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4 de junho de 2016
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Curupira

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Nossa história começa em um dia de muita chuva.
Nós, que vivemos em cidades, muitas vezes nos aborrecemos com a chuva, pois ela nos impede de fazer um monte de coisas. Ela provoca engarrafamentos, alaga as ruas, inunda, infelizmente, as casas de muita gente, nos impede de ir a certos lugares. Mas, para quem vive nas regiões distantes no interior do Brasil, nas zonas rurais, ela tem uma função importantíssima: ela é responsável pela vida de muita gente. Sem ela não há colheita, sem colheita, não há alimentos e assim por diante.
Quando se passa nossa história? Não importa. Poderia ter sido ontem, como poderia ter acontecido há mais de quinhentos anos, bem antes do descobrimento do Brasil. Neste caso, o importante são os fatos, não o tempo ou o lugar.
A aldeia ficava encravada em uma mata fechada, muito distante da civilização. O mundo daquela gente limitava-se à floresta. Dali, como todos os índios, retiravam o alimento de que precisavam e o pouco material com o qual fabricavam suas roupas. Pouca roupa, claro, porque índio que é índio de verdade anda é mesmo sem roupa alguma, né? Da natureza vinha também os instrumentos de caça e pesca.
Naquele minúsculo mundo, viviam cerca de cinqüenta pessoas. Uns vinte adultos, alguns jovens e um monte de crianças. Você já viu que, na maioria dos lugares, há mais crianças que adultos? Deve ser porque as crianças são mais importantes que gente grande. Pena que muito adulto não sabe disso.
Bem, estas pessoas não moravam em casas com quartos exclusivos como você mora. Nas aldeias, todo mundo dorme junto. Pai, mãe, tio, tia, sobrinho, primo e... se todo mundo vive junto, então não tem mesmo porque separar quartos para cada um.
O dia tinha nascido no primeiro dia de nossa história e todo mundo estava já de pé. Tem gente que acha que os índios não fazem nada e por isso podem dormir como muita gente faz até a hora que quiser. Mas, nas aldeias, cada um tem uma obrigação a cumprir. Normalmente os homens vão à caça ou à pesca, enquanto as mulheres tomam conta da casa e da educação das crianças, além de cuidar da lavoura.
Com aquela chuvarada toda, nada poderia ser feito lá fora. Até os bichos que normalmente são caçados, com certeza, estavam também dentro de suas tocas, amedrontados com a quantidade de água que caia do céu. A lavoura, claro, agradecia a chuva. O milho, a mandioca e outras plantas não tinham do que reclamar.
As pessoas estavam presas em suas casas, isto é, em sua casa coletiva. Em dias como este é preciso encontrar um passatempo, senão ninguém agüenta ficar olhando para a cara de um e de outro. Deve ser mais ou menos como você ficar em casa sem energia elétrica. Uma chatice só, não é mesmo? Não tem computador, não tem televisão. Falta a vida. Isto é o que você acha. Existe um monte de coisas que podem ser feitas em uma situação desta.
Na aldeia onde se passa esta história há muito tempo haviam resolvido esse tipo de problema. Existia ali um homem muito inteligente e muito importante para toda aquela gente. Quem? O pajé. Este homem, uma mistura de curandeiro com conselheiro, é um sábio. Tanto é que para se chegar a um cargo desses não é fácil. E, nesta aldeia da qual estamos falando, o pajé era um ótimo contador de histórias. E, naqueles dias de muita chuva, ele tinha então uma outra função muito importante: entreter a criançada.
E haja história, viu! Muitas ele guardou na memória dos tempos de menino, mas outras ele mesmo inventava. Muita gente gostava mais dele como contador de histórias do que como líder religioso da aldeia. Principalmente a meninada, claro. É que ele, às vezes, não dava conta do recado direito e algumas pessoas morriam por lá. Mas as pessoas morrem em todos os lugares, mesmo com médicos por perto, imagine no meio da mata.
— Conta aquela do caçador que acabou devorado pela onça, conta? — pediu um indiozinho de pouco mais de seis anos.
— Esta não — retrucou outro bem mais velho. — Esta já ouvimos um monte de vezes.  
— Então conta a do Javali. Aquele que ele foi criado pela índia que perdeu o filhinho.
— Esta também não. É muito triste — disse uma índia ainda adolescente. — Quando ele morre no final eu sempre choro. Não gosto de histórias tristes não — completou a menina.
