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Dragão

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Não eram ainda seis horas da manhã quando deixei a casinha onde vivia com destino a cidade, mais precisamente a feira. Levava, como fazia quase todas as manhãs de sábado, cerca de vinte sanduíches. Se tivesse sorte voltaria para casa antes do meio dia com dinheiro suficiente para o nosso sustento por uma semana. Eu era o único que produzia alguma coisa naquela família. Minha mãe, quase sempre doente, limitava-se a preparar a mercadoria para ser vendida. Meu irmão mais menino que eu, com apenas seis anos, de fato nada podia fazer. Meu padrasto, sempre bêbado e reclamando da vida miserável que levava, jamais arranjava o que fazer que produzisse um mísero centavo. Ao contrário, gastava parte do que ele ganhava no boteco de seu Romualdo.
Depois de me afastar de casa cerca de duzentos metros, parei, olhei para trás. Se não fosse por mãe, preferia nunca mais voltar ali. O substituto de meu pai, eu desejava que morresse, pois nada de bom me trouxera em toda a vida; o irmão, sempre adiara. Que falta faria um pequenino a menos naquele mundo deserto, de fome eterna e de fadiga?
Voltei a caminhar estrada a fora. O vento frio da manhã levava até minhas narinas o cheiro bom da carne moída com molho de tomate. Torcia para que pelo menos algum sobrasse para que pudesse comê-lo, mesmo sabendo que aquilo significava menos dinheiro em casa, e menos dinheiro queria dizer mais miséria e mais fúria por parte do marido de minha mãe. Desgraçado aquele homem! Se pudesse matá-lo, por certo o faria. Aquela era outra criatura sem serventia naquele mundo. Afinal para que servem os beberrões? Para que servem os padrastos? Infelizes todos eles!
Continuei a caminhar. Acelerei os passos pois, caso contrário, poderia perder a hora. Àquela hora da manhã muita gente, vinda de todas as partes do município já estava armando as suas barracas e bancas. De repente, da margem direita da estrada veio um barulho. Entre assustado e curioso, parei. Não tive muita dificuldade para identificar o que produzia o ruído: era Dragão, o cachorro de dona Esmeraldina.
Com um pequeno assobio, a cão se aproximou. Magro como todas as criaturas daquele mundo agreste, o animal trotou em minha direção, juntando-se a mim em minha caminhada. O bicho tinha um encontro marcado comigo todas as manhãs quando saía para negociar.
Para mim sempre fora uma companhia agradável e até uma proteção, apesar de que por aquelas estradas jamais houve qualquer tipo de perigo; para o cachorro uma possibilidade de comida fora das circunvizinhanças. Na feira, apesar da concorrência, sempre era possível um pedaço de pão, um resto de comida, um peixe podre, um naco de carne suja ou ainda um osso.
À margem da estrada, as lavouras de sisal, estendiam por uma planície até o horizonte ao longe. Aquele era o ouro daquele lugar. O ouro para os donos da terra e a causa do martírio para milhares de crianças, forçadas a trabalhar naquela indústria. Conhecia muito bem o sofrimento daquela gente, pois também fui vítima daquele sistema desumano de trabalho. Trabalhei na colheita, no transporte, no desfibramento. Fui mais uma das milhares de crianças exploradas por aquele sistema, até meu primo Eduardo perder uma das mãos em uma daquelas malditas máquinas.
A partir de então minha mãe decidiu que, se eu tivesse que morrer, que morresse em casa ao lado dela.
O sol rasgava a manhã à medida que seguíamos em direção à cidade. Ali estava ele sempre vigilante, impiedoso, imperioso. Um companheiro, na maior parte do tempo, indesejado. Todavia, quando retornávamos por volta do meio dia, uma da tarde, ele transformava-se em um inimigo terrível. Quando o sol está no teto do céu, o mundo aqui embaixo se aquieta, entorpece, morre. Fecham-se portas e janelas, sossegam-se as cidades, desaparecem as pessoas.
Ao chegarmos ao nosso destino, o movimento da feira era já considerável. Lá adiante, o sol já deitava por sobre os telhados das casas a sua coloração amarelo-ouro.
