CONTRATO COM A MORTE
- Chegou tarde hoje – comentou ela.
- Como havia lhe falado, tivemos um trabalho extra para ser feito. Este negócio de ter o pessoal da matriz por aqui é uma chateação. Sinto como se tivesse que fazer tudo que não fiz durante o ano todo em um só dia.
- E quando vão embora?
- Se tudo correr como esperamos, depois de amanhã.
- O Marcos ligou.
- O que queria?
- Não falou nada. Mandou avisar que ligará mais tarde ou amanhã cedo. Comentou apenas que precisa falar com você antes de viajar. Vai a São Paulo resolver uns negócios.
- Vou tomar um banho. Se ele voltar a ligar, diga que ligo logo em seguida.
- Conseguiu marcar a consulta? – indagou Madalena, ao ver o marido pelas costas.
- Não, mas estou me sentido bem melhor.
- Mesmo assim, não deve ficar adiando este tipo de coisa. Não custa nada. A clínica é pertinho da loja. Lembre-se de que é melhor prevenir do que remediar.
- Prometo que vou ver isto amanhã.
- Veja se não esquece. Vou te ligar ainda pela manhã para ver se conseguiu alguma coisa, se não, marco eu esta consulta.
- Não vou me esquecer, mas como disse, estou muito bem nesses últimos dias.
- Mesmo assim, não custa nada.
- Está certo, amanhã providencio.
- Falou com sua mãe?
- E por que eu deveria falar?
- Homem, onde é que está com a cabeça? Ela não nos convidou para almoçar lá no domingo? Está esperando uma resposta sua. Você não disse a ela que provavelmente teria que ficar na loja ajudando no balanço?
- Meu Deus! Como fui me esquecer disso?
- Ela deve estar achando que você está mais uma vez tentando escapar de mais esse compromisso.
- O que não é mentira. Detesto aquele marido dela. O sujeito só fala besteira, além de ficar bêbado quase o tempo todo. Uma chatice sem tamanho! Tenho, por certo, algo mais interessante para fazer. Ela que me desculpe, mas lá eu não vou.
- Mas ela é sua mãe – advertiu a esposa.
- Este é o problema.
- Não há problema. Ah, se todos os problemas fossem da dimensão deste! O mundo estaria a salvo.
- E acredita que o mundo está correndo perigo? – riu Rodrigo, já com a toalha no pescoço e seguindo em direção ao banheiro.
- Esqueceu-se do buraco da camada de ozônio?
- Nem sei se ela existe de fato, ainda mais se ela está ou não com buraco. O que sei que está com buraco neste momento é o meu estômago. Preciso de alguma coisa para comer com urgência. Esta maçã não serve para nada. Isto é comida de doente. Preciso de alguma coisa que tenha sustância, massa, conteúdo...
- Vou preparar alguma coisa. Tem um resto de lasanha na geladeira. Vou esquentar. Outra coisa!
- O que é?
- Não esqueça de enxugar o banheiro quando terminar o banho.
- Eu sempre enxugo – resmungou o marido enquanto fechava a porta.
Em menos de cinco minutos Rodrigo estava de volta à sala, nu.
- Vá se compor, homem! – determinou a esposa. – Não está pensando em vir para a mesa assim, está?
- E por que não? Não estou em minha casa?
- Está em sua casa, mas uma pessoa normal não come nestes trajes.
- Que trajes?! – brincou o marido enquanto abria os braços, aproximando-se dela.
- Vá vestir uma roupa! – voltou a ordenar Madalena, afastando-se do esposo.
- Às vezes fico impressionado com a sua falta de esportividade.
- Esportividade?! E jantar pelado em companhia da esposa é ser esportivo?
- Está bem. Desculpe – disse Rodrigo, dirigindo-se ao quarto de onde voltou usando um roupão alaranjado.
- Desta forma está digno de tomar a última refeição do dia. Assim é que deve proceder um marido correto.
Menos de uma hora depois, estavam os dois dormindo.
A manhã do dia seguinte surgiu trazendo para Rodrigo Vaz de Vasconcelos uma certa preocupação: a cabeça voltara a doer por longas horas madrugada afora. Não fez qualquer comentário com a esposa para não deixá-la preocupada. Estava decida a seguir os seus conselhos: naquele mesmo dia iria ao médico.
Uma longa lista de exames foi o que recebeu do médico após quase meia hora de conversa.
