A CASA
A casa Justino alugou com apenas meia dúzia de palavras. Depois de algumas informações fornecidas pelo proprietário, o rapaz não discutiu sequer o preço. Era tudo que precisava para estar afastado do mundo. Calculava que em menos de quinze dias o livro estaria pronto.
Localizada à margem de um riacho, a sede da fazenda Ribeirão do Meio era uma construção monumental. Erguida no final do século dezenove quando as terras pertenciam ao Barão de Almenara, o prédio era uma imponente casa de dois andares.
Quem passasse pela estrada que levava à sede do município de Ilhéus, não podia desfrutar de sua grandiosidade; estava metida no meio do mato, por detrás de um pequeno elevado. Mas quem, por um motivo ou outro, tivesse a oportunidade de conhecê-la, por certo jamais a esqueceria.
A casa com suas dimensões colossais fora sede de uma das mais produtivas fazendas de cacau da região sul da Bahia. Ali, nos anos cinqüenta, quando o município vivia as glórias daquela singular lavoura, tudo era vida. Com freqüência a alta sociedade ilheense ali se reunia para festas monumentais oferecidas pelo casal Antônio e Olindina Prado, proprietários então do lugar. Foram aqueles tempos anos de fartura. A riqueza vinda da terra gerava outras riquezas, mudava conceitos e alterava valores. E estes novos valores, por sua vez, deu origem a uma série interminável de intrigas, desavenças e algumas tragédias. E uma única tragédia, apenas uma que seja, deita por terra todo o esplendor de uma época, esfacela as famílias, aparta os amigos e deixam áridos os campos.
E veio uma. Em poucos anos a casa onde por tantas vezes estiveram políticos de várias gerações, coronéis proprietários de outras terras, artistas consagrados e pintores famosos deixou de repente de existir. Morreu a casa simplesmente.
Justino de Almeida Passos publicara seu primeiro livro dois anos antes e até aquele momento ainda vivia colhendo seus frutos. Já era tempo de partir para uma nova obra. Sobre o que escreveria? Queria algo diferente. Algo sobre o qual nenhum escritor ainda tivesse falado. Impossível? Para a mente humana nada é de fato impossível. Aconselhado por um amigo, sobrinho do atual dono da propriedade, ele resolveu ir em busca de inspiração na região do cacau. O que não teria ainda dito Jorge Amado sobre aquele mundo? Quem melhor que este gênio de nossa literatura para falar sobre os mistérios e belezas daquele lugar?
Nosso personagem Justino, aquele que estava disposto a compor outros personagens, a contar algo inédito, chegou à sede da fazenda no dia dois de abril. Era uma manhã chuvosa. O veículo que o levara ao local, um táxi, ficou de retornar quinze dias mais tarde para levá-lo de volta. Era preciso isolar-se do mundo para colocar as idéias no papel. Antes mesmo de alugar a casa já havia traçado boa parte da história na mente. Estava ansioso para dar início à empreitada. Nas duas malas apenas algumas mudas de roupa, uma máquina portátil de escrever e alimentos para duas semanas. De que mais precisava? Precisava estar só, longe de tudo. Nenhum contato com o universo exterior era o que queria.
- Por que não leva pelo menos um radinho de pilha? – perguntara o amigo.
- Quero distância de tudo isto. Acho que só assim vou raciocinar com tranqüilidade. Vai ver que consigo sobreviver a este mundo globalizado, repleto de comunicação.
- Se é assim que quer...
- É assim que tem que ser, meu amigo – disse o rapaz, pondo um ponto final à conversa.
Fechada há mais de dez anos, mas mobiliada com os móveis originais, a casa somente foi aberta em três oportunidades: uma quando foi mostrada a um suposto comprador, o qual não fechou negócio; as demais foram em ocasiões em que fora alugada para grupos de turistas. Curiosamente, nas duas ocasiões alguém sofreu algum tipo de acidente ali. Um turista de São Paulo, ao descer uma das escadas acabou tendo um pé fraturado. Outro incidente também em circunstâncias semelhantes foi uma senhora, também turista, que ao fechar a porta da frente quando já estava de saída, teve um dos dedos da mão decepado.