Observei à minha volta e vi alguns de meus concorrentes. Era gente que vendia amendoim cozido, milho assado, mingau de tapioca. Sob uma pequena árvore, um homemzinho procurava deitar fogo em um monte de carvão para o preparo do churrasquinho, vendido depois de mergulhado em molho e farinha de mandioca. Instintivamente descobri a cesta em que levava os sanduíches e os contei: vinte e dois exatamente.
Sentei-me encostado à parede de uma casa e aguardei. Meu companheiro, o cachorro Dragão, amuou-se em um canto sob um jirau de madeira. Estava diferente, mais quieto. Sempre fora um animal vivo, perspicaz. Mas naquele dia, desde que o vi ainda bem cedo, percebi que ele se portava de maneira estranha. Talvez o efeito da fome. Não dei importância. Coisas de cachorro, pensei.
Aos poucos as pessoas foram chegando e em menos de uma hora a feira estava em polvorosa. Aqui e acolá os vendedores apregoavam suas mercadorias, transformando o ambiente em um emaranhado de vozes ininteligíveis, indissociáveis. Chegara o momento de percorrer toda a extensão da rua onde se localizava a feira também negociando o que trazia de casa.
Pus-me de pé e fui adiante. Chamei por Dragão, mas ele aparentemente não ouviu o meu chamado. Lembrei, por um momento de meu irmãozinho. Ele também agia daquela maneira, como se estivesse alheio a tudo, como se não me ouvisse. Aproximei-me do cachorro e acariciei sua cabeça. Nem um olhar. Era como se estivesse cansado demais para esboçar qualquer reação. Achei melhor não insistir. Disse-lhe que voltaria em breve e fui rua afora.
Com o tempo e com a freqüência à feira, conhecia a maior parte das pessoas que ali iam todas as semanas, tanto os vendedores quanto os que compravam. Portanto sabia quais os locais onde se faziam melhores negócios. E o melhor lugar era próximo ao estacionamento dos veículos e animais que chegavam com mercadorias. Era mais fácil vender para os feirantes que para os compradores. Estes viviam na cidade, tinham suas casas ali perto e não gastavam dinheiro com comida.
Tropas de jegues estavam estacionadas ao longo de um enorme pátio destinado a elas. Do outro lado da rua, o estacionamento dos veículos. Corri os olhos à minha volta e me deparei com um vendedor ambulante em especial. Este estava armando uma banca de madeira. Em poucos instantes passou a depositar sobre ela, pães, pacotes de biscoitos e alguns bolos cobertos com uma espécie de redoma de plástico transparente. Tudo muito organizado, tudo muito limpinho. Forte concorrência para quem trazia simplesmente uma cesta de bambu enfiada no braço e dentro dela apenas sanduíches de pão de sal com carne moída e molho de tomate. Pensei em me afastar dali, mas lembrei-me de que tinha alguns clientes cativos. Dali, portanto, não arredaria pé.
Não tardou a aparecer o primeiro: um chofer de caminhão, um desses veículos que passam pelas estradas catando gente para feira.
- O que temos aí hoje, Roberto? – indagou ele.
- O de sempre, meu amigo – respondi com um sorriso, próprio das pessoas que vendem.
- Vou te dizer uma coisa, menino.
- O que é? – procurei saber curioso.
- Precisa variar. A concorrência está fechando o cerco, meu amigo.
- Só vendo sanduíches, mas são os melhores – disse rindo.
- Mesmo assim.
- E os dentes, seu Donato?
- Hoje resolvo este problema – disse o homem orgulhoso. – Hoje volto para casa com a boca cheia.
Lá pela feira, certa feita apareceu um sujeito dizendo-se dentista. Se era ou não, para aquela gente miserável pouco importava. O que precisavam era de alguém que lhes consertassem os dentes a preços que podiam pagar. Ali mesmo em uma das esquinas, instalava o seu equipamento e operava. Numa semana arrancava os dentes podres daqueles miseráveis, na outra fazia as molduras, e na semana seguinte trazia-lhes as dentaduras, as quais eram expostas, sem a menor cerimônia sobre um bancada de madeira. Orgulhoso de seu trabalho, tinha os dentes artificiais em exposição como um cartão de visitas de sua singular arte: a arte de repor o que o descaso ou a miséria havia consumido.