- Pode não ser nada sério, mas nestes casos, o melhor é fazer uma checagem geral. Nunca se sabe – comentou o Doutor Barbosa, seu médico e amigo há mais de dez anos.
Seis dias depois, estava outra vez no consultório.
Um a um os resultados dos exames iam sendo analisados. À medida que as informações desfilavam diante dos olhos do médico, seu semblante ia se modificando.
- Alguma coisa grave?! – indagou Rodrigo percebendo claramente a
preocupação do amigo.
- Não estou ainda bem certo.
- Certo de quê?
- Vou pedir outra bateria de exames – sentenciou o médico.
- Alguma coisa séria?
- Não gostaria de lhe adiantar nada por enquanto.
- Então é coisa grave?
- Pelo menos é o que posso diagnosticar a partir destes resultados. Mas pode ter havido algum erro. Este tipo de coisa acontece.
- Que erro pode haver?
- Sei lá. Vou pedir que todos sejam refeitos.
Pouco mais de uma semana depois, Rodrigo foi recebido por Barbosa. Em menos de dois minutos a sentença:
- Você tem uma doença rara, muito rara mesmo.
- E o que isto significa?
O médico entrelaçou os dedos, estendeu as mãos sobre a mesa e declarou:
- Poucos meses de vida, infelizmente.
Aquela notícia dada assim de chofre, atingiu o peito do paciente como se fosse uma bomba a estraçalhar-lhe as entranhas. Rodrigo engoliu em seco, respirou fundo e indagou, num fio de voz:
- Quanto tempo?
- É difícil prever. Um mês, talvez dois. Com muita sorte, seis.
- Meu Deus! E o que é isto, afinal?
- Poucos casos na literatura médica foram registrados, mas sem dúvida é fatal. Você vai perdendo aos poucos...
- Me poupe dos detalhes, por favor. Se não há cura, prefiro não saber como será o final de meus dias – declarou Rodrigo pondo-se de pé.
- Acho que precisamos conversar ainda a respeito – declarou o médico, acompanhando-o à porta.
- E por que conversaríamos?
- Talvez precise de um acompanhamento psicológico – aconselhou o amigo.
- Ora esta, meu caro! Acompanhamento psicológico para alguém que está às portas da morte?
- Sabe como é, você tem família...
- Família?!
- Sim. Esposa e filhos.
- Filhos?! E onde estão meus filhos?
- Não importa. Precisa pensar neles. E a esposa?
- Esposa? Bela esposa consegui. Aquela ali, acho que, como todas as mulheres, está mais preocupada com uma cirurgia plástica do que comigo. Estou certo de que minha morte até trará um certo alívio para todos.
- Não diga isto. Você tem amigos.
- Muitos. E um deles acaba de sentenciar-me à morte.
Barbosa percebeu que aquele não era um momento para conversas daquela natureza. Nada que dissesse faria o efeito desejado. Estava diante de alguém que começava a trilhar um caminho curto demais para perder tempo com conversas sem sentido como aquela. O melhor seria deixá-lo ir, amargar a sua sina, infelizmente.
Ao deixar o consultório, Rodrigo, ao invés de tomar o caminho da loja onde trabalhava ou de casa, resolveu dirigir-se a um local onde há muito não ia, a Praia de Armação. Em menos de quinze minutos estava diante do mar. Não eram ainda onze horas da manhã e a maré estava baixa. Sobre as pedras escurecidas pelo bater contínuo das águas, alguns pescadores, pacientemente, esperavam pelos peixes. À direita, na faixa de areia que desaparecia na distância, algumas crianças jogavam bola. Ali, a poucos metros dele, estava a vida em sua mais substancial essência. Lembrou-se de seus dias de infância, quando ali também ia em companhia do pai e dos irmãos gozar das maravilhas de um banho de mar ou de uma boa pescaria. Misteriosa é a vida: dá-nos tudo quando não temos a maturidade para apreciá-la, e aos poucos, à medida que envelhecemos, vai-nos tirando uma a uma todas as conquistas, as alegrias.
Viu-se rapaz, quando conheceu Madalena, e por ali também passavam nas manhãs de domingo. O cheiro do acarajé frito no azeite de dendê intensificava suas lembranças.
