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Mula sem cabeça
4 de junho de 2016
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Negrinho do pastoreio

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A tarde era uma das mais frias daquele mês de agosto naquela região do Rio Grande do Sul. A tropa, apesar de acostumada a longas caminhadas e ao rigor do tempo, demonstravam já sinais claros de cansaço. Mesmo assim, os animais seguiam valentes em direção norte. Lá adiante, no horizonte aonde o céu vem se encontrar com a terra, o sol caminhava lento em direção ao outro lado do mundo. O entardecer era um dos momentos mais frios do dia. Mesmo estropiadas pelas semanas de viagem, a passos lentos, como se arrastassem estrada afora, as dezenas de mulas mostravam-se resignadas. Era preciso chegar. Mas qual seriam o seu destino, e o destino daquelas mercadorias que levavam em seus lombos?

Mais três dias de viagem e descansariam. Dali em diante, até não se sabia onde, outra tropa assumiria o lugar daquela e a empreitada seguiria adiante. Até a cidade de São Paulo, muito chão ainda teria que ser pisado. Muitas noites precisariam ser varadas, muitos sóis ainda desceriam para o outro lado do mundo e romperiam nas madrugadas geladas.

Depois de mais de dez horas de estrada naquele dia, uma parada se fazia obrigatória. Ainda faltavam alguns quilômetros para o pouso. No entanto, àquela hora da tarde, Rafael, um dos tropeiros já estava pedindo a Deus que a distância encurtasse o mais rápido possível. Na noite anterior, tivera febre e só não ficou para trás porque, ao amanhecer, estava melhor. Durante o dia, não tivera mais nenhum sintoma significativo, contudo, temia que a noite que se aproximava fosse outra vez de preocupações.

O rapaz correu os olhos pela planície que se estendia até o fim do mundo e fez uma careta. Que lugar estranho era aquele? Por ali, não havia uma árvore sequer que servisse de referência, uma casa onde um viajante pudesse pedir abrigo durante uma tempestade. Era de fato um mundo deserto. As campinas se estendiam até onde Deus queria e era tudo que podia ser visto. Dia e noite, o vento chamado minuano sobrava varrendo aquele mundo de desolação.

Diziam que por ali havia índios ferozes e que muitos tropeiros foram suas vítimas. Porém, jamais vira nem uma alma por aquelas paragens que não fossem seus próprios companheiros de trabalho e infortúnio. Dias iam e dias vinham e nem uma viv’alma podia ser avistada. Afinal, quem se arriscaria por uma terra tão deserta como aquela?

O que se via eram manadas de bois pastando ao longo dos caminhos como se fossem gado sem dono, sem destino. Mas, cada um daquelas rezes tinha uma marca a ferro para lhe garantir propriedade.

— Tudo neste mundo é propriedade de alguém — dizia seu Alípio, o pai de Rafael de vez em quando. — Se não tem dono aqui embaixo, tem lá em cima, é de Deus.

Lá nos confins do mundo, o sol despedia-se deixando atrás de si um frio cortante, que doía até nos ossos.Rafael endireitou-se na sela, abotoou o casaco e mirou o horizonte lá na frente. Não visualizou nem vestígio da estância onde passariam a noite. Já fizera aquele trecho dezenas de vezes, mas nunca conseguia calcular com precisão as distâncias.

— E então? — procurou saber Roque, um dos companheiros de viagem. — Está melhor?

— Durante o dia passo melhor. O problema são as noites. Elas têm sido sofridas.

— Será que você não está com febre amarela? — indagou Roque.

— E o que é isto?

— Não sei muito bem, mas tenho um tio, lá em São Paulo, que quase morreu disto.

— Vire esta boca para lá, amigo, que eu quero viver muito ainda — disse Rafael com uma careta.

— Ele ficou umas duas semanas tendo febre alta. Mas, sem mais nem menos, a febre passou. Tremia de frio que era uma coisa de doido.

Aos poucos, a noite foi caindo, noite escura, pesada, sem estrelas ou lua. Em pouco tempo, a escuridão tomou conta daquele mundo deserto. No entanto, aqueles bravos homens seguiram adiante guiados pelas mulas treinadas e profundas conhecedoras daquelas estradas.

Quase duas horas depois, a primeira luz no breu da noite foi avistada. Era o sinal de vida e de descanso que todos estavam esperando. Até a tropa, talvez por instinto, acelerou os passos. Era preciso chegar. Mas todos sabiam, era um repouso temporário. Logom ao romper da aurora, deveriam se colocar na estrada. São Paulo, o destino final, estava ainda muito distante.

— Estamos chegando. Já não estou agüentando mais — reclamou Rafael.