- Quando andar por aí, veja se o dentista já chegou, certo? – pediu Donato, enquanto comia a segundo sanduíche.
- Vejo para o senhor – concordei logo, certo de que a dentadura poderia ajudar-me nos negócios. Dentes novos poderia significar mais apetite e maior facilidade em triturar os alimentos.
Quando o motorista da caminhão se afastou para cuidar de seus afazeres, o dona da banca ao lado me chamou.
- Menino, acho que vamos ter problemas.
- Problemas?!
- Você está atrapalhando os meus negócios.
- Atrapalhando, senhor?
- É isto mesmo, ora.
- Não estou entendendo, senhor – fiz-me de desentendido.
- Vendendo esta sua porcaria aí na frente de minha banca, vai impedir que os clientes cheguem até aqui.
- Mas eu vendo aqui há mais tempo que o senhor. Para falar a verdade, nunca tinha visto o senhor por aqui.
- É, mas agora está vendo. Este ponto é meu e vai dando o fora. Se quiser continuar vendendo esta merda, vai vender em outro lugar.
- Mas a feira é livre. Cada um vende o que quiser onde quiser – insisti.
- Estou lhe avisando. Se continuar aí me atrapalhando, vai acabar não tendo nada para vender. Jogo tudo na poeira.
Neste ponto a conversa foi interrompida pela chegada de um outro homem, também desconhecido.
- Algum problema, Rodolfo? – indagou este, dirigindo-se ao dono da banca.
- Não. Nada. Só este garoto que já estava indo vender os sanduíches dele em outro lugar.
- Se estiver atrapalhando os seus negócios, me avise que eu boto ele pra fora da feira em dois minutos.
Ergui os olhos e me deparei com um sujeito de quase dois metros de altura. Um gigante para os padrões do lugar. Um policial novo na cidade? Talvez. Melhor não criar caso. Saí dali e fui circular pela feira. No entanto, andar com a cesta por entre aquela multidão era impraticável. O tempo todo era necessário colocar a cesta na cabeça. Impossível vender qualquer coisa em uma situação daquelas. Mesmo assim fui adiante, até atingir o ponto onde se encontrava o cachorro Dragão. O animal estava no mesmo lugar, com a cabeça baixa, na mesma posição em que eu o havia deixado.
Chamei-o pelo nome. Obtive um simples erguer de cabeça, nada mais. Dei-lhe as costa e voltei a chamá-lo na expectativa que me acompanharia. Não tive sucesso. Queria, em verdade, retornar para as proximidades do estacionamento e tinha a intenção de levá-lo comigo. Achei que seria uma maneira de intimidar meu concorrente. Mas vi em poucos instantes que meu plano iria por água abaixo.
Mesmo assim, não desisti de meu plano. Procurei pelo chão uma embira e passei-a pelo pescoço do cão. Saí quase arrastando o infeliz pela feira até chegar onde estivera minutos antes. De vez em quando olhava para trás e via o pobre cachorro seguindo-me contra a sua vontade.
- Olha só quem está de volta! – ouvi o dono da banca dizer quando viu eu me aproximar em companhia de Dragão. – E ainda trouxe um cachorro. Eu não lhe avisei de que não queria você por aqui? Por acaso é surdo, seu infeliz?
Não lhe dei resposta. Não havia mais nada a dizer. Torci para que ele não me pegasse e atirasse longe, ou que destruísse o que eu tinha para vender. Se aquilo acontecesse, seria uma tragédia. Fiquei firme em meu posto. De vez em quando dava uma olhada de soslaio para meu concorrente. Lá estava ele de braços cruzados esperando por alguém que lhe comprasse alguma coisa. Ninguém. No íntimo torcia para que não aparecesse mesmo uma viv’alma.
De repente surge sorridente por entre as pessoas o motorista de caminhão.
- Meu Deus, seu Donato, como o senhor está elegante. Ficou muito bom mesmo esta dentadura. O senhor não gostaria de experimentar os novos dentes comendo alguma coisa? – arrisquei.