— Então conta aquela do guerreiro que enfrentou sozinho uma tribo inteira —arriscou outro. — Quando crescer quero ser como ele. Aquilo é que é coragem!
— Besteira. Onde já se viu um índio sozinho matar tanta gente — adiantou um outro rapazinho.
O pajé, em silêncio, observava os comentários. No fundo, estava feliz porque sabia que, com suas narrativas, conseguia prender a atenção de muita gente, até de adultos.
— Quem vai escolher a história é ele, ora! — disse um outro apontando para o pajé que até então não havia se manifestado.
— Não tem uma história nova, não? Assim ninguém reclama — aconselhou uma mulher que se aproximou servindo a todos em tigelas de barro a primeira refeição do dia.  
O pajé, sentado no chão e tendo a sua frente o bando de crianças, limpou a garganta. Era um sinal característico. Imediatamente se fez silêncio em todo o ambiente. De sua boca, em instantes, começaria a jorrar um monte de palavras articuladas de forma clara e ao alcance de todos. Como é que de uma cabeça como aquela poderia vir tanta coisa?
— Bem — começou ele a falar pausadamente —, vou contar-lhes uma história muito interessante. Sei que alguns aqui já a conhecem, mas esta sempre é bom não deixar que caia no esquecimento.
— E qual é? — indagou curioso um outro indiozinho.
— Fique calado! — determinou sua mãe, a mulher que havia servido a comida.
— Trata-se da história do Curupira.
— Curupira?! Nunca ouvi falar deste bicho – comentou um outro.
— Curupira não é um bicho, seu bobo — interferiu o mais velho do grupo de ouvintes.
— Se não ficarem calados eu não conto — advertiu o velho índio.
O silêncio tomou conta de tudo ali.
Outra vez o pajé limpou a garganta e pôs-se a narrar.
Lá fora, a chuva vinha do céu como há muito tempo não vinha.
— No meio da floresta foi feita uma clareira. Era um lugar muito amplo, onde os caçadores se reuniam ao final de cada dia. Eram mais de dez homens ao todo. Ali construíram seu rancho e para ali levariam os animais que conseguissem caçar ao longo de cada dia. Os caçadores não são como nós que caçam apenas para se alimentar. São pessoas que caçam para obterem o couro dos animais e muitos deles apenas pelo simples prazer de matar os bichos.
— E tem gente que faz isto? — indagou uma das crianças.
— Claro que tem, meu menino. Claro que tem! São pessoas que não se preocupam com nada. Só querem se divertir ou ganhar dinheiro sem muito esforço. Mas, vamos em frente com a nossa história, né? No final do primeiro dia de caça o resultado não foi lá essas coisas. Era um dia de chuva, mais ou menos como hoje. Os bichos naquele dia também estavam se protegendo da chuva. 
— É, meus amigos — disse um dos caçadores —, se continuar esta chuvarada, acho que vamos perder a viagem.
— Eu não saio daqui sem levar pelo menos uma paca — disse um outro enquanto limpava a sua espingarda.
— Eu não volto para casa sem um couro de onça pintada — comentou Julião, o homem que liderava o grupo. – Já imaginou um couro enorme de onça pintada dependurado na parede lá em casa? Vai ficar muito bonito.
A um canto, sem participar da conversa, um homem baixinho observava a tudo com muita atenção.
— E você, João? — perguntou Julião.
— Eu?!
— É. O que vai querer levar daqui? Não me diga que vai querer o couro de uma sucuri. Aquilo é cobra traiçoeira.
— Não quero nada.
— Como nada? Vem de tão longe, se mete em um lugar deste, sendo picado por mosquitos o tempo todo e não quer nada? Está brincando?!
— É mesmo verdade. Não quero levar nada. 
— Então, por que está aqui?  — procurou saber um outro caçador.
— Porque sou um idiota. Idiota assim como cada um de vocês. 
— Idiota por quê?
— Parem e pensem! Existe alguma lógica no que estamos fazendo?
— Ora esta. Estamos nos divertindo — disse um terceiro homem chamado Geraldo, um dos mais antigos caçadores do grupo.
— Está vendo como somos mesmo idiotas. Nós nos divertimos matando animais.
— Era só esta que faltava agora. Uma pessoa que resolveu, de repente, proteger os indefesos bichos. 
— E são indefesos mesmos. O que podem estas pobres criaturas diante de uma arma como esta? — indagou João, exibindo a espingarda e apontando para o peito de um de seus amigos.
— Meu Deus, homem, vire isto para lá! — exclamou Julião. — Este troço pode disparar.