Aos poucos, a casa da fazenda foi tomando forma na escuridão da noite. Rafael, por ali, já havia passado diversas vezes e ali havia também pernoitado outras tantas, mas nunca uma chegada lhe trouxe tanto conforto. Sentia que a febre outra vez lhe traria preocupações e sofrimento.

Já eram quase oito horas da noite quando a tropa estacionou à porteira dos currais. Foram recebidos por um homem que sempre fazia isto. Tratava-se de Romão Garcia, um dos mais conhecidos estancieiros de todo o rio Grande naquela época.

Imediatamente, Carlos Duarte se dirigiu a ele. Carlos conduzia comitivas como aquela há mais de vinte anos e ali sempre fora seu ponto de apoio. Era o último pouso antes de tomar rumo ao norte, em direção a Santa Catarina.

— Está dois dias atrasado — disse Romão ao receber o já amigo de tantos anos.

— Tivemos um problema. Um de nossos tropeiros, infelizmente, morre há dois dias.

— E como foi isto?

— Uma morte boba. Imagina que o rapaz caiu do cavalo e quebrou o pescoço. Aí perdemos um bocado de tempo.

— Mas vamos deixar que o pessoal cuide da tropa e vamos para dentro que aqui está muito frio.

Imediatamente todos os homens desmontaram-se e foram cada um cuidar de suas montarias e das mulas de carga.

Quase uma hora depois, foi quando todos estavam ao redor de uma grande fogueira em um dos galpões da fazenda. Ali, foi servido o chá mate tradicional daquela região, assim como a refeição.

— Como você está? — procurou saber Carlos ao seu empregado Rafael.

— Estou bem. Mas a febre não me deixa em paz de jeito nenhum. Estou aqui com este frio todo e parecendo que vou pegar fogo.

Carlos colocou a mão na testa do rapaz e confirmou a informação. Rafael estava mesmo febril. O chefe dos tropeiros não quis fazer nenhum comentário, mas viu que o quadro de saúde do empregado inspirava cuidados.

— Vou ver se consigo alguma coisa para você beber. Não estou gostando nada disto — disse o tropeiro se afastando.

Minutos depois, Carlos voltou em companhia de uma mulher. Era Maria Dolores, uma argentina que prestava serviços ao fazendeiro. Maria trazia uma caneca de folha contendo um líquido escuro.

— Tome isto, meu rapaz. É um santo remédio para este tipo de coisa — disse a mulher com um forte sotaque estrangeiro.

Com dificuldades, Rafael levou a caneca à boca. Sentiu primeiro com a ponta da língua o gosto do que deveria ser bebido. Amargo ao extremo.

— Meu Deus! O que é isto?

— Nada que vá matá-lo, isto posso garantir — disse a mulher com um sorriso. — Precisa tomar tudo.

— Mas isto amarga muito!

— Vamos logo com isto que não tenho a noite toda para ficar aqui.

Com dois goles, Rafael engoliu todo o conteúdo.

— Bom menino. Gostei de ver — disse a empregada da estância ao receber de volta a caneca vazia.

— Jesus Cristo! De que é feito este xarope?

— Nem queira saber, meu jovem. Nem queira saber — foi dizendo Maria enquanto se afastava dali.

Depois de alimentados, aqueles corpos cansados foram um a um sendo vencidos pelo sono. Espalhados aqui e acolá, em menos de uma hora todos dormiam. Lá fora, naquele deserto sem fim, o vento soprava insistente isolando mais ainda aquela gente do resto do mundo. Nenhum piado de pássaro noturno, nenhum latido de cão. Apenas o vento, o vento... o eterno vento que há milhões de anos varria uma imensa região, atravessando as fronteiras do próprio território brasileiro indo até a Argentina e o Uruguai.

Cá dentro de casa, também aos poucos, o fogo foi demonstrando que não resistiria por muito tempo. E, em menos de duas horas, o que se via era um braseiro no centro do galpão, recoberto por uma fina camada de cinzas. O fogo estava praticamente morto antes mesmo da meia noite.

Atado ao teto, um lampião fornecia uma frouxa luminosidade ao ambiente. E era tudo.

Mas, apesar da quietude de tudo por ali, lá fora, metido naquele mundo gelado, uma figura me movia sorrateiramente. Ninguém que lá fora também estivesse mesmo, a poucos metros de distância, jamais o veria. A pessoa usava roupas escuras para camuflar-se no breu da noite. E, protegido pela escuridão, mantinha-se oculto de tudo.

Já era dia claro quando os primeiros homens se puseram de pé.

Rafael havia passado a noite razoavelmente bem. Acordara algumas vezes, mas logo voltou a dormir. Realmente, o remédio fizera o efeito desejado. Mas, se fosse mesmo febre amarela, sabia, o efeito seria passageiro. Não seria conveniente animar-se muito. Aquela doença era estranha, e a febre, sua conseqüência mais dolorosa, era um vai-e-vem sem fim.