- Não sei não. Acho que ainda não consigo mastigar nada. Está pegando aqui na parte de baixo, disse o homem, enquanto tocava os dentes da arcada inferior com os dedos.
- Se não começar... E sanduíche é coisa que não precisa de muito esforço. Muito macio, o senhor sabe disso.
- Deixe ver – pediu Donato.
Ao seu lado corri os olhos em direção ao meu concorrente. Pude ver o seu olhar de fúria, mirando-me. Pensei que ele iria me agredir, mas manteve-se à distância.
- Então? – procurei saber, ao perceber que, com algum esforço, o homem havia transposto aquela barreira.
- Mesmo assim acho que tem alguma coisa errada com estes dentes.
- Será que o dentista não lhe deu os dentes trocados?
- Será?!
- Pode ser. Com tantas dentaduras, como é que ele vai saber com certeza qual é de quem, não é mesmo?
- Vou voltar lá.
- Vou com o senhor – anunciei, sabendo que quando Donato saísse dali eu seria alvo fácil da raiva do negociante ao meu lado. Afinal eu havia vendido para um só cliente três sanduíches.
Me afastei o mais rápido que pude em direção à banca de dentaduras. Para dizer a verdade, me sentia seguro em estar com o caminhoneiro. Enquanto ele esteve por perto, meu concorrente pensaria duas vezes antes de me agredir, pensei. Valeu a pena ter ido ali. Ao dentista vendi um dos pães. Os negócios naquela manhã haviam começado bem: em menos de uma hora já havia vendido parte considerável de do que tinha levado.
Dragão não nos acompanhou, ficou deitado à sombra do caminhão. Enquanto estávamos lá, outros dois clientes chegaram para receber as dentaduras. Outros dois sanduíches foram vendidos a partir da mesma tática usada para com Donato. Dentes novos na boca, sanduíches para serem triturados como teste. Fantástica a minha idéia. Como eu não havia ainda pensado naquilo anteriormente?
Antes das onze horas da manhã tudo que havia trazido fora vendido. Um sucesso sem medida. Eu era mesmo um homem de negócios, concluí.
Mesmo depois de estar com a cesta vazia, não voltei para casa. Gostava de perambular por ali, vendo as mercadorias expostas. Os rádios de pilhas, os relógios reluzentes ao sol do meio dia, as roupas dependuradas em cabides improvisados. Quando teríamos dinheiro suficiente para que eu pudesse comprar um vestido daqueles para minha mãe? Lá adiante, em outra barraca, roupas de meninos. Lembrei-me de meu irmão. Não fui capaz de imaginá-lo em uma roupa daquelas. Sempre o vi nu caminhando pela casa, ou brincando no terreiro. E para que precisava de roupas? Nunca ia mesmo a lugar algum. Mas para minha mãe era diferente. Ela precisava de roupas, de preferência de roupas bonitas, não aqueles vestidos miseráveis que sempre usava. Mas se os negócios continuassem bons como foram naquela manhã, por certo haveria um dia em que eu teria condições de chegar em casa com uma peça nova de roupa.
Aos poucos a feira foi morrendo. Os vendedores de bugigangas, cada um, à sua maneira, ia empacotando o que sobrara das vendas. Os vendedores de frutas encestavam no lombo dos animais o que não fora negociado. E eu, satisfeito com o resultado daquele dia, observava tudo com atenção.
Em menos de uma hora a rua ficou praticamente deserta. Só então lembrei-me de meu amigo Dragão. Procurei por ele onde o havia deixado, mas não o encontrei. Chamei por seu nome, contudo não obtive resposta. Nada, nem um latido, nem um ganido sequer. Teria ele voltado sozinho para casa? Nunca havia feito aquilo. Devia estar em algum lugar esperando por mim. Tornei ao meu ponto de partida e lá o encontrei outra vez deitado, com a cabeça entre as patas dianteira. Estava mesmo doente o meu companheiro de tantas viagens. Tinha os olhos avermelhados e de sua boca escorria um fio de baba. Aproximei-me dele e toquei-lhe a cabeça, mas não houve qualquer reação de sua parte.
Chamei-o para que voltássemos para casa, mas ele não se moveu. Estava entorpecido, imóvel, hirto.