— Está vendo? Se você que sabe se defender e conhece uma arma está com medo, imagine uma paca, uma onça, um jacaré. Que chance tem um bicho diante de uma coisa desta?
— Só faltava mesmo isto: um ecologista — observou Geraldo. — Ô, João, por que não vai para casa e deixa a gente fazer o que veio fazer. — Não quer mais caçar, tudo bem, mas não enche a paciência nem atrapalhe. 
João sabia que jamais conseguiria fazer com que os amigos mudassem de idéia. Aliás, ele mesmo, anos antes, pensava exatamente daquela forma. Quantas vezes já tinha estado ali, naquela mesma mata, dando tiros e abatendo animais?
Aos poucos, a noite veio caindo lentamente. Aqui e ali um lampião foi aceso e em pouco tempo a noite caiu pesada.  
Mas as noites nas matas nunca são silenciosas. Aqui e acolá o piado de uma ave ou um outro barulho qualquer sempre deixa intrusos sobressaltados. Nestas clareiras, normalmente, uma pequena fogueira permanece acesa durante toda a noite com o objetivo de afastar os animais ferozes. Mas, naquela noite, a chuva não permitiu que sequer lenha fosse conseguida para acender o fogo. Tudo que se tinha ali para clarear a noite era a luz frouxa dos lampiões. Muito pouco para uma escuridão daquele tamanho.
Em pouco tempo, todos já estavam em suas respectivas camas. Não demorou e o cansaço empurrou aqueles homens para um sono profundo. No entanto, um deles não conseguia dormir. Era João. Estava acordado. Não conseguia conciliar o sono de jeito nenhum. Estava revivendo cada uma das palavras de seus companheiros ouvidas naquela tarde. Até que ponto realmente chega a crueldade do homem?
Estava ali envolto em seus pensamentos quando um barulho diferente lhe chamou a atenção. Aguçou os ouvidos. Dentro do rancho, todos dormiam, menos ele. Era um som estranho, como se alguma coisa estivesse caminhando lá fora em torno do rancho. Certamente alguma onça, pensou. Mas logo mudou de idéia. Onça não caminhava daquela forma. Era gente que estava lá fora, não tinha dúvidas.
Pelas frestas da parede de madeira pôde ver a luz vinda do lampião dependurado na trava da casa. Estava prestes a se levantar quando, de repente, tudo ficou escuro. A luz havia sido apagada.
Naquele momento, pôde perceber um vulto junto à parede. Onça ou qualquer outro bicho não faria uma coisa daquelas, nem caminharia daquela forma. Era uma pessoa, apesar de muito baixa, pois andava de forma ereta. Realmente havia alguém lá fora rondando o rancho. Uma pessoa disposta a roubá-los? Talvez. Talvez não.
Com um grito apenas, João acordou os amigos e explicou o que estava acontecendo.
— Besteira. O que apagou o lampião foi o vento — disse Julião, pondo-se de pé e dirigindo-se à porta de saída.
— Aonde você vai? — procurou saber um dos caçadores.        
— Vou mostrar que lá fora não tem ninguém — disse o homem levando consigo a espingarda engatilhada.
Caminhou alguns passos, parou no meio da clareira e disse:
— Estão vendo. Não há ninguém aqui.
Imediatamente um tiro rompeu o silêncio da noite.
— Meu Deus!! O que está acontecendo??!! — gritaram quase juntos todos os homens que estavam dentro da casa.
Nada mais se ouviu vindo lá da escuridão da noite.
— Julião!!! — arriscou João, depois de alguns instantes, aproximando-se da porta.
— Saia daí agora mesmo!! Quer também levar um tiro? — exclamou Geraldo amedrontado com o que estava acontecendo, já quase se metendo debaixo da cama.
— Calma, pessoal!! — disse Julião chegando junto à porta. — Fui eu que dei um tiro para o ar. Se tinha alguém lá fora, já não tem mais. Deve estar correndo mata adentro para bem longe daqui.       
— Santo Deus, homem!! Quer nos matar de susto! — disse um outro caçador, com a voz praticamente presa na garganta.
 — Vocês são realmente uns frouxos, hein? Que belos companheiros de caçada eu arranjei. Ao primeiro barulho se metem debaixo das camas — disse Julião entre gargalhadas.
— Com estas coisas não se brinca. Claro que eu fiquei assustado, meu amigo. Achei que tinham acertado você — voltou a falar Geraldo, já de pé outra vez.
— Me acertado??!! E quem iria conseguir isso numa escuridão dessas?      