Carlos ainda estava à mesa fazendo, em companhia de Romão, o desjejum quando Lopes, um dos homens responsáveis por reunir a tropa, entrou apressado.

— Senhor Carlos, temos um problema.

— E o que foi?

— Estão faltando doze mulas e dois dos nossos cavalos — informou o rapaz.

— Faltando?! Como assim, faltando?

— É isto mesmo, senhor — confirmou Lopes.

Imediatamente Carlos deixou a mesa e se dirigiu ao curral. Ali, mais de trinta mulas já estavam prontas para partir. Em seus lombos, grandes caixas de madeira cheias de charque já estavam sendo colocadas.

— Podem parar com tudo! — ordenou Carlos aos empregados. — Não podemos sair daqui sem encontrar a parte da tropa que desapareceu.

— O que acha que pode ter acontecido? — quis saber Romão ao se aproximar do tropeiro.

— Pensei que o senhor tivesse a resposta para esta pergunta — declarou Carlos, sem nenhum constrangimento.

— Eu?!

— Sim. O senhor mesmo. Afinal, o senhor é o dono da fazenda.

— Mas o que acha que eu tenho a ver com isto? Suas mulas e cavalos fugiram, foi isto que aconteceu.

— Ou foram levadas.

— Levadas?!

— Isto mesmo, meu amigo.

— E quem teria feito isto?!

— Este é um mistério que precisa ser esclarecido. E acho que o senhor pode ajudar, não. O senhor, como dono da fazenda e pessoa que é, pago para nos dar pousada, deveria se responsabilizar também pelos animais.

— Mas estavam presos e bem alimentados.

— Mas estavam sob sua guarda. O senhor é responsável por eles, ora. Não pretendo ficar no prejuízo.

— Não recebo dinheiro para guardar cavalos e sim para lhes dar comida e cama, nada mais.

— Isto é o que vamos ver — declarou o tropeiro já perdendo a calma. — O senhor tem muitos animais.

— Tenho muitos animais, inclusive para venda, não par substituir cavalos e mulas fujões.

— Senhor Romão, eu o conheço a quase vinte anos. Lembro-me muito bem até a primeira vez que dormi em sua estância. Foi em abril de 1867.

— Se me conhece há tanto tempo, deveria saber que o que aconteceu foi um incidente. Suas mulas fugiram. Foram exatamente a parte da tropa que estava no curral dos fundos da casa.

— Não se faça de tolo, senhor Romão. Cavalos e mulas não fogem assim, sem mais nem menos. Não tenho a menor dúvida de que foram roubados.

— Roubados?!

— É isto mesmo!

— Mas o senhor mesmo ouviu de seu empregado que a porteira estava aberta.

— Mulas nem cavalos abrem porteira, senhor Romão. Meus animais foram roubados e o senhor sabe disto. Portanto, acho melhor pararmos para conversar a sério sobre isto, caso contrário...

— Caso contrário o que, seu Carlos? Estou em minha propriedade e aqui mando eu. Se suas mulas fugiram ou foram roubadas isto é um problema seu e o senhor é que deve resolver.

Percebendo a movimentação de alguns funcionários da fazenda, todos armados, Carlos aliviou o tom da conversa.

— Não acredito que tenham sido de fato roubados. Alguém pode ter deixado a porteira aberta e eles ganharam o mundo — disse o fazendeiro.

— Alguém deixado a porteira aberta?! O senhor acredita mesmo nisto?

— E por que não?

— Suponhamos que tenham mesmo fugido como o senhor diz. O prejuízo é o mesmo. Ficarei da mesma forma sem parte da tropa. E isto também não o isenta da culpa. Um dos meus homens é que jamais abriria uma porteira para me trazer um problema como este.

— E o que ganharia em soltar seus animais?

— Ora, seu Romão, não se faça de bobo. Um empregado seu soltaria meus cavalos e...

— E?

— E os capturaria mais tarde depois que eu tivesse partido.

— Acredita mesmo nisto?

— Lamento lhe dizer uma coisa destas, mas acredito, sim senhor.

— Senhor Carlos, por ofensas menos graves já mandei surrar gente por aqui, mas ainda lhe tenho consideração.

— Tenho bons rastreadores.

— De que está falando?

— Cavalos deixam rastros, senhor Carlos. Se fugiram, ou foram roubados, saíram daqui caminhando.

— Posso perder dias esperando — reclamou o tropeiro.

— É tudo que posso fazer. Mas quanto aos meus cavalos, eles só saem daqui se o senhor os comprar. É melhor aguardar alguns dias até ver se recuperamos seus animais.

Carlos sabia que estava em uma situação complicada. Seguir caminho, apenas com parte da tropa, seria aumentar os prejuízos. Dezenas de caixas teriam que ser deixadas para trás. Esperar, além de não ser garantia da recuperação do que perdera, poderia demorar dias.