Diante do casarão, o escritor colocou as malas no chão e correu os olhos pela sua fachada. Jamais havia visto algo igual. Foi paixão à primeira vista. Era como se já conhecesse aquele prédio há muito tempo. De onde estava se sentia capaz de descrever o seu interior. Dali viu a sala ampla com uma gigantesca mesa de jacarandá, ladeada por doze cadeiras, a cozinha com seu fogão à lenha, a escadaria que dava acesso ao andar superior. Alguma coisa lhe dizia que o que conseguia visualizar sem sequer entrar casa a dentro, se confirmaria quando esta fosse aberta.
A chuva cessara por completo a partir do momento em que chegara. Mesmo assim o céu continuava nublado, cinzento. Do riacho próximo vinha o murmurinho da água descendo, metendo-se por dentro da mata fechada à frente. Tomou as malas e adiantou-se em direção à porta. Subiu os três degraus de madeira que levavam à entrada principal. Dali parou por um instante e voltou-se para a ampla área diante da casa. À esquerda, os vestígios um velho curral e de um armazém usado para o estoque e secagem do cacau. Imaginou-se ali, há mais de um século. Viu os trabalhadores na labuta diária. Que mundo era aquele que aquelas construções insistiam em não deixar para trás?
Enfiou a chave na fechadura, mas não foi preciso girá-la. A porta estava aberta. Estranhou, pois imaginou encontrar tudo fechado, como lhe falara o proprietário. Sentiu como se aquilo fosse um convite para entrar. Entrou.
Tamanha não foi sua surpresa ao averiguar que a sala era exatamente como havia imaginado. Ali estava a mesa de madeira escura, ali estavam as cadeiras; exatamente doze. Sentiu uma calafrio ao conferir aquilo. Voltou-se e deparou com a escada de madeira, a qual levava ao primeiro andar. Como era possível aquilo? Até mesmo o corrimão era como havia imaginado: de um só lado, em estilo colonial, com os balaústres dispostos quase juntos uns aos outros.
Colocou as malas sobre a mesa e, com uma curiosidade quase instintiva, dirigiu-se à cozinha. Ao chegar lá, mostrou-se espantado diante do que via: nada era diferente do que viera à sua mente quando observara a casa no momento de sua chegada.
Tornou à sala e abriu as três imensas janelas que davam para o pátio. Imediatamente a claridade invadiu a sala, o que foi significativo para que Justino conferisse cada detalhe do ambiente. No entanto, mal ele voltou-se para retirar de sobre a mesa o que tinha trazido, uma a uma, as janela foram se fechando. Não deu importância àquilo. Por certo estavam empenadas. Tomou a bagagem e subiu as escadas em direção aos quartos. Eram cinco ao todo. À medida que subia ia imaginando como seriam as pessoas que ali viveram no passado. Quantas ao todo? Onde estariam seus descendentes? Aleatoriamente escolheu um dos aposentos para ser seu escritório durante o tempo que passasse ali. A um canto do quarto, uma cama de madeira e sobre ela um colchão de palha. Nada muito confortável, pensou. Mas quem quer conforto não iria parar em um lugar daqueles. O que queria era sossego para que as idéias lhe brotassem aos turbilhões.
Apesar de já ser dia, o ambiente continuava escuro. De imediato dirigiu-se à única janela do quarto e a abriu. Dali tinha um vista privilegiada de uma boa extensão do terreno à frente da casa. De onde estava podia avistar a estrada lá adiante, sumindo no meio do mato. Ainda estava debruçado na janela quando sentiu o ranger de dobradiças ao seu lado. Afastou-se e viu a janela fechar-se diante dele, colocando o aposento outra vez na penumbra.