— Vi alguém lá fora — disse João.
— O quê??!! Disse que viu alguém lá fora? — indagou um outro homem.
— Vi. Tenho certeza disso.
— Tem certeza de que não era um bicho? Podia ser uma onça, um porco do mato...
— Porco do mato, nem onça andam com dois pés. Tenho certeza de que era uma pessoa. Muito baixinha, mas era gente.
— Bom, não importa quem ou o que era; o importante é que não vai nos perturbar mais — garantiu Julião. — Depois do tiro que dei, deve estar ainda correndo por aí.
— Vamos voltar a dormir — aconselhou um outro homem.
Em minutos, a pequena casa voltou ao silêncio de antes. Lá fora a luz tornou a iluminar, parcialmente, a noite. O que se ouvia vindo da mata era apenas o vento nas folhas das árvores e alguns piados de pássaros. A chuva havia cessado há muito tempo e no céu, lá em cima do mundo escuro, a lua navegava pacientemente.
Não demorou muito tempo e novamente alguma coisa chamou a atenção do único homem que, mais uma vez, não havia dormido. Preocupado, João pôs-se de pé e chamou os companheiros.
— Pessoal, temos visita outra vez.
— Deixa de besteira e vê se dorme, homem! — ordenou um dos caçadores.
— Meu Deus! Assim não tem jeito. Precisamos dormir, caso contrário não caçaremos nada amanhã — observou Geraldo, mostrando-se visivelmente irritado.
— Vou voltar lá fora — disse, de forma decidida, Julião. — Também tive a impressão de ter ouvido alguma coisa. Seja quem for que estiver lá, não darei mais um tiro para o ar, darei neste infeliz que está nos incomodando.
— Volte aqui, meu amigo — aconselhou alguém. — Não há nada lá fora além do barulho do vento nas árvores. – Isto é coisa da imaginação desse idiota do João.
— Mesmo assim vou lá. Aqui dentro está mesmo um calor insuportável. Vou tomar um arzinho fresco — voltou a dizer o líder do grupo com um sorriso.
Junto com ele seguiram mais dois homens, todos armados. Lá fora, deram alguns passos e pararam a alguns metros da casa. Não tiveram tempo sequer de ver o que se passou. A ação foi tão rápida que todos ficaram boquiabertos. Como um relâmpago, um vulto saiu da mata próxima e avançou contra eles. Não tiveram tempo para correr em busca de abrigo dentro de casa. Mas não foram nem tocados.
A pessoa ou animal que passou por eles apenas retirou de suas mãos as três espingardas que carregavam. Não houve tempo para qualquer tipo de reação. Quando perceberam, estavam desarmados. 
— O que está aconteceu? — quis saber Geraldo ao ver os amigos retornando para dentro de casa, com as caras mais espantadas do mundo. 
Não houve resposta. Nenhum dos três conseguiu articular qualquer palavra.
— Meu Deus do céu! Até parece que viram um fantasma — comentou João sem entender também o que se passava.
— Onde estão as armas?! — perguntou outra pessoa.
— Perdemos — comentou Julião com uma voz lenta.
— Como, “perdemos”??!! Onde estão as espingardas?!
— Alguém levou todas elas.
— Alguém? De que estão falando?
— Não sabemos. Não deu para ver direito — disse Roberto, um dos homens que foram desarmados.
— Alguém se aproxima de vocês, leva as três espingardas e nem vêem quem faz isso? — estranhou Geraldo.
— É verdade.
— Como isso é possível? Vou lá fora ver o que está acontecendo. Acho que beberam além da conta. Já estão até vendo coisas.
— Não saia lá fora — advertiu Julião.
— E, por que não? Vou buscar as espingardas.
— Não vá.
Sem dar ouvidos aos pedidos do amigo, Geraldo deixou a cabana. 
Caminhou alguns passos e parou. Levava em uma das mãos um dos lampiões. Olhou a sua volta, ergueu a luz, tentando visualizar alguma coisa, mas nada podia ser visto. Nada além das grandes árvores em volta da pequena casa onde estavam os companheiros. Estava já pronto para retornar quando uma voz veio da mata em frente.
— Geraldo! — chamou alguém.
Era uma voz rouca, mas perfeitamente compreensível. Seu nome estava sendo chamado. Por certo, uma brincadeira de algum conhecido. Só poderia ser o Marcos. Ele não quisera participar daquela caçada exatamente para lhes pregar uma peça como aquela. Mas aquilo não iria ficar sem uma resposta à altura. Ah, isso não ia mesmo!