Mas decidiu que o melhor no momento era aquietar-se e esperar.

— Tenho gente muito boa para estas coisas. São rastreadores experientes, mas precisam sair logo. Neste caso, quanto mais tempo perdermos, mas longe os bichos estarão.

— Quero que alguns de meus homens acompanhem os seus.

— Não tenho nada contra. Escolha quem o senhor quer que vá. Para mim tanto faz. Acho até bom mesmo para o senhor não ter dúvida alguma de que eu nada tive a ver com o que aconteceu.

— Vou falar com os rapazes, volto já — disse Carlos se afastando e se dirigindo ao galpão onde se encontrava os demais tropeiros.

— Eu gostaria de ir — declarou Rafael, depois de ouvir com atenção o que o patrão dissera.

— Não acho que você deveria ir. Ainda ontem, não estava bem.

— Mas estou muito bem depois do remédio que dona Maria me deu.

— Não confie muito nisto, não. Se estiver mesmo com febre amarela, os sintomas vão voltar. E se isto acontecer, é melhor que esteja por aqui — aconselhou Carlos.

— Já estou bem mesmo e tenho certeza de que não é nada disto que o senhor está falando. Eu me responsabilizo por qualquer coisa que possa acontecer comigo.

— Bem, você é quem sabe. Mas preciso de mais dois homens para seguir junto com o pessoal de seu Romão.

Imediatamente Roque e o irmão Diogo se apresentaram.

— Bastam três.

Por volta das oito da manhã, os três tropeiros e dois rastreadores da estância de Romão, Tavares e Pedro, deixaram a sede da fazenda. A poucos metros da porteira do curral, puseram-se a acompanhar os rastros dos animais. Era um verdadeiro emaranhado de sinais de cascos deixados na poeira da estrada, o que facilitou, em princípio, determinar que direção deviam tomar. Contudo, não demorou e as marcas deixaram a estrada e se enveredaram pela campina.

— Estou achando isto tudo muito estranho — comentou Paulo, um dos rastreadores.

— O que foi? — quis saber Rafael.

— Não é comum animais em fuga deixar a estrada desta maneira.

— Acha, então, que podem mesmo terem sido roubados? — procurou saber Roque.

— Não estou bem certo ainda, mas é o que tudo indica — comentou o empregado da fazenda.

A partir do momento em que os animais deixaram a estrada, seguir-lhes o rastro tornou-se uma missão exclusivamente para especialistas. A gramínea rente ao chão ocultava os rastros quase que totalmente. Uma pessoa inexperiente jamais conseguiria identificar o destino dos animais, tão insignificantes eram as marcas.

— Meu Deus! — disse Rafael ao perceber que os rastreadores não se detiveram por um minuto apenas tentando identificar que rumo tomar. Seguiam em frente, conduzindo seus cavalos a trote. — Eu mal vejo os rastros.

— Esta gente é treinada para isto, meu amigo.

Assim seguiram por quase meia hora. Os cinco cavaleiros avançavam pela imensa campina em linha quase reta. De repente, um deles parou a montaria.

— O que foi? — indagou Roque.

— Temos problemas — informou Pedro. — Aqui a tropa foi dividida.

— Isto é sinal de que ela não fugiu simplesmente?

— Exatamente, meu amigo. Animais, quando fogem, não se apartam desta maneira.

— Por certo, usaram este truque para despistar quem supostamente viesse atrás deles, não? — procurou saber Rafael.

— Exatamente — voltou a falar o empregado da estância.

— Quando se dividem desta maneira torna-se muito mais difícil seguir no encalço dos ladrões.

— E acham que vale mesmo a pena seguir adiante? — questionou Rafael. — Já não estamos certos de que os cavalos e as mulas foram mesmo roubados?

— Querem desistir e voltar daqui? — perguntou Travares, com um sorriso estranho.

— O que acha, Roque? — indagou Rafael.

— Vamos atrás de ladrões a partir de agora, não de animais fujões — avisou Pedro.

— Mas são muitos animais, não podemos deixá-los para trás. Se voltarmos sem eles o senhor Carlos nos esfola vivos. Já enfrentei duas vezes esta gente. Lembrem-se, são ladrões de cavalos, não assassinos. Encontrá-los é só uma questão de tempo — ponderou Rafael.

— Então acha mesmo que devemos ir adiante? — procurou saber Roque do companheiro.

— Estão com medo? — interferiu Tavares

— Não é isto, é...

— Então vamos adiante.

— Estas armas que levam aí estão mesmo prontas para atirar? — brincou Pedro.

— Claro! — exclamou Rafael, retirando da cabeça uma carabina e exibindo-a aos rastreadores.

— Pode ser que precisem delas — voltou a comentar o rastreador.