Malditas janelas, pensou. Por certo era preciso arranjar calço para todas elas. Forçou para que ela voltasse a se abrir, mas sua tentativa foi em vão. Estava emperrada. Emperrada? Como aquilo era possível, se segundos antes ela fora aberta? Voltou a forçar, entretanto nada conseguiu. Mais tarde vejo isso, declarou a si mesmo.
Lá fora a chuva voltou a cair, agora acompanhada por fortes rajadas de vento.
A um canto do quarto havia uma mesinha, a qual seria usada para o trabalho. Sobre ela Justino colocou a máquina de escrever, buscou na sala uma cadeira e testou a altura e a disposição do móvel. Naquele local seria impossível trabalhar. Muito escuro. Tornou à janela, mas sequer forçou-a. Com a chuva lá fora não seria conveniente abri-la. Buscou em uma das malas o candeeiro trazido na bagagem, acendendo-o. Imediatamente a claridade invadiu todo o ambiente. Era luz suficiente para levar adiante o trabalho pretendido. Mas talvez aquele não fosse ainda o momento adequado. Antes de qualquer coisa, era preciso fazer, minuciosamente, um reconhecimento da casa.
O escritor voltou à sala e dela passou à cozinha. Sob o fogão, um monte de lenha combustível suficiente para vários dias. Sem dificuldade ateou fogo em alguns gravetos dispostos na fornalha propriamente dita. Dali partiu para a porta que dava acesso à parte dos fundos da casa. Abriu-a com cuidado para que a chuva, que ainda caía de forma insistente, não entrasse. Lá fora um quintal imenso com algumas mangueiras e diversos pés de cacau. De imediato uma lufada de vento jogou para dentro de casa borrifos de água. Mesmo assim, Justino permaneceu ali por alguns instantes. No entanto, ao ver que o vento atiçava as chamas no fogão procurou encostar a porta. Mas não foi necessário: como se o vento, de um momento para outro, invertesse a sua direção, a porta foi empurrada, fechando-se com violência. Fechando-a, não a trancando.
Preocupado com o fogo, Justino não deu importância àquilo. Só foi conferir realmente o que tinha acontecido no dia seguinte. Dirigiu-se a uma das prateleiras procurando por uma panela na qual ferveria a água para uma xícara de chá. Terminada aquela tarefa, voltou ao quarto eleito como seu quartel general naquela imensa casa.
O som da chuva no telhado, e o assobio do vento nas frestas da janela eram um convite irresistível para um descanso, afinal boa parte da noite passara acordado durante a viagem de Salvador até Ilhéus. Não estava, portanto, disposto a começar o trabalho naquele dia. Ajeitou a cama e atirou-se sobre ela. Em poucos minutos estava dormindo, vencido pelo sono e pelo embalo vindo da natureza lá fora.
Teve um sono um tanto quanto estranho. Em primeiro lugar sonhou que seu livro estava editado e que estava sendo lançado em uma grande festa promovida pela editora. Contudo não estava presente à solenidade. Depois sonhou que estivera encarcerado durante quase dois meses. Sob uma acusação tola, fora preso. Acordou assustado. Que horas seriam aquelas? Fizera questão de estar sem relógio todo o tempo que permanecesse ali. Aquilo fazia parte de seu auto isolamento.
Lá fora a chuva sumira por completo. Mas já devia ser noite, pois pelas frestas da janela viu o mundo externo mergulhado na escuridão. Quantas horas estivera dormindo? Várias, muitas. Mais de oito, provavelmente. Algo muito estranho, uma vez que jamais dormira mais de quatro horas seguidas. Estava meio desorientado, pois pela primeira vez na vida não tinha nenhuma noção de tempo. Não sabia que aquilo significasse tanto. Estava certo de que teria uma longa noite pela frente. Seu sono fora consumido com todas aquelas horas na cama. Era preciso se preparar para atravessar a madrugada praticamente toda acordado.
