indo melhor do que o esperado.
- Por mim tudo bem – aceitou Luís. - Uma boa idéia, às vezes, vale mais que uma grande ação.
- E então pessoal? – indagou o filho de dona Malvina.
- Quando começamos?
- Coincidência ou não, estou eu aqui com umas folhas de papel no bolso. Primeiro vamos tomar os nomes das pessoas que estão aqui e suas respectivas idéias. Em casa eu datilografo tudo direitinho como manda o figurino.
- Alto lá! – gritou uma voz rouca no meio dos clientes do bar.
Só faltava aquela! Um espírito de porco de última hora, pensou Carlos.
- Não podemos deixar todo este dinheiro nas mãos de uma só pessoa.
- Concordo plenamente – acudiu o organizador do jogo. Vamos escolher uma pessoa honesta e em quem todos nós confiamos para que tome conta do dinheiro.
- Eu sugiro minha mãe – adiantou um engraçadinho.
- De jeito nenhum!! Sou mais eu. Deixem comigo que garanto que não terão problemas. Dinheiro é coisa muito séria, ainda mais quando não é nosso – arriscou Dilermando, um velho conhecido de toda a comunidade pela suas falcatruas.
- Antes de falar em dinheiro dos outros procure pagar suas dívidas que é melhor. Só lá na minha mercearia deve mais de cem reais – revelou Custódio dos Santos, um senhor já de idade avançada.
- Está aí uma pessoa em que eu confio – comunicou Carlos. - No senhor, seu Custódio! Eu voto em seu Custódio. Fugir com o nosso dinheiro ele não vai, pois tem comércio na cidade - completou.
- Eu volto no padre Alberto – aventurou outro. – Este pessoal de igreja é sempre muito honesto. E além do mais, roubar é pecado – riu o homem.
Ao final de alguns minutos de discussão ficou tudo acertado: dois homens de caráter e reputação ilibados seriam os tesoureiros. Para Carlos não importava quem ficaria com a guarda daquela pequena fortuna. Seus vinte por cento seriam descontados logo no recebimento.  
Em menos de dez minutos, cinqüenta assinaturas. Curiosamente, a notícia do bolão correu tão rápido quanto a da chegada da máquina. Em poucas horas uma quantidade considerável de pessoas se aglomerava à porta da casa do rapaz. Dona Malvina precisou deixar suas obrigações domésticas para ajudar na montagem das listas.
Ao final do dia estavam mãe e filho exaustos de tanto trabalho.
- Quantas pessoas até agora? – indagou o rapaz.
- Cento e cinqüenta e oito.
Mentalmente Carlos fez as contas. Nada mal para apenas um dia de trabalho. Os dias subseqüentes não foram tão agitados, mas não deixaram de dar furtos. Era um pinga-pinga interminável. Vinha gente de várias regiões nas proximidades, interessadas em ganhar o dinheiro acumulado e por isso as mais estapafúrdias idéias apareceram.
- Eu quero apostar que este negócio aí é um descascador e ralador de aipim – disse uma mulher quase ao ouvido de Carlos para que sua idéia não fosse copiada.
Idéias repetidas, de acordo com as normas do jogo, fariam com que o prêmio fosse dividido. Por isso ninguém queria arriscar naquilo que significasse divisão dos lucros. Se perdesse, perderia apenas dez reais; se ganhasse, ganharia uma fortuna.
Aquele domingo amanheceu mais ensolarado que nunca. Junto à máquina um palanque foi montado para as solenidades e discursos adequados àquela ocasião. Todas as autoridades do município aguardavam ansiosamente pela chegada do tão esperado e misterioso proprietário da máquina. Aos poucos os alunos de várias escolas, agitando bandeirolas verde-amarelas, foram formando imensas filas ao longo da rua principal da cidade. Por ali passaria a criatura mais esperada dos últimos tempos. 
Os relógios dos presentes, assim como o da torre da igreja, preguiçosamente deixavam todos ainda mais extasiados. Nos galhos das árvores próximas, muitos curiosos não tiravam os olhos da estrada de terra lá adiante. A espera tornava-se aos poucos um verdadeiro suplício.
- Poeira!! – gritou uma das sentinelas.
- Vem vindo um caminhão – adicionou outro imediatamente.
Era a deixa que precisava para que a banda de música da cidade entoasse uma música solene. Todas a postos. Até os seis policiais da cidade haviam deixado a delegacia desguarnecida. Todos eles tinham dinheiro investido naquele negócio. Não perderiam por nada aquele acontecimento.
Lá veio vindo o caminhão. Era um destes veículos gigantes, munidos com um guindaste descomunal. Na cabine apenas uma pessoa, o motorista. Com habilidade o sujeito manobrou o carro, estacionou ao lado da máquina e içou-a por intermédio da alça para cima do caminhão. Tão silenciosamente como havia chegado, o misteriosos visitante desapareceu estrada afora.
Quatro dias depois Carlos encontrava-se com seu velho amigo, dono do ferro velho em Feira de Santana.
- Qual será a próxima?
- Estou vendo em Pilão Arcado. Tem lá um rapaz que se interessou em elaborar a lista de apostas. Vamos dar a ele cinco por cento. Quinze serão nossos. – riu o filho de dona Malvina.   


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