— Muito bem então, a partir de agora precisamos nos separar — anunciou Tavares.

— Eu e Rafael vamos com um de vocês, o Maurício com o outro — comunicou Roque.

Não houve mais qualquer comentário além de um simples “então, vamos lá” pronunciado por um dos rastreadores.

Cinco minutos mais tarde, o pequeno grupo de cavaleiros estava também separado. Pedro, Roque e Rafael rumaram para o norte. Os outros dois homens seguiram adiante.

Já era quase duas da tarde quando o pequeno grupo, liderado por Pedro, abeirou um pequeno riacho. Ali deram de beber às montarias e apearam para um breve descanso.

— Não estou gostando nada disto — comentou Roque quando se viu sozinho com seu companheiro. — Acho que estamos perdendo o nosso tempo.

— O problema é que já estamos aqui e voltar, agora, não vai ser muito honroso, né?

— Não sei por que, mas estou com um mal presságio — tornou a comentar o tropeiro.

— De que está falando?

— Não sei. Talvez seja só mesmo um mau pressentimento. Mas algo me diz que deveríamos voltar. Não vamos encontrar estes animais de jeito nenhum.

— Pedro! — chamou Roque ao ver o peão da fazenda regressando do outro lado do curso d’água. Ele vinha com uma arma na mão.

— Sim. O que foi?

— O que viu?

— Nada. Achei que tinha avistado alguma coisa, mas não foi nada.

— Acha que vale a pena continuar? — perguntou Rafael.

— Fui incumbido de levar de volta o que saiu do curral e não vou voltar sem isto, meus amigos. Nunca fiz isto — disse, decidido, o empregado de Romão.

— Nos diga uma coisa: tem idéia de para onde os animais foram levados? — questionou Rafael.

— Ouvi notícias de que há um bando de ladrões nesta região, roubando e assaltando as fazendas. Mas nunca estiveram nas terras de seu Romão. É a primeira vez que aparecem por lá. Para dizer a verdade, podem ter acompanhado vocês de longe até a fazenda. Esperaram que dormissem...

— E com estas notícias deste bando o seu Romão nunca se preocupou em se prevenir? — perguntou Roque

— Como eram apenas boatos e nunca tivemos problemas com esta gente, não havia porque contratar pistoleiros para ficarem de guarda. Ouvi dizer que eles têm um ponto de apoio aí para o norte. Levam tudo que foi roubado para lá. Dali, os cavalos e mulas são negociados para irem à São Paulo.

— E ninguém faz nada? — perguntou Roque

— Ninguém tem certeza de nada, meu amigo. Eu mesmo nunca vi nada, mas é o que andam falando por aí.

Depois de uma rápida refeição, os três homens estavam outra vez cavalgando, seguindo os rastros. Mas, às vezes, eles eram tão sutis que só podiam ser percebidos por um rastreador tão experiente como Pedro.

— A cerca de dez quilômetros há uma casa onde podemos passar a noite — anunciou o peão da fazenda. Não vamos conseguir ir mais adiante, pois acho que vamos ter chuva daqui a pouco.

Lá adiante, nos confins do mundo, grossas nuvens de chuva se formavam, escurecendo rapidamente o céu.

Quase uma hora mais tarde, avistaram a casa. Isto aconteceu quando os primeiros pingos de chuva já estavam caindo.

Era noite escura quando apearam à porta da casa. Com um grito, Pedro anunciou sua chegada. No entanto, o que se ouviu a seguir foi, nada mais que o barulho da água no telhado.

O peão contornou a casa e ao voltar anunciou:

— Não há ninguém, mas alguma coisa deve estar errada por aqui.

— Por quê? — procurou saber Rafael.

— Tem um cachorro morto lá no fundo. Foi morto com um tiro.

Sem dizer nada, Pedro forçou a porta de entrada. Fechada. Voltou a contornar a casa e foi à porta da cozinha. Não houve dificuldade em abri-la. Entrou, mas saiu quase de imediato.

— Tenho más notícias — disse o peão com cara de espanto.

— O que foi — indagou Rafael.

— Tem um homem morto lá na cozinha.

— O quê?! — exclamou em uníssono os dois tropeiros.

— Tem um homem morto lá dentro de casa.

A chuva já caía pesada. Além dela, o frio àquela hora da noite era intenso. Por outro lado, Rafael, mais uma vez, sentiu que a febre voltava.

— E agora? — quis saber Roque.

— Vamos ter que passar a noite por aqui.

— Aqui?! — voltou a exclamar os dois amigos.

— E onde mais poderemos pernoitar, senão aqui? Se ficarmos ao relento, podemos acabar mortos com este frio e toda esta chuva. Não há outro jeito, é por aqui mesmo que iremos ficar.

— Mas... — começou a falar Rafael.

— Ele tem razão, meu amigo. É melhor ficarmos mesmo por aqui.