Acostumado ao burburinho característico da cidade grande, sentiu pela primeira vez a ausência total de barulho. Aquele era o mundo do silêncio, do isolamento, da quietude, do absolutamente nada... Desceu as escadas levando consigo o candeeiro. Era preciso preparar alguma coisa para comer. Ao passar pela sala, percebeu que uma das janelas, a que dava para a parte posterior da casa estava semi-aberta. Aproximou-se dela com o objetivo de fechá-la, mas não chegou a tocá-la. Lentamente ela colou-se ao batente, fechando-se sozinha. Justino que havia estendido o braço, tentando alcançá-la, ficou estático, petrificado. Era como se a janela tivesse obedecido a um seu comando mental.
Mas em instantes retomou ao seu estado normal. Por um minuto esquecera-se do que estava indo fazer: alimentar-se. dirigiu-se à mesa, retirou da mala algumas latas de comida em conserva e seguiu para a cozinha. Ainda havia fogo sob as cinzas. Não teve dificuldade em avivá-lo em poucos minutos comia. Antes mesmo de terminar a refeição, uma voz vindo de fora chamou-lhe a atenção. Era alguém cantarolando uma antiga canção popular voz de homem teve certeza. Quem seria àquela hora da noite?
Apressadamente dirigiu-se à sala e foi à janela. Na escuridão da noite uma luz de lanterna se aproximava da casa.
- Quem está aí? – procurou saber, estranhando a visita.
- Eu sou Antônio. Fui contratado pelo dono da casa para fazer uma limpeza antes do senhor chegar, mas acho que o senhor chegou adiantado peço que me perdoe.
- Seu Roberto não me disse nada a respeito de alguém para fazer limpeza – argumentou Justino estranhando a presença daquele homem.
- Ele me falou que o senhor só chegaria na quinta-feira, por isso fiquei despreocupado.
- Quinta-feira?! E que dia da semana é hoje?
- Terça.
- Terça?!
- Pelo menos é o que me consta.
- Acho que deve estar havendo um engano.
- Que tipo de engano, senhor?
- Não estava mesmo sabendo de sua vinda.
- Se incomodaria de abrir a porta para que eu entrasse? Está começando a chover e aqui fora está muito frio. Acho que aí dentro conversaremos mais à vontade, não acha?
O escritor ficou em dúvida por alguns segundos, mas achou que não havia nada de mais em dar guarita àquele infeliz.
- Tudo bem, mas acho que a porta não vai poder ser aberta. Está emperrada. Se não se importar, pode entrar pela janela.
- Emperrada?! Como isto foi acontecer?
- Não sei. Eu mesmo entrei por ela, mas logo depois ela bateu e não consegui abri-la. Deve ser o efeito da chuva. Madeira incha com a umidade, não é mesmo?
- Deixe ver se eu consigo abri-la pelo lado de fora.
- Tudo bem, mas veja se não vai provocar nenhum dano. Melhor emperrada do que aberta sem poder ser trancada.
- Não custa tentar... – disse o visitante aproximando-se.
Sem nenhum esforço o homem entrou por onde, segundo Justino, seria impossível.
- Como conseguiu isto?
- Não sei. Apenas empurrei e ela se abriu.
- Quer café? Estava pensando em passar um ainda agora.
- Com este tempo sempre é bom.
- Então foi contratado pelo dono da casa para fazer uma limpeza?
- Isto mesmo. Moro em Ilhéus e só vim mesmo para isto. Se o senhor quiser que eu volte outro dia, não faço questão.
- Está de carro?
- Não. Vim a pé. Mas não se preocupe que estou acostumado a andar longas distâncias. Vim certo de que iria passar a noite aqui. Mas agora...
- Em absoluto! Passará a noite aqui. Não sei é se existe cama em outro quarto. Nem tive ainda tempo de verificar.
- Quanto a isto não se preocupe. Já dormi aqui várias vezes. Em cada quarto tem uma ou duas camas. Boas até. Mas então o senhor está escrevendo um livro. Sempre imaginei como seriam estas pessoas assim como o senhor.
- Iguais a tantas outras como o senhor pode ver. Nada de especial – sorriu Justino.