Fechou os olhos por alguns instantes e mergulhou definitivamente no tempo. Tentava a todo custo trazer de volta os momentos felizes, aqueles momentos que lhe passaram quase despercebidos. Lentamente foram surgindo outras recordações enredadas umas às outras, tecidas com o longo do frágil fio do tempo. Ali permaneceu por um tempo indeterminado, preso às suas lembranças.
De repente foi acordado por respingos de água salgada. Era a maré que enchia. Era o mar tirando-o daquele estado de letargia. Abriu os olhos e viu diante de si, na imensidão do mar, uma pequena embarcação a deslizar como uma pluma em direção ao infinito. Invejou seu piloto, invejou seu destino, invejou sua vida.
Era preciso voltar. As sombras dos coqueiros já estavam quase atingindo-o. Consultou o relógio: quinze para a uma da tarde. Era preciso voltar. Mas voltar para onde? Que diferença faria se ficasse ali para a eternidade? Mas a vida ainda não estava de todo encerrada. Segundo o médico, ela poderia ainda se arrastar por meses. A partir daquele dia não haveria vida de fato; haveria sobrevida.
Voltou à loja.
- Como foi no médico? – indagou um colega de trabalho.
- Bem. Está tudo bem. Acho que tudo não passa de estresse.
- Mas você trabalha demais, meu amigo. Quantas vezes já lhe falei isso? E não pense que a empresa reconhece quando quer nos mandar embora. Arranca nosso couro e depois nos joga fora.
- Sei disso, Batista. Sei disso. Onde está o seu Donato?
- Gerente está sempre atrasado. Nós é que não podemos chegar fora de hora. Ligou dizendo que não vem pela manhã.
- Quero que dê um recado a ele. Diga-lhe que precisei sair para resolver umas coisas e que hoje não volto mais.
- O homem vai ficar uma fera. Você se lembra do que aconteceu comigo na semana passada?
- Pois se ele ficar nervoso, diga-lhe que eu o mandei...
- Isto deixe para você mesmo dizer quando o encontrar.
- É melhor mesmo que eu diga. Já estou com este sujeito por aqui – disse Rodrigo levando o dedo indicador na horizontal à altura do pescoço.
- O que foi que aconteceu? Nunca o vi falando assim!
- Os tempos mudaram.
- Não me diga que ganhou na loteria!
- Antes fosse, meu amigo Batista. Antes fosse.
Meia hora depois estava em casa deitado no sofá da sala. A esposa estava no trabalho e só voltaria por volta das quatro horas da tarde. Nunca ia para casa naquele horário, por isto estava achando a própria casa um lugar estranho para se estar.
De um momento para outro, dirigiu-se à mesinha do telefone, tomou nas mãos uma pequena caderneta de anotações e pôs-se a procurar por um número. Não teve dificuldade em encontrá-lo.
- Alô. É o Diniz?.
Do outro lado da linha uma voz respondeu confirmando.
- Gostaria de que você viesse em minha casa agora.
- Não vai me dizer que a Madalena bateu o carro outra vez. Desse jeito a seguradora vai criar caso para a renovação da apólice.
- Não é nada disso. Tenho um outro seguro para que você faça para mim.
- Passo aí logo depois do almoço. Agora vou a Lauro de Freitas.
- Procure vir cedo, por volta da uma e meia, duas horas.
Antes da uma hora Diniz estava sentado diante de Rodrigo.
- E então, do que se trata?
- Quero fazer um seguro de vida e acidentes pessoais – declarou o dono da casa.
- Muito bem. E já definiu os valores a serem segurados?
- Qual é o máximo?
- Tem alguma preferência por seguradora?
- Por aquela que não vai criar caso na hora de pagar, claro.
- Hoje em dia as coisas estão mudadas.
- Então prepare a apólice para que eu assine com a maior rapidez possível. E veja quanto eu tenho que lhe dar neste momento.
- Me perdoe a curiosidade, mas está tudo bem com você? Nunca se interessou por este tipo de seguro.
- Onde eu assino? – procurou saber o cliente ao ver sair da pasta do corretor de seguros o formulário específico.
Fechado o contrato, o corretor insistiu:
- Tem alguma coisa errada, da qual eu deveria saber, antes de dar entrada nestes documentos na seguradora?
- Não sei se poderia ser considerada errada, mas acho que você deveria saber sim, porque quero que me faça um outro favor.
Em poucas palavras Rodrigo colocou Diniz a par de toda a situação.