- Vamos lá, amigo – disse-lhe quase ao ouvido.
De sua boca além da baba, apenas uma ganido quase inaudível. Achei que meu amigo de muitos anos estivesse morrendo. Afastei-me dali. Era como se não quisesse presenciar a sua partida. Mas que mal lhe atacara assim tão repentinamente? A contragosto, deixei o local da feira e decidi voltar sozinho para casa. Nada poderia ser feito.
Em menos de uma hora estava em casa. No terreiro encontrei meu irmão brincando com sua coleção de pequenos ossos. Olhou para mim e me dirigiu um sorriso, voltando a brincar distraidamente. Aquele era seu mundo, assim como havia sido o meu no passado. Chamei por mamãe. Nenhuma resposta. A casa estava vazia. Ela, por certo, havia ido à cacimba. Meu padrasto, como sempre, ganhara o mundo cedo em busca de bebida.
Entrei em casa e guardei o dinheiro das vendas em um local onde somente eu e minha mãe conhecíamos. Se ele fosse deixado à vista, iria parar na gaveta de algum boteco nas proximidades. Não tardou e minha mãe retornou trazendo à cabeça um pote de água.
- Como foram as vendas?
- Muito bem.
- Vendeu tudo?
- Tudo. Não sobrou nem um.
- Onde está o dinheiro?
- No lugar de sempre.
Minha mãe entrou no quarto e voltou contando o dinheiro.
- Temos que tomar cuidado, senão aquele infeliz acaba com ele em cachaça.
- Mãe.
- O que foi?
- Por que não se livra dele de uma vez por todas?
- As coisas não são assim tão fáceis quanto você pensa.
- Por que não?
- Sou casada com ele. Não se pode ficar livre de alguém como ele assim de uma hora para outra.
- Estou cansado de ver este homem maltratar a senhora. A senhora não merece.
- Mas não tem jeito para isso.
- Hoje descobri um lugar muito bom para vender.
- E onde é este lugar, meu filho? – indagou minha mãe, passando a mãe sobre minha cabeça.
Contei a ela com detalhes todo o acontecido.
- Gostei de sua esperteza. Sempre achei que você fosse um menino vivo.
- Então.
- Então o quê?
- Posso muito bem cuidar da senhora. Não precisamos da presença deste infeliz. Para dizer a verdade, para que que ele serve?
- As coisas não são assim, meu filho. Você é ainda muito jovem para entender. Não podemos nos livrar das pessoas como nos livramos de algo que já não presta para nada.
- Às vezes fico pensando que seria bom se ele, num desses dias em que bebe muito, caísse em algum buraco e quebrasse o pescoço.
- Vire esta boca para lá, meu filho. Não se pode desejar mal às pessoas. Deus há de lhe castigar.
- Deus deveria é castigar este miserável pelo mal que lhe faz. Onde já se viu alguém que não faz nada na vida e ainda espancar uma mulher como a senhora? Isto é justo? Será que Deus quer uma coisa dessas?
- Tenha paciência. Ele está assim porque não tem trabalho. Acho que os homens são assim mesmo, quando não conseguem o que querem, viram a cabeça – disse minha mãe com lágrimas nos olhos.
- E até quando vai durar este sofrimento?
- Para isto só Deus tem a resposta.
- Deus! Deus!! Deus!!! Onde está este seu Deus que não nos livra deste sofrimento?
- Não fale assim. Ele está aqui, ao nosso lado. Talvez tenha nos dado este suplício, para testar exatamente a nossa capacidade de suportar a dor.
- Estou cansado.
- Ora vejam! Aos treze anos já está cansado. Olhe para mim. Tenho quatro vezes a sua idade, e ainda não estou cansada. Ainda tenho sonhos, meu filho. Quero ver você indo para a escola, aprendendo a ler e a escrever. Você e seu irmão.
Neste ponto nossa conversa foi interrompido pela uivo angustiante de um cão. Vinha de longe, trazido pelo vento quente da tarde.
- Cachorro louco – disse minha mãe de forma enfática.
- Cachorro louco?! – indaguei lembrando-me de Dragão.
- Nesta época do ano é comum.