Já era provavelmente alta madrugada quando os dois homens deixaram a sala. O visitante dirigiu-se a um dos quartos, o escritor, por falta de sono e do que fazer, resolveu que daria início à sua história naquela mesma noite. E conseguiu escrever o primeiro capítulo do livro antes do alvorecer. Quando, na distância, um galo cantou anunciando a chegada do sol, o livro já possuía quase dez páginas datilografadas. Uma produção considerável, levando-se em consideração o curto espaço de tempo. Achou estranho, mas as idéias lhe vinham como uma enxurrada. Construiu personagens e situações inimagináveis. Estava, ao amanhecer, deveras animado com o resultado obtido. Se a criatividade continuasse como começara, em poucos dias o trabalho estaria concluído.
Levantou-se e se dirigiu ao quarto ao lado, onde dormira o visitante. Empurrou a porta e estranhou, pois ali não havia ninguém. Já estaria de pé? Tão cedo ainda. Desceu, mas no andar térreo ninguém foi encontrado. Rumou para a porta da frente, contudo não pode abri-la: estava outra vez emperrada. Sobre a mesa da sala apenas uma xícara usada para tomar o café feito naquela madrugada. Tudo estava muito estranho. Voltou ao quarto e nenhum vestígio do homem. Chegou a pensar que tudo não tinha passado de coisas de sua imaginação fértil de escritor. Mas aquele homem estivera realmente ali, estava certo daquilo.
Em seu quarto deu início ao segundo capítulo do livro. À medida que o texto caminhava, sentia que ia, aos poucos, perdendo o controle sobre seu personagem principal: André, um homem atormentado por um crime, que jamais cometera, mas pagava por ele encarcerado há mais de dois anos.
Cada porta que o infeliz tentava abrir junto à justiça, era fechada hermeticamente pelo hábil advogado de acusação. Ao longo daquele tempo, quase vencido pelo desânimo, em virtude das fracassadas tentativas de provar sua inocência, chegou muitas vezes a se dar por vencido. Sentia-se sozinho lutando contra uma burocracia impiedosa, desumana, a qual queria, a qualquer custo, mantê-lo por detrás das grades.
Já era quase noite quando Justino resolveu parar para um merecido descanso. Apesar de passar quase todo o dia sem se alimentar, não tinha fome. Mesmo assim dirigiu-se à cozinha a fim de preparar alguma coisa para comer. Estava ali entretido com o que fazia quando ouviu uma voz chamando no pátio em frente da casa. Voltou à sala, mas não conseguiu abrir a porta; tentou a janela, entretanto não obteve qualquer resultado.
- Quem está aí? – indagou.
- O rapaz contratado pelo para fazer a faxina na casa. Se o senhor abrir a porta podemos conversar melhor. Nem era eu que viria, mas houve um imprevisto com o outro rapaz, infelizmente.
- Não posso abrir a porta porque ela está emperrada.
- Deixe eu tentar pelo lado de fora. Deve ser o efeito da chuva – comentou o rapaz.
Depois de alguns minutos de tentativa, o visitante deu-se por vencido.
- Não tem jeito. E a da cozinha?
- Também está como esta – avisou Justino.
- E como eu entro?
- Passe por uma janela, pelo outro lado, pois esta também está com defeito.
Em poucos instantes o rapaz estava dentro de casa.
- Quem é mesmo você? – procurou saber o escritor.
- Como lhe disse, fui contratado para fazer a limpeza na casa.
- Mas ontem apareceu aqui um outro sujeito se dizendo...
- Ontem?!
- É. Chegou ontem à noite.
- E onde está ele?
- Foi embora. Simplesmente sumiu.
- Não sei o que está acontecendo, mas o dono da casa, o senhor Roberto, me contratou porque o outro rapaz que viria sofreu um acidente e, infelizmente... Como é a pessoa que esteve aqui ontem à noite?
Depois de uma detalhada descrição do misterioso visitante da noite anterior, o recém-chegado exclamou:
- Não é possível!!