Pedro entrou pela cozinha e foi até a sala de onde abriu a porta da frente para que os dois companheiros entrarem.

Era uma sala pequena com apenas uma mesinha ao centro ladeado por quatro rústicas cadeiras. Do fogão de lenha, veio o fogo para que o único lampião fosse aceso. Imediatamente, a claridade tomou conta de todo o ambiente. A um canto da sala, havia um feixe de lenha. Dali foi tirado o combustível para o fogo que foi, imediatamente, aceso. Rafael sentou-se a um canto. Tinha as roupas molhadas e percebeu que a febre voltava de forma acelerada.

Desconfiando que algo não ia bem com o amigo, Roque aproximou-se dele.

— Você não está bem, não é?

— É esta maldita febre.

— Precisa tirar estas roupas molhadas. Chegue perto do fogo e vamos colocar a roupa para secar. Não pode passar a noite assim.

— Será que lá na cozinha tem mesmo um homem morto?

— Não tenho certeza, mas prefiro não ir lá para conferir.

— Estou procurando aqui alguma coisa para comermos — anunciou Pedro lá da cozinha.

O peão falava como se estivesse em sua própria casa e como se por ali não houvesse um cadáver estendido.

Em alguns minutos, Pedro retornou.

— Temos aqui mate, um pouco de carne e polenta.

Não era muito, mas foi o suficiente para que todos comessem de forma satisfatória.

Em menos de uma hora, as roupas já estavam praticamente secas.

— Melhor você vestir isto. Está muito frio — aconselhou o amigo a Rafael.

O rapaz estava estático e mirava as chamas da pequena fogueira como se ali houvesse algo que lhe atraísse de todo a atenção.

— Suas roupas, Rafael — insistiu Roque, acercando-se do companheiro de jornada.

Indiferente ao que se passava ao seu redor, Rafael mantinha os olhos fixos na fogueira.

— O que há com este rapaz? — estranhou Pedro.

— É uma febre que não cessa.

— Meu Deus, e por que deixaram que ele viesse conosco?

Pedro se aproximou do doente e tomou-lhe a temperatura. Rafael continuava como que petrificado, com os olhos fixos nas labaredas.

— Está queimando de febre. Vou pegar alguma coisa para ver se a febre baixa — disse o peão.

Em segundos regressou com um pano embebido em água.

—Deite-se aqui, meu rapaz, e vamos ver o que pode ser feito.

Com cuidado, Pedro colocou na testa de Rafael o pano molhado. Era a única coisa que poderia ser feita em um momento daqueles.

— A temperatura precisa baixar. Pelos sintomas e pela cor da pele este menino está com febre tifóide. Isto pode durar dias.

— Isto pode matar? — indagou Roque à meia voz.

— Não vou enganar o senhor, já vi muita gente morrer por aí vitima desta doença. Nunca ouviu falar dela?

— Claro, mas não somos daqui, somos de São Paulo. Pelo menos, na região em que vivemos, isto é coisa muito rara.

Ao lado deles, Rafael tiritava de frio, apesar de já estar vestido.

— Não deveria ter permitido que ele viesse conosco de jeito nenhum — advertiu Pedro. — Não quero assustar o senhor, mas ele corre risco de morrer. Aqui não há nada que podemos fazer. Muita gente escapa desta maldita doença sem grandes problemas, mas outros...

Roque engoliu em seco. Voltou os olhos para o amigo e o viu, desta vez, já como uma vítima em potencial daquela praga. Não fazia idéia de como, nem onde, o amigo havia contraído aquela doença.

Imediatamente, o tropeiro sentou-se junto ao rapaz, colocando sua cabeça em seu colo. Ali ficou monitorando o ir-e-vir da febre que, às vezes, atingia picos de mais de quarenta graus.

— Meu Deus! Como é possível uma pessoa resistir a algo assim?

— Já vi gente em piores condições. Tenho um sobrinho que ficou neste vai-e-vem de febre por quase três meses e acabou escapando — declarou Pedro.

Lá fora, a noite seguia embalada pelo som da chuva que caía de forma ininterrupta. Cá dentro, de vez em quando, o fogo era alimentado com o que ali estava à disposição. Aos poucos o silêncio tomou conta de tudo. Somente o crepitar da lenha no fogo dava sinais de que alguma coisa ainda estava viva naquela sala.

Pedro, vencido pelo cansaço, acabou dormindo. Rafael lutava a seu modo contra a morte que lhe rondava o corpo. Roque, atento às alterações de temperatura do amigo, mantinha-se vigilante. Que trágica situação vivia. Ali, a menos de cinco metros dele, estava um cadáver estirado no chão da cozinha e em seus braços um outro corpo já quase sem vida.