Já tinha ouvido histórias terríveis sobre cães acometidos por aquela estranha doença. Não há cura. Somente o sacrifício pode tirá-lo daquele inferno. Enfurecidos, desnorteados, atacam impiedosamente tudo que encontram pela frente. E para a quase totalidade de suas vítimas a morte é também o único destino.
Estávamos ali conversando à porta de casa quando vimos passar pela estrada um vizinho.
- Ouviu o uivo do cachorro?
Minha mãe respondeu que sim.
- É o cachorro de dona Esmeraldina – noticiou o homem.
Levei um susto ao ouvir aquilo. Então estava louco o meu amigo, meu único amigo? Tive vontade de chorar, mas me contive.
- Tome cuidado com seus meninos, dona – advertiu o sujeito. – Sabe como são estes bichos.
- Pode deixar – respondeu minha mãe.
Em poucos segundos o homem desapareceu na primeira curva da estrada e lá ficamos nós, calados, pensativos. Eu tentando entender o que de fato estava acontecendo. Seria mesmo Dragão o cão louco que uivava, e seria ele sacrificado como todos os demais cachorros loucos?
- Ouviram o homem – disse minha mãe, chamando-nos para dentro de casa.
Fechadas as portas, recolhemo-nos.
- Fiquem aqui que vou voltar à cacimba para apanhar mais água.
- Vou com a senhora - anunciei de repente, temendo pela segurança de mamãe.
- Acho melhor ficar aqui e tomar conta de seu irmão.
- Ele dentro de casa não precisa de proteção, a senhora sim. Vou junto.
- Então feche bem a porta para que o menino não saia. Nunca se sabe.
Saímos com o sol já esmorecendo no horizonte. De casa até a água eram quase dois quilômetros; cerca de uma hora para ir e voltar.
Meia hora mais tarde, meu padrasto chegou. Como sempre estava embriagado. Não encontrando a esposa em casa, e a porta fechada, não titubeou em botá-la abaixo com um único pontapé. Aquilo era tudo que meu irmãozinho queria para ganhar outra vez o mundo lá fora. E foi exatamente isto que aconteceu.
Lá longe, a caminho da cacimba, de um momento para outro, minha mãe teve um estranho pressentimento:
- Meu filho. Acho melhor você voltar.
- Ora essa! Por quê?
- Não sei ao certo, mas acho que alguma desgraça está para acontecer ao seu irmão.
Que desgraça poderia acontecer a ele?
- Não discuta com sua mãe. Volte! – ordenou ela com a voz dura.
Diante da firmeza de suas palavras, decidi que não deveria desobedecê-la.
A primeira coisa que vi, à distância, quando me aproximava da casa, foi a porta aberta. Senti um calafrio. Acelerei os passos. Não demorou e vi meu irmão sentado no chão, do lado de fora da casa, onde estivera quando regressei da feira. Parei e respirei fundo. Entre eu e ele, não mais que duzentos metros. Continuei a caminhar. Tinha ainda as pernas trêmulas. De repente senti o coração parar: a poucos passos, à minha frente, caminhando de forma determinada, surgiu Dragão. Saiu de uma das margens da estrada e ia na mesma direção que eu. Ia rumo ao local onde se encontrava meu irmão. Lá adiante o menino brincava distraído, alheio ao mundo à sua volta e ao perigo iminente que lhe rondava.
Como um raio, veio à minha mente a idéia que tantas vezes tive de vê-lo morto. Se era aquilo mesmo que queria, bastava aquietar-me e deixar que a natureza fizesse a sua parte. Um simples ataque de Dragão e em poucas horas estaria livre daquele encosto. Parei por alguns instantes e observei o cão avançar obstinado. Certamente já tinha em seu raio de visão o menino. Aquela era talvez sua primeira vítima. Pobre, pequena e miserável vítima.
No fundo, sabe-se lá porque, sentia que nada deveria ser feito. Era aguardar pelo ataque certeiro. Torci, desumanamente para que o cachorro entrasse também em casa. Duas mortes e depois poderia o cachorro ser abatido a pauladas ou a tiros. Quanto rancor em meu coração! Quanta mágoa guardava daquelas duas criaturas! Abaixei os olhos para ver que substância pastosa em pisava. Era a baba de Dragão, que ia sendo espalhada ao longo da estrada. Afastei-me dali e ganhei o mato esperando pelo desfecho trágico. O menino, de costas para a estrada, continuava brincando maquinalmente. Como sempre, estava nu. Um alvo fácil para a ferocidade do animal.