- O que que não é possível? – indagou Justino estranhando a reação do homem.
- Pelo que o senhor está dizendo quem esteve aqui foi o Luís Paulo, filho da dona Ana Lacerda.
- E o que tem isto?
- Luís Paulo está morto.
- Morto?! Não acredito! Se estamos falando da mesma pessoa, ele não está morto coisa nenhuma. Está muito vivo e esteve aqui ontem à noite. Até dormiu em um dos quartos lá encima.
- O Luís está morto, morreu terça-feira. Tanto é verdade que eu fui ao seu enterro.
- Então deve ter sido outra pessoa que esteve aqui.
- Mas pelas informações que o senhor deu só pode ser ele. Ninguém que eu conheço por aqui tem quatro dedos na mão direita, manca de uma perna, nem tem uma blusa como a que o senhor descreu. Foi exatamente com esta blusa que ele foi enterrado.
Justino engoliu em seco. Afinal o que estava se passando ali? Como explicar o que ocorrera na noite anterior?
- Bem, meu amigo, estamos conversados. Se o senhor quiser voltar para casa, dê o trabalho por encerrado. Pelo que vi, por aqui não há tanta coisa assim para ser feita.
- Mas se eu voltar sem fazer o meu trabalho, o seu Roberto vai ficar bastante aborrecido. E não vai querer me pagar nada, claro.
- Quanto a isso não tem importância. Me diga quanto ele lhe pagaria e lhe pago eu. Aí então o senhor vai embora e não perde nada, certo?
- Se acha que assim é melhor...
- Acho.
Pela mesma passagem que entrou, a faxineiro saiu. Saiu, e foi a conta para que aquela janela também, de forma misteriosa, se fechasse tal qual as demais.
- Meu Deus!! O que está acontecendo aqui? – indagou de si para si o escritor, negando-se a acreditar no que estava vendo.
Imediatamente correu ao quarto onde passara todo o dia escrevendo. ao se aproximar da mesa pôde ver que ali também algo estranho se passava. Sobre a mesinha, algumas páginas estavam datilografadas. Todo o texto escrito por ele havia sido devidamente guardado sob o colchão da cama. Eram mais de dez, umas sobre as outras, espalhadas. Ficou em dúvida se deveria tomá-las para ler o que havia nelas escrito. Mas não resistiu. Correu os olhos com rapidez pelas folhas e, à proporção que lia, sentiu seu coração acelerar. Ali seu personagem mudara de nome. Agora era Justino e fora sumariamente condenado à morte.
Instintivamente atirou o que tinha nas mãos sobre a cama e correu para o primeiro quarto ao lado do seu. Intempestivamente foi à janela, mas não conseguiu movê-la. Estava trancada. Em cada um dos outros aposentos que entrou não havia saída. Desceu de forma abrupta para o andar inferior, forçando tanto a porta da sala como a da cozinha. Tudo fechado. Com uma das cadeiras tentou arrombar cada uma das janelas, mas logo viu que seu trabalho não resultaria em absolutamente nada. Estava trancado, preso, como estava enjaulado André, o personagem de seu romance.
Gritou clamando por ajuda, mas não houve qualquer resposta aos seus chamamentos. Estava sozinho, isolado do mundo. Assim quisera, assim estava. Olhou pelas frestas da porta e viu parcialmente o pátio onde, num passado longínquo, o cacau era seco. Nenhum movimento, tudo morto.
Correu de volta ao quarto. Sobre a mesa, junto à máquina de datilografia, outros tantos papéis. Com fúria tomou-os e os leu com avidez. Justino, seu personagem estava se preparando para que a sentença de morte fosse executada. Rasgou todas as folhas e atirou-as pelo chão.
Que brincadeira estúpida era aquela?
- Quem está aí? – indagou aos berros. – Quem está fazendo isto? Desgraçado!! Se quer me assustar está conseguindo! Mas acho que já é hora de parar!