Gostaria de ter tido com Deus uma aproximação maior ao longo da vida. Assim, em um momento de tragédia como aquele, não se acanharia de pedir-lhe a ajuda de que tanto precisava. Mas Deus é pai de todos os homens, e um pai jamais se recusa em estender a mão a qualquer um de seus filhos. Pediu, em pensamento, pela vida do amigo.

Ainda estava ali, metido em suas preces, quando um barulho vindo de fora lhe chamou a atenção. Imediatamente acordou Pedro e o notificou.

— Tem alguém lá fora — disse, mostrando-se visivelmente preocupado.

— Quem pode ser a uma hora destas?

— Talvez um parente do dono da casa.

Não continuaram a conversa, pois ela foi interrompida por duas pancadas na porta.

— Vai abrir? — procurou saber Roque.

— Pode ser alguém precisando de ajuda.

— A esta hora?!

— Se não abrirmos, seja lá quem for, vai fazer como nós fizemos, vai entrar a procura abrigo. Ainda mais que deve ter visto sinais de fogo aqui dentro — declarou Pedro se dirigindo à porta.

Quem estava lá fora era um rapazinho de pouco mais de catorze anos, negro e extremamente magro. Seu aspecto, imediatamente, chamou a atenção dos dois homens. Estava encharcado pela água da chuva, vinha descalço e estava sem camisa.

— Jesus Cristo, menino, de onde está vindo?! Está perdido? — indagou Pedro.

— Não! Sei muito bem onde estou — informou o rapazinho abeirando-se do fogo. — Lá fora está muito frio. Ainda bem que encontrei vocês e este fogo. Achei que teria que passar a noite toda lá fora.

— E por que está até esta hora da noite andando por aí? — perguntou Roque.

— Estou procurando uns cavalos que sumiram da fazenda onde trabalho.

— Procurando uns cavalos?! De que está falando?

— É isto mesmo. Dois cavalos da fazenda onde eu trabalho desapareceram ontem à noite e eu estou tentando encontrá-los. E vocês?

Os dois homens se entreolharam, mas foi Pedro quem primeiro se manifestou:

— Nós também.

— Vocês também estão à procura de animais desaparecidos? — questionou o rapaz com um discreto sorriso.

— É isto mesmo — informou Roque. — Mas, no nosso caso, estamos certos de que os nossos foram roubados, não sumiram durante o pastoreio ou escaparam do curral.

— Quantos são?

— Doze entre cavalos e mulas — declarou Pedro. — E você tem costume de fazer isto?

— Isto o quê?

— Procurar animais sumidos.

— Ah, já faço isto há algum tempo. Fui pegando prática. Tenho tido sorte. Até hoje encontrei todos que saí para procurar.

— E onde aprendeu isto? — perguntou Roque.

— Aprendi com meu pai. Ele era um dos melhores rastreadores que havia por estes pampas.

— Quer comida? Não há muita, mas possa conseguir alguma coisa — disse Pedro.

— Não senhor. O que estão me oferecendo já é o bastante. Precisava mesmo era de um lugar quente para terminar de passar a noite. E este rapaz, o que tem? — indagou o visitante se referindo a Rafael.

— Achamos que está com tifo — informou Roque. — Está muito mal.

— Deixe-me dar uma olhada.

— Entende disto também? — quis saber Pedro, curioso diante da postura do rapaz.

— Não. Nunca vi ninguém com esta doença.

O rapazinho tomou em suas mãos a cabeça de Rafael e massageou-lhe a testa por alguns segundos. Depois, a recolocou no colo de Roque.

Sem dizer nada se afastou dali e sentou-se a um canto.

— Os cavalos de vocês, assim como os que procuro, serão encontrados amanhã cedo — disse, de repente, sem de dirigir a ninguém especificamente.

— Como sabe disto?!

— Sei, só isto. Vão encontrá-los.

Foram as últimas palavras pronunciadas naquela sala. Pouco depois, todos estavam dormindo.

O primeiro a acordar foi Rafael. Lá fora, o sol ia alto. No centro da sala, apenas um monte de cinzas, vestígio do fogo da noite inteira. Próximos a ele, os dois companheiros de jornada ainda dormiam alheios à claridade do dia que já entrava pelas frestas das paredes e da porta.

Com cuidado, o rapaz abriu a porta e grande foi a sua surpresa ao ver, lá fora, algo que lhe chamou deveras a atenção.

— Roque! — chamou Rafael aos berros. — Pedro! Venham ver o que está aqui fora.

Despertados pelos gritos do rapaz, os dois homens puseram-se imediatamente de pé.

— Não é possível! — exclamou Pedro ao ver todos os animais que haviam sido roubados ali, reunidos à porta da casa.

— Afinal, o que está acontecendo aqui?! — procurou saber Roque, sem entender nada do que se passava.