De repente, como que por instinto, um grito cortou a tarde silenciosa.
- Dragão!! – berrei a todos pulmões.
Nem o cão, nem o menino demonstraram ter ouvido o meu sinal de alerta. Outro grito e pus-me a correr em direção à minha casa. Mas o que eu podia fazer para evitar a tragédia que se avizinhava? Que poderia eu contra uma fera enlouquecida? O que tinha em mão era apenas uma pedaço de pau. Outro grito e desta vez surgiu à porta meu padrasto. Estava ainda visivelmente alcoolizado. Aparentemente ficou em dúvida por alguns instantes sobre o que estava se passando.
- O cachorro está louco!! – gritei.
Sem pestanejar, o homem caminhou para o terreiro e pôs-se entre a criança e a cão. Não tinha nada nas mãos. Apenas seu corpo, arqueado, serviria de escudo contra um ataque da fera. Quanta coragem daquele desgraçado! Coragem ou falta total de consciência pelo efeito da bebida? Não importava naquele momento. O certo é que ele estava disposto a morrer para salvar a vida de meu irmão.
Com dificuldade, gritou para que eu entrasse em casa e pegasse a espingarda que estava dependurada atrás da porta. Não pensei duas vezes e dei a volta pelos fundos para trazer o que fora solicitado. Estava já no interior da casa quando ouvi seu primeiro grito. Conclui que havia sido atacado pelo cachorro. Corri para fora. Quando cheguei, dei-me com a mais grotesca cena até então vista em minha vida: no chão, rolando na poeira, estavam as duas criaturas. Literalmente duas feras enraivecidas. Meu irmão, sem entender o que de fato se passava, observava, atônito, encostado á parede da casa.
- Atire no cachorro!! – pediu meu padrasto enquanto tentava desvencilhar-se de seus dentes afiados.
Mas não havia como fazer aquilo. Não poderia arriscar a deflagrar o tiro e acertar naquele homem.
- Atire!! – voltou a pedir.
- Não posso!!
- Atire ou ele vai matar todo mundo aqui.
Não tinha como não obedecer suas ordens.
Por uma força desumana, de repente, o cachorro foi arremessado contra a parede, próximo ao lugar onde estava o menino. Felizmente seu alvo naquele momento era seu opositor máximo. Mal caiu ao chão, tornou ao ataque. Vinha de volta com os dentes à mostra, babando.
- Atire!! – gritou desta vez minha mãe que chegava correndo.
Um estampido surdo espalhou-se pela caatinga. Imediatamente um cheiro de pólvora queimada tomou conta de tudo. Ainda pude ver a fera sendo atirada à distância pelo impacto do tiro. Um último ganido foi escutado e desabou morto o meu amigo Dragão. Juntos, pela primeira vez abraçados uns aos outros, assistimos aos últimos suspiros de cachorro.
Devido ao som do disparo, alguns vizinhos se aproximaram. Vinham correndo. Entre eles dona Esmeraldina, a dona da fera abatida por mim.
- Como o senhor está ? – procurou saber ela ao ver meu padrasto sangrando devido aos arranhões provocados pelos dentes do Dragão.
- Não é nada sério. Nem dor estou sentindo – informou o homem.
Dez minutos mais tarde o homem que salvara a vida de meu pequeno irmão estava sendo conduzido para a cidade para ser medicado. Sete dias mais tarde ele estava me acompanhado à feira para auxiliar-me na venda dos sanduíches.

Valente, 13 de agosto de 1966

1 Comentário

  1. Apreciei muito seu conto professor Gilberto. Um conto cheio de sensibilidade e de percepção da existência. Parece que este cotidiano da feira se transmuta no tempo e no espaço e se torna coisa nossa ou da própria vida. O conto nos faz voltar à nossa infância, à sua problemática e, é claro à sua beleza.

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