Nenhum ruído pela casa toda. Lá fora a noite ameaçava.
Voltou a gritar por socorro. Gritos que por certo atravessaram as paredes da casa e ganharam o mundo lá adiante. Pedidos de socorro que não resultaram em nada positivo, uma vez que continuou preso, enclausurado.
Vencido pelo cansaço, acabou adormecendo, só vindo acordar alta madrugada. Pôs-se de pé e, com certo temor, acendeu o candeeiro. Acreditando encontrar a continuação de sua obra sobre a mesa, foi até lá. Estava sendo movido por uma mórbida curiosidade. Já sabia o desfecho de sua história, mas queria descobrir os detalhes, se é que eles haviam sido relatados.
A ali estavam todos eles. Minuciosamente relatados. Cada passo a partir da condenação do personagem estavam descritos. Sua angústia, seu desespero, sua falta de ânimo para reagir. Finalmente deu-se por vencido o personagem Justino. Contra o que deveria lutar, se ainda o pudesse? Contra toda uma burocracia impiedosa, a qual armou toda aquela trama sórdida? Quem ganharia com aquilo? Que mal poderiam lhe querer? Mas aquilo era literatura, literatura como o que estava produzindo, literatura ficcional.
Mas e ele Justino de verdade? O que estava se passando ali? Quem estaria por trás dos fatos reais? Tudo poderia não passar de uma brincadeira. Era isso! Tudo era uma desagradável brincadeira. Logo chegaria alguém anunciando que aquilo fora arquitetado por um grupo de amigos. Talvez para arrancar dela mais realidade para sua obra. O mais conveniente era aquietar-se, não desesperar. Afinal havia comida ali para mais de uma semana. Tempo suficiente para que cansassem daquele inescrupuloso divertimento.
Ali, fechado, praticamente no escuro, Justino esperou. Uma espera dolorosa. O que deveriam ser dias de tranqüilidade e produção transformaram-se em algo terrível de suportar. Há quanto tempo estava enjaulado? Perdera por completo a noção de tempo. Diferenciava os dias das noites, apenas pelo clarão penetrando de quando em vez pelas minúsculas aberturas entre as tábuas das portas e janelas. Viu aos poucos a comida indo embora. Era preciso racionar. Passou a se alimentar apenas uma vez por dia, o suficiente para não se alquebrar ainda mais, mas ela estava sendo consumida mais rápido que era de se esperar. Com o passar do tempo, não havia disposição para o trabalho. Aguardava, ainda paciente uma solução para o caso: o seu caso.
O personagem Justino de sua obra estava morto. Nada mais poderia ser feito. E ele próprio, se nada fosse feito, teria o m esmo destino. De repente um desespero sem medida tomou conta do escritor. À medida que o tempo, morosamente avançava, sua angústia ganhava dimensões sem tamanho. Já não tinha disposição sequer para caminhar pela casa, para tentar uma maneira de escapar dali. Estava vencido pelo desespero, pelo cansaço e pela desesperança. Estava morrendo.
Aquilo tudo não poderia se tratar de uma simples brincadeira. Um jogo talvez? Um jogo no qual o perdedor paga com a própria vida! Desgraçados todos os arquitetos daquele plano maquiavélico! Não importa quem estivesse por trás de tudo. Imperdoáveis suas ações!
De repente lembrou-se do motorista de táxi que iria buscá-lo ao final das duas semanas ali. Talvez aquela fosse sua única chance de escapar. Quanto tempo ainda faltava para que o sujeito aparecesse? Quem daria conta disso? Com resignação, dirigiu-se ao quarto e datilografou numa folha de papel um pedido de socorro. Em poucas palavras narrou o que estava acontecendo. Arrastou escada abaixo o colchão e o colocou junto à porta da sala. Tinha receio de que a chegada do homem não fosse percebida por estar dormindo no andar de cima da casa. Deitou e esperou. Antes disso certificou-se de que o papel passava por debaixo da porta, mas reteve-o na mão. Estava receoso de que a chuva o danificasse ou o vento o levasse para distante, impossibilitando o taxista de vê-lo.