— Estou tão espantado quando vocês dois — declarou Pedro. Imediatamente, a figura do estranho visitante da noite anterior lhe veio à mente. — Não é possível!!

— De que está falando? — indagou Rafael, enquanto Pedro conferia e contava os cavalos e mulas.

— Estão todos aqui. Não falta nenhum.

— Como vieram parar aqui? — indagou Rafael.

— Durante a madrugada, demos pousada a um estranho que nos veio bater à porta. Era um menino negro que aparentemente surgiu do nada. Demos a ele comida e um lugar para dormir um pouco — informou Roque.

— Ele nos disse, entre outras coisas, que hoje encontraríamos os nossos cavalos e mulas. Não lhe demos crédito, pois achamos que ele estava apenas dizendo bobagem — adicionou Pedro.

— De quem vocês estão falando? Eu não vi ninguém — disse Rafael achando aquela história um tanto quanto absurda.

— Pode parecer meio estranho, mas é verdade — concluiu Pedro. — Acho que ele tem também algo a ver com a sua melhora.

— Meu Deus! É mesmo! Está sentindo alguma coisa, Rafael? — procurou saber Roque.

— Apenas uma ligeira dor no corpo, nada mais.

— Amigos, vou lhes dizer uma coisa — disse Pedro de forma pausada.

— O que foi? — perguntou Rafael, estranhando a maneira como cada uma daquelaspalavras era articuladas.

— Posso estar enganado, mas tivemos, nesta madrugada, a visita do Negrinho do Pastoreio.

— De quem você está falando?! — quis saber Rafael, sem entender a quem Pedro estava se referindo.

— Esta é uma longa história.

— Pois então conte, pois tempo é o que não nos vai faltar em nossa caminhada de volta — pediu Roque.

— Vou fazer isto, mas é enquanto deitamos numa cova, aquele infeliz que está ainda na cozinha. Não podemos deixá-lo insepulto.

Imediatamente começaram a cavar a sepultura para o defunto dono da casa.

— Dizem, que na época da escravidão — começou Pedro a falar -, tinha um estancieiro muito cruel com seus empregados e escravos. Num dia de inverno, mais ou menos como estes dias agora, o fazendeiro mandou um menino negro de quatorze anos pastorear alguns de seus cavalos. De tarde, quando o menino voltou, o dono da fazenda percebeu que faltava um dos animais. Sem mais nem menos surrou com um chicote o negrinho com uma violência sem tamanho.

“Dizem que foi uma barbaridade o que ele fez com o pobre coitado. Mesmo sangrando, o senhor determinou que o menino voltasse e encontrasse o animal extraviado. ‘Se não o trouxer, você vai ver só o que lhe acontecerá’, teria dito o homem. Temeroso, o infeliz saiu à procura do animal. Não teve dificuldades em encontrá-lo, pois estava pastando não muito longe dali. O menino o trouxe, mas quando foi entregá-lo ao patrão, infelizmente o cavalo escapou.”

“Furioso com o que acontecera, o dono do escravinho o surrou ainda mais e o colocou nu, amarrado sobre um formigueiro. Ninguém duvidava de que ele teria morte certa se permanecesse ali, a noite inteira, como pretendia o fazendeiro. Ali foi deixado a garoto à própria sorte com ordens expressas de que ninguém dele se aproximasse sob pena que se alguém tentasse ajudá-lo teria a mesmo destino.”

“Na manhã seguinte, quando o malvado estancieiro foi ver o estado de sua vítima, quase morreu de susto. O menino estava lá, mas de pé, com a pele lisa, sem nenhuma marca das chicotadas nem de mordidas das formigas. Ao lado dele estava a Virgem Nossa Senhora, e mais adiante, o cavalo fujão e os outros animais. O estancieiro se jogou no chão pedindo perdão, mas o negrinho nada respondeu. Apenas beijou a mão da Santa, montou no cavalo e partiu conduzindo a tropilha. A partir daí, o que se comenta em toda esta região é que quando temos um animal ou qualquer coisa que tenha desaparecido, basta pedir ajuda ao Negrinho do Pastoreio que ele nos ajuda a encontrar.”

— Acha que foi isto que aconteceu com nossos cavalos? — indagou Rafael.

— Não, isto é, acho que não. Esta história é apenas uma lenda, nada mais — concluiu Pedro, enquanto atirava por sobre o corpo do infeliz dono da casa a última pá de terra.

Já era mais de três horas da tarde quando chegaram à estância. Ali, já se encontravam os outros dois homens que também partiram em busca dos animais roubados.

Depois de alguns minutos de conversa, ficaram sabendo que, sem mais nem menos, os dois outros homens haviam perdido os rastros dos animais que procuravam e tiveram que retornar à fazenda.
Na manhã do dia seguinte, os tropeiros ganharam outra vez a estrada e logo desapareceram no horizonte longínquo.

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