Caminhou na direção da voz e meteu-se na mata. Foi a última vez naquela noite que foi visto pelos amigos.  
Ninguém mais dormiu naquela noite, no entanto, nenhum dos caçadores teve coragem de ir a busca do amigo. No dia seguinte, quando amanheceu, todos foram para fora tentar entender o que acontecera na noite anterior. Na clareira aberta na mata, apenas uma quantidade enorme de rastros. Nenhum sinal do amigo nem das espingardas que haviam sido levadas.
— Jesus Cristo, afinal, o que está acontecendo por aqui? — indagou um dos caçadores.
Imediatamente alguns puseram a observar os rastros que se encontravam na clareira enquanto outros entravam na mata. Algo estava errado com as marcas deixadas pelo estranho visitante. Seus rastros mostravam que ele apenas chegara, mas não saíra. E não tiveram dúvidas, eram rastros de gente.
— Com é possível um negócio deste? — indagou um dos caçadores achando aquilo muito estranho. – Vejam estes rastros!
— É como se a pessoa que tivesse vindo até aqui não tivesse saído. Só existem rastros dela entrando. Mas, para onde ela foi? — procurou saber Julião, sem entender nada do que estava se passando ali.
João sabia de uma das características mais importantes do Curupira. Ele tinha os pés voltados para trás, exatamente para deixarem confusas as pessoas que, por ventura, quisessem segui-lo pela mata. 
Três homens se embrenharam na mata na esperança de encontrarem Geraldo.
— Eu não saio daqui de jeito nenhum — declarou um dos caçadores, achando muito estranho tudo que estava acontecendo. — Na verdade, eu quero mesmo é ir para casa.
— Ninguém vai embora e vai deixar para trás os demais. Viemos juntos e vamos voltar todos juntos — determinou Julião.
— E o que vamos fazer? Ficar sentados aqui e esperar que Geraldo volte ou que estes três idiotas retornem?  — voltou a comentar o homem.
 — Vamos esperar um pouco. Não devem demorar.
Foi isso que fizeram. Retornaram à cabana e aguardaram pelo retorno dos amigos. Viram o dia avançar com uma lentidão insuportável e nem notícia daqueles que estavam lá fora. Já passava das três da tarde quando um barulho chamou a atenção de todos. Saíram da casa e viram os homens que foram em busca de Geraldo entrando na clareira. Vinham cambaleando e com as roupas em farrapos.
— Jesus Cristo!! O que aconteceu? Até parece que foram atacados por uma onça ou um javali! — comentou João.
— Antes fosse, meu amigo — disse um deles, enquanto desabava no chão.
— Afinal, o que aconteceu?! Onde está o Geraldo?
— Não vimos nem sinal dele. Fomos atacados por um bicho ou uma pessoa, sei lá. Não deu para vermos direito. Estava no meio da mata fechada. Só sabemos que tinha os cabelos da cor de fogo e os pêlos do corpo completamente verdes.
— Tem alguma coisa muito errada acontecendo por aqui — declarou um outro caçador. — Não fico aqui nem mais um minuto. Vou-me embora!
— Já disse que ninguém vai embora e deixar uma pessoa sequer pra trás — voltou a falar de forma enérgica Julião.
— Pois então, tente me impedir, seu idiota! – disse, quase aos gritos, um dos homens atacados pela estranha criatura no meio da mata. — Quase fui morto ainda há pouco. Se quiser ficar, que fique, eu estou indo embora.
Dito isso o homem caminhou até a entrada da cabana. Ia pegar suas coisas e deixar aquele lugar o mais rápido que pudesse. Naquele momento, a noite já dava sinais de que não demoraria a chegar. No entanto, não entrou. Parou, de repente, à entrada da pequena casa. Um grito de horror, neste instante, irrompeu pela clareira e ganhou a mata fechada.
Imediatamente todos correram em sua direção.
— Até parece que viu um fantasma! — comentou João ao ver o amigo petrificado e boquiaberto.
De seus lábios, quase impossíveis de serem ouvidas, apenas vieram as seguintes palavras:
— Estava sentado em minha cama.
— De quem você está falando, Antônio? Quem estava sentado em sua cama? — perguntou alguém
— O demônio que nos atacou.
— Mas não há nada aí — assegurou Julião, observando o interior da cabana.
— Estava aí.
— Mas por onde ele saiu? Só há esta porta de saída e por aqui não passou ninguém. Estávamos todos olhando para ela.