A partir daquele momento nada mais poderia ser feito a não ser esperar. E foi isto que fez: esperou. Cada minuto era um tormento, cada dia um século a ser vencido. Concluiu, então, que só temos a verdadeira dimensão do tempo quando precisamos contá-lo. E os dias foram se alternando com as noites, numa lentidão impressionante. Há mais de três dias não se alimentava. Nada havia naquela casa para se comer. Errara nos cálculos, ou encontrava-se ali há mais de quinze dias? Já estava mergulhado em um estado de letargia que o impedia até de movimentar-se. Concluiu estar morrendo. Morte serena, mansa morte, morte sem testemunhas. Às três horas da tarde de um dia qualquer, Justino ouviu o ruído de um motor. Teve vontade de exclamar, de gritar por socorro, entretanto não havia forças para tal. Com dificuldade empurrou parte do papel por debaixo da porta, mas somente parte dele. Era sua última esperança. Se percebesse a aproximação do homem, completaria a tarefa.
Lá fora o carro que deveria retirá-lo daquele mundo miserável estacionou junto ao galpão do depósito de cacau. Dele saltou um senhor de meia idade. Caminhou até próximo da casa e observou-a criteriosamente, como se admirasse sua arquitetura singular, de pronto, viu a casa totalmente fechada. Àquela hora da tarde aquilo parecia estranho, a menos que em seu interior não tivesse ninguém. Deu a volta pelos fundos e confirmou sua expectativa. Nenhuma porta, nenhuma janela estava aberta. Em um dia de calor como aquele tal coisa era sinal de que a casa estava mesmo vazia. Chamou por Justino, mas não obteve resposta alguma. Tudo ali era silêncio. Por certo o escritor adiantara a obra e partira antes do tempo previsto, concluiu o taxista. Voltou ao carro e já estava pronto para dar partida no motor quando alguma coisa veio-lhe à mente. E se algo tivesse acontecido ao infeliz? Não custava nada uma tentativa de entrar na casa e fazer a averiguação. Aproximou-se da porta. Abaixou e percebeu um folha de papel com algumas palavras. Puxou-o, lendo-o de imediato.
Duas batidas na porta e lá de dentro veio um gemido, um som quase inaudível, um fiapo de vida.
- Meus Deus!! O que aconteceu com você, meu jovem? – indagou motorista, espantado com o quadro que tinha diante dos olhos.
Não houve resposta para sua indagação. Justino não tinha forças sequer para falar.
Quase uma semana depois, ainda hospitalizado, o escritor recebeu a visita de seu salvador.
- Afinal o que aconteceu naquela casa? – procurou saber o homem, ao perceber que o escritor já estava recuperado, pelo menos fisicamente, do susto pelo qual havia passado.
- Tudo ainda é um mistério. Mas para falar a verdade não estou interessado em descobrir a verdade. Quero apenas deixar este lugar e voltar para Salvador.
- Me desculpe, porém, por minha conta, resolvi saber alguma coisa sobre aquela fazenda.
- E o que foi que descobriu?
- Não sei se é verdade, mas o que soube, por intermédio de um antigo morador foi o seguinte: naquela casa, há mais de um século, morreu uma pessoa em circunstâncias parecidas.
- De que está falando? – mostrou-se curioso Justino.
- É isso mesmo. Conta-se que um jovem muito ambicioso, na expectativa de herdar a propriedade teria matado a própria avó, fechando-a lá dentro. Era uma anciã de mais de oitenta anos de idade. Trancou a mulher lá dentro e desapareceu por vários dias. Foi, por certo, uma morte lenta, horrível.
- Como teria sido a minha, caso o senhor não chegasse para me socorrer.
Seis meses depois de publicado, o segundo livro de Justino de Almeida já estava entre os mais vendidos. Aquela era uma história realmente ao gosto do grande público.
Ilhéus, 28 de Fevereiro de 2004
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