- Isto é uma loucura. Não vai dar certo de forma nenhuma. Quando a seguradora descobrir que você tinha uma doença desta antes do fechamento do contrato, fica tudo cancelado.
- Aí é que você entra outra vez na história - noticiou Rodrigo com um sorriso.
- Não sei onde você quer chegar.
- Lembra-se de que certa feita me disse que se eu precisasse de alguém para fazer um certo serviço, você tinha a pessoa certa.
- De que está falando?!
- Simples. Quero que você contrate aquela pessoa para me matar.
- Não acredito no que estou ouvindo.
- Eu não vou morrer mesmo?
- Meu Deus! Que loucura!!
- Faço o seguinte acerto com você: parte do que minha família receber da seguradora é seu. Que tal trinta por cento? Aí você acerta com o sujeito lá. Quero que tudo pareça um acidente. Morte por acidente ninguém se nega a pagar, não é mesmo? Não quero sequer saber quem ele é. Vou continuar levando minha vida como se nada tivesse acontecido. Nem minha esposa vai ficar sabendo de nada.
- Não sei não. Afinal você é meu amigo.
- Estou morrendo, droga! Que diferença faz, se vou morrer mesmo? Pelo menos deixo alguma coisa para meus filhos e um certo dinheiro para as plásticas de minha esposa – riu o desafortunado, um riso triste, amargo.
- Não sei não.
- É pegar ou largar. Se não quiser, arranjo outro que o faça.
- Posso pensar um pouco a respeito?
- Só lhe dou dois dias para decidir – sentenciou Rodrigo. – Depois de amanhã volto a ligar.
- Combinado.
Saiu o corretor de seguros e sozinho ficou Rodrigo remoendo a idéia.
Dois dias depois um telefonema.
- Então?
- Está tudo acertado. Foi difícil negociar, pois o cara queria parte do dinheiro adiantado, mas aceitou receber quando eu recebesse minha parte. Calculo que isso leve uns noventa dias mais ou menos.
- Então estamos acertados.
- Acertados. A partir de hoje a coisa pode acontecer a qualquer momento.
- Só mais uma pergunta.
- O que é?
- Como vai ser?
- Ele me disse que o mais fácil é simular um assalto. Um tiro só.
Aquela noite foi a mais amarga da vida do condenado; duplamente condenado o infeliz. Acordou sobressaltado na calada da noite. Sonhara que estava sendo vítima por parte da empresa onde trabalhava de uma terrível trama para eliminá-lo. Mas por que eliminar um simples funcionário como ele? Sonhos são mesmo coisas sem nexo algum, pura estupidez.
Ao sair de casa pela manhã e ganhar a rua, observou que do outro lado da via pública havia um homem de meia idade, trajando um terno escuro. Seria ele a pessoa encarregada de matá-lo? Bobagem! Ainda era muito cedo. Vindo ao seu encontro, um bando de crianças ia em direção à escola próxima. Entreteve-se com elas por alguns instantes e ao voltar-se para o a pessoa que havia visto segundos antes, percebeu que ela desaparecera. Uma sensação de perda, de repente, tomou conta de si. Parou, pensou em voltar para casa, mas concluiu que era tarde demais para fazer qualquer mudança no traçado das coisas. Precisava levar uma vida normal.
Aquele dia foi sem dúvida alguma um dos mais angustiantes de sua vida. Cada cliente que entrava na loja era seu algoz. Até uma senhora, elegantemente vestida, ele viu como seu provável assassino.
A partir de então os dias passavam como jamais haviam passado. Eram lentos, enfadonhos, cansativos, mas, curiosamente, as dores de cabeça que tanto perturbaram a paz do condenado, desapareceram por completo. No entanto esse fato passou despercebido, tamanha era a preocupação com o momento esperado. Em uma esquina, num semáforo fechado... Qualquer pessoa que dele se aproximasse, trazia-lhe a estranha sensação de impotência plena.
Certa feita, quase três meses após o macabro pacto, estava Rodrigo em uma loja de calçados em companhia da esposa quando, do outro lado da vitrine, estacionou um homem. Era jovem ainda, aparentava vinte e poucos anos. Ao gesto do rapaz de simplesmente levar a mão a um dos bolsos da calça a procura de algo, o sentenciado atirou-se por detrás do balcão aos gritos. Estava certo de que dali sairia a arma com a qual seria fulminado diante de várias pessoas.