— Saiu pelas frestas da parede de madeira — informou Antônio sem se mover do local onde se encontrava.
— Como é possível isto?! Por aqui, não passam nem ratos — disse um dos presentes, observando cuidadosamente as pequenas aberturas entre as finas varas madeira que formavam as paredes.
— Aí eu não entro de jeito nenhum — voltou a dizer Antônio, afastando-se da porta.
— Deixe de besteira que isto é coisa de nossa imaginação — disse Julião pondo-se porta adentro. — Como pode um bando de homens ter medo de uma coisa que nem sabemos ao certo o que seja. Quer suas coisas, seu frouxo? Vou lá e pego. Se quiser desaparecer daqui, vai tarde.
Mas não foi além da entrada da porta. Ao primeiro passo, parou. Pelas frestas da parede pôde ver, lá fora, uma estranha figura. Era, sem dúvidas, a figura descrita pelo amigo Antônio. Mas que droga de criatura era aquela?
Não houve tempo para qualquer comentário. De repente, um fogo intenso irrompeu por entre as camas e quase atingiu o teto.
— Meu Deus!!! Vamos sair daqui! Tudo isto vai pegar fogo — exclamou um dos caçadores pondo-se a correr para longe da cabana.
— Minhas coisas estão todas lá dentro! — gritou outro. — Vou pegá-las.
— Está louco. Tudo isto vai virar cinza daqui há pouco. Nem pense nisto — advertiu João, segurando o amigo pelo braço.
Afastaram-se todos correndo. Em instantes, tudo foi consumido pelas chamas que àquela hora já clareava a noite que acabara de chegar.
— Meu Deus, aí dentro estavam todos os meus documentos, minhas roupas e até dinheiro — comentou Antônio visivelmente abalado com o que havia acontecido.
— Perdemos tudo — comentou Julião, também estarrecido com a velocidade com que as chamas consumiram tudo ali.
— E agora? — indagou uma outra pessoa.
— Nada podemos fazer por enquanto. O jeito é passar a noite ao relento e amanhã, pela manhã, procurar uma maneira de sair daqui — disse João.
— Isto que fizeram com a gente é um crime! — falou Julião visivelmente aborrecido. Vou à polícia quando chegar à cidade.
“Crime é o que estávamos cometendo por aqui, meus amigos”, pensou João.
A noite que veio a seguir foi a mais longa da vida daqueles homens. Ninguém pregou os olhos durante todo o tempo. Estavam todos temerosos de novos ataques. No entanto, nada de anormal acorreu.
Mal o sol havia nascido e decidiram que deveriam voltar o mais rápido possível.
— E o Geraldo? — indagou Antônio. — Vamos deixá-lo para trás?
— O que podemos fazer? Eu é que não vou procurá-lo de jeito nenhum — avisou um dos homens, que no dia anterior, havia tentado encontrar o amigo desaparecido.
— Vamos embora antes que mais alguma coisa nos aconteça — aconselhou outro, pondo-se imediatamente a caminhar em direção ao local onde seus carros se encontravam estacionados. 
Não demoraram a chegar onde queriam. Todo o percurso foi feito sem nenhum problema, apesar da tensão que rondava a todos.
— Graças a Deus! – exclamou João, sentindo-se mais seguro a partir daquele momento.
Já estavam com os veículos em movimento quando, mais uma vez, um barulho estranho veio da mata. Ao invés de pararem para ver o que estava acontecendo, os caçadores puseram os carros em movimento, procurando deixar aquele lugar o mais rápido possível. 
— Vejam lá! — exclamou um dos caçadores vendo pelo retrovisor um homem correndo, desesperadamente, estrada afora atrás dos carros. Não houve qualquer dificuldade para identificá-lo. Era Geraldo.
Neste momento fez-se silêncio. O pajé esticou as pernas e cessou a narrativa.
— E depois, o que aconteceu? — quis saber um indiozinho de pouco mais de cinco anos, curioso pelo final da história.
— Depois o que aconteceu?!
— É. O Curupira atacou e matou todo mundo? 
— Não. Todos os caçadores voltaram para casa sãos e salvos.
— Não gostei do final da história — observou um outro menino.
— Mas aqueles caçadores nunca mais voltaram ali para matar animais nem causar danos á floresta. Receberam a lição que mereciam, ora.
Lá fora a chuva estava já quase cessando. Era hora de voltarem todos às suas atividades. E a vida na aldeia, em poucos minutos, voltaria ao normal.

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