Contos escritos por Gilberto Martins

3 de junho de 2016
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Dragão

Não eram ainda seis horas da manhã quando deixei a casinha onde vivia com destino a cidade, mais precisamente a feira. Levava, como fazia quase todas as manhãs de sábado, cerca de vinte sanduíches. Se tivesse sorte voltaria para casa antes do meio dia com dinheiro suficiente para o nosso sustento por uma semana. Eu era o único que produzia alguma coisa naquela família. Minha mãe, quase sempre doente, limitava-se a preparar a mercadoria para ser vendida. Meu irmão mais menino que eu, com apenas seis anos, de fato nada podia fazer. Meu padrasto, sempre bêbado e reclamando da vida miserável que levava, jamais arranjava o que fazer que produzisse um mísero centavo. Ao contrário, gastava parte do que ele ganhava no boteco de seu Romualdo.
3 de junho de 2016
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Diamantes

A primeira coisa que o novo chefe indagou de Alfredo foi se era mesmo aquilo que ele queria. O rapaz não estranhou o questionamento do patrão, uma vez que ele próprio já havia lhe feito a mesma pergunta diversas vezes. Mas agora estava decidido, não havia como voltar atrás. Os três anos que passou na escola de medicina deviam ser esquecidos. Não fazia mais sentido ficar se martirizando por aquilo. Fora uma decisão difícil, mas apostava que sua verdadeira felicidade estaria naquela sua nova ocupação.
3 de junho de 2016
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Um homem enigmático

Tio Geraldo não tinha ainda cinqüenta anos – mas aparentava bem mais - quando chegou lá em casa em um dia de muita chuva. Chegou como se já tivesse avisado mamãe de que iria chegar. Trazia uma mala em uma mão e uma bengala – com cabo de prata - na outra. Chegara para ficar. Na cabeça um chapéu de feltro, o qual, só mais tarde descobri, tinha como objetivo esconder uma lustrosa calvície. Em princípio achei que seria uma simples visita, no entanto, com o tempo, percebi que se tratava de um hóspede eterno. Foram-se os dias, os meses, os anos, e lá permaneceu ele. Passou a ser, com o tempo, uma gente da família, mas nunca me acostumei com sua presença. Sonhava com o dia em que ele partiria, no entanto nunca se foi – nunca em vida.
3 de junho de 2016
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O milagre

Em primeiro lugar acho que cabe logo aqui uma pergunta: você acredita em milagres?
Ganhei a vida durante quase quarenta anos remando nas águas turvas do Rio São Francisco nas proximidades de Bom Jesus da Lapa. Antes disso, de ser canoeiro, nasci e vivi vendo o Velho Chico levar e trazer toda sorte de pessoas e mercadorias para cima e para baixo.
Meu mundo era aquele, minúsculo mundo do sertão baiano, limitado pelas próprias águas do rio, pelos parcos recursos da família e pela falta de perspectiva de todos nós que vivíamos por aqui.
3 de junho de 2016
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Contrato com a morte

Quando chegou em casa, por volta das dez da noite, Rodrigo encontrou a esposa cochilando diante da tevê ligada. Pé ante pé dirigiu-se a cozinha, pegou uma maçã e voltou à sala. Sentou-se à mesa e pôs-se a observar a mulher. Ali esteve por vários minutos até Madalena dar por sua presença e abrir os olhos.

- Chegou tarde hoje – comentou ela.

- Como havia lhe falado, tivemos um trabalho extra para ser feito. Este negócio de ter o pessoal da matriz por aqui é uma chateação. Sinto como se tivesse que fazer tudo que não fiz durante o ano todo em um só dia.
3 de junho de 2016
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A casa

A casa Justino alugou com apenas meia dúzia de palavras. Depois de algumas informações fornecidas pelo proprietário, o rapaz não discutiu sequer o preço. Era tudo que precisava para estar afastado do mundo. Calculava que em menos de quinze dias o livro estaria pronto.
Localizada à margem de um riacho, a sede da fazenda Ribeirão do Meio era uma construção monumental. Erguida no final do século dezenove quando as terras pertenciam ao Barão de Almenara, o prédio era uma imponente casa de dois andares.
3 de junho de 2016
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A máquina da fortuna

Honestamente, quem nunca pensou em ganhar muito dinheiro sem fazer muita força? Não sei, mas talvez escrever um livro com lembranças de sua infância e que vendesse milhões em todo o mundo. Talvez inventar algo extraordinário. Este último, para Carlos Nepomuceno, era mais difícil. Na opinião dele nada mais existia para ser inventado. Tudo já estava ali. Tudo, até surgirem os celulares.
- Como eu não havia pensado nisto? – comentara com um amigo.
Quase que simultaneamente vieram os alimentos transgênicos, os clones...
1 de julho de 2010
silencio

Jogo Mortal

Em volta da mesa, oito cadeiras; seis homens. Sobre suas cabeças uma lâmpada pênsil do teto. A luminosidade incidia quase que exclusivamente sobre a mesa. O resto da sala estava envolta em uma penumbra.
Entre alguns, poucas palavras; entre outros, o silêncio. Alberto Bastos Júnior, provavelmente o mais bem aquinhoado do grupo, observava tudo à sua volta. Estava ali pela primeira vez por insistência do amigo Tomás, o qual até então não havia chegado. Mas sua cadeira estava à sua espera. Além de nunca ter estado naquele lugar, há quase três anos não se sentava em uma mesa para jogar. Prometera à mulher, aos filhos, aos santos, mas fora incapaz de manter a promessa diante de tamanha insistência do amigo.