- Senhor Rodrigo, venha a minha sala que preciso lhe falar – anunciou o gerente da loja numa certa manhã.
- Conhece este homem? – indagou o chefe ao subordinado.
- Claro. É um dos donos da empresa.
- Chamei-o aqui porque ele quer lhe fazer uma proposta que acho que você vai gostar.
- E de que se trata?
- Como o senhor sabe, nossa empresa está abrindo algumas filiais e precisamos de gente de confiança para administrá-las. E como o seu Adalberto aqui o recomendou, acreditamos que o senhor seja a pessoa certa para assumir um destes cargos. Se for de sua conveniência, a empresa está oferecendo ao senhor a gerência de nossa filial neste novo shopping que está sendo construído. Não é uma exigência, mas se o senhor quiser...
Seis meses exatos haviam se passado deste o fatídico dia em que fora sentenciado à morte pelo amigo médico. Rodrigo agora, instalado num bairro mais distante, se perguntava: onde estava a morte?
Do seu algoz, jamais teve notícias. No entanto, continuou a viver sob tensão. Não saía à noite em hipótese alguma. Passava a maior parte do tempo trancado na loja ou eu casa. Do corretor de seguros também não teve mais informações. Pelo acordo não deveriam se comunicar.
Quase oito meses depois de sua sentença, Rodrigo recebe o convite para a festa de casamento da filha de uma antiga colega de escola. Na oportunidade reencontra o doutor Barbosa.
- Caríssimo amigo Rodrigo, não sabe a satisfação que tenho em vê-lo. Estive morando fora do Brasil por alguns meses. Estava estudando na Alemanha. Que bom vê-lo saudável. Tenho uma notícia que vai deixá-lo radiante. Não sei nem como lhe dizer, mas acho que vai ser para você um grande alívio.
- E do que se trata?!
- Houve um terrível engano quanto aos resultados daqueles exames feitos por você naquela época.
- O que está querendo dizer?
- Não sei se há explicação, mas o fato é que os resultados dos exames foram trocados. Não há nada de errado com você. Lamento muito por tudo. Mas como deve se lembrar, mandei que os exames fossem repetidos e o resultado confirmou minhas suspeitas. Parece que houve uma troca de código, ou algo parecido. O verdadeiro doente morreu há menos de um mês. Lamento muito, mas ainda bem que tudo se resolveu. Tentei entrar em contato, mas você havia se mudado.
- Desgraçado!! – exclamou Rodrigo tomando o médico pelo colarinho. Você pode ter arruinado minha vida, seu infeliz!
Mas pouco havia para ser feito num momento daqueles. Atordoado, o comerciário correu para casa. Era preciso falar urgentemente com o amigo corretor de seguros.
- Lamento mais acho que nada pode ser feito. Afinal são mais de trezentos mil reais em jogo, meu caríssimo. Nem que eu quisesse, poderia interferir no trabalho de meu contratado. Só não o matou até agora, porque esteve doente, internado em um hospital. Mas já soube que ele está de volta às ruas. A partir de agora é só uma questão de tempo. Afinal fizemos um negócio. Efetuei até dívidas confiando neste dinheiro. Agora não há nada que eu possa fazer.
- Tem que haver um jeito de fazê-lo parar!
- Nada o impedirá de realizar a tarefa. Lamento muito por você.
Em menos de uma semana Rodrigo resolveu deixar Salvador. Aproveitando a abertura de uma filial da empresa no Rio Grande do Sul em poucos dias Rodrigo deixava Salvador com destino ao Rio Grande do Sul, pediu para ser transferido e, em menos de quinze dias, estava instalado na casa de uma velha tia. Ali aguardou a chegada da família.
Seis dias depois de sua chegada, em um domingo de sol, estava o agora tranqüilo homem, em companhia de dois vizinhos na praia quando um vendedor de sanduíches se aproximou.
- Senhor Rodrigo Vaz de?
- Sim.
Como a velocidade de um raio, veio-lhe à mente a triste realidade.
Alguns banhistas viram o vendedor ambulante afastar-se apressadamente, em direção a um carro que o aguardava nas proximidades. Na areia quente da praia jazia inerte o corpo de Rodrigo, cercado pela multidão curiosa.
Salvador, 13 de maio de 2002
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