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Um homem enigmático
3 de junho de 2016
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Dragão
3 de junho de 2016
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Diamantes

diamantes
A primeira coisa que o novo chefe indagou de Alfredo foi se era mesmo aquilo que ele queria. O rapaz não estranhou o questionamento do patrão, uma vez que ele próprio já havia lhe feito a mesma pergunta diversas vezes. Mas agora estava decidido, não havia como voltar atrás. Os três anos que passou na escola de medicina deviam ser esquecidos. Não fazia mais sentido ficar se martirizando por aquilo. Fora uma decisão difícil, mas apostava que sua verdadeira felicidade estaria naquela sua nova ocupação.
Árdua fora a missão de encarar a mãe e confirmar suas pretensões para o futuro. A notícia havia mandado por carta. Em resposta, depois de mais de vinte dias, dona Ana lastimou a decisão tomada pelo filho, mas acabou desejando-lhe felicidades e pedindo a Deus que o iluminasse pelos novos caminhos que a partir de então ele seguiria. Um médico na família era tudo de que ele queria. Exemplo o tinham de Afrânio Peixoto, uma médico de renome nacional, nascido e criado em Lençóis como o filho dela. Mas pelo visto estava conformada. Só mesmo uma mãe extremosa como aquela para deixar ir por terra um sonho antigo sem muita falação.
Já eram quase dez horas da noite e Alfredo ainda não havia separado toda a mercadoria que deveria levar em sua primeira viagem ao interior do estado. Sobre o gigantesco balcão de madeira, estavam separados em pequenos fardos, os tecidos, os utensílios domésticos, as garrafas de vinho e uma quantidade considerável de outras mercadorias.
- Meu rapaz, espero que faça boas vendas. Se percebermos que as coisas caminham como estamos prevendo, vamos abrir uma filial da R. Melo e Prado em Lençóis. Ainda é uma cidade que merece atenção.
- Se depender de trabalho, seu Melo, isto não tardará.
- Gosto de ver gente animada como o senhor. A maioria dos jovens de sua idade hoje em dia não está muito preocupada com o trabalho. Só pensam em diversão.
- Também gosto de uma boa música e de festas; isto eu não vou negar.
- Já vendi muita coisa aí pelo sertão. Atender aqui no balcão como o senhor tem feito é uma coisa, mas vender aí pelos matos é outra bem diferente. Se prepare que não é uma vida fácil... Mas tem suas compensações – adicionou o dono da empresa ao jovem vendedor.
- Em trinta, quarenta dias estarei de volta.
- Gostaria, se não se incomoda, que desse uma olhadinha no relógio de parede outra vez. Está de novo parado.
- E o relojoeiro?
- Não confio mais nele. Da outra vez o senhor fez um trabalho muito bom.
- E não lhe custou nada – brincou o empregado com o patrão.
- Já falamos sobre isto.
- Deixe aí em cima do balcão que eu vejo logo depois que terminar isto aqui.
- Mas se for coisa séria, não perca tempo. Precisa dormir. Vai sair amanhã bem cedo, não vai? Eu mesmo já vou indo.
Já era quase meia noite quando Alfredo fechou a loja e seguiu para casa. Dali, da Cidade Baixa, até o bairro de Santo Antônio onde residia eram menos de dez minutos. Quando o rapaz chegou à porta da casa, voltou-se para a Baía de Todos os Santos como se quisesse dela se despedir. Lá embaixo era tudo calmo àquela hora da noite. Aqui e acolá as luzes de um navio ou outro era tudo que podia ser visto devido à escuridão. Sabia que tudo aquilo lhe faria uma falta tremenda, mas estava decidido, aquela era sua última noite na cidade de Salvador. Que Deus, como lhe dissera a mãe, lhe iluminasse os caminhos.

A chegada de Alfredo Maia de Menezes à sua cidade natal não causou estranheza àquela gente. Dona Ana já havia se incumbido de anunciar sua ida e em quais circunstâncias. Ao contrário, para sua casa correu uma quantidade razoável de possíveis clientes, curiosos pelas novidades vindas da capital. Ali fez suas primeiras vendas. Um bom princípio, mas o rapaz tinha em mente outro local para seus negócios. Sua meta era a região do garimpo de diamantes. E era para lá que seguiria no dia seguinte, conforme havia previsto.
A manhã do dia vinte e seis de outubro de mil novecentos e cinqüenta e sete amanheceu chuvosa. Impossível seguir caminho com um temporal daqueles. O jeito era esperar que o tempo melhorasse. Não queria correr riscos logo em sua primeira ida à região do garimpo. Já eram quase duas horas da tarde quando a chuva deu uma trégua. Mesmo sendo aconselhado pela mãe a só sair no dia seguinte, Alfredo calculou que haveria tempo suficiente para chegar onde queria ainda naquela tarde.
Pouco depois o rapaz estava na estrada. Apesar desta não oferecer qualquer conforto ao viajante, a viagem seguia melhor que o previsto. Os obstáculos do caminho eram facilmente transpostos pelo veículo que dirigia, uma caminhonete ford de propriedade da firma. O carro ia sacolejando, mas avançando sempre. Seu destino estava traçado. A primeira parada seria no povoado de Baixio. Ali estivera certa vez em companhia do pai, quando ainda era menino. O arraial surgira em função dos diamantes nos áureos tempos da mineração. Foram-se quase todas as pedras preciosas, mas as pessoas, muitas delas sem ter para onde ir, ali permaneceram. Iam vivendo como Deus queria, sempre na esperança, aquela esperança que move todos os garimpeiros do mundo: a de encontrar de uma hora para outra, sob a lama à beira dos riachos, uma pedra com a qual mudaria por completo suas vidas.
E não era raro que isto acontecesse mesmo naqueles dias de pouca fartura de pedras. Sem menos esperar brotava da terra a riqueza e a vida de muita gente virava de ponta-cabeça.
Alfredo seguia distraído. Ia fazendo contas, calculando lucros quando foi colhido por uma chuva forte que o fez parar à beira do caminho. Seguir debaixo de um temporal daqueles era irresponsabilidade. Risco que não queria nem precisava correr. Devia ter aceitado os conselhos da mãe, pensou. Como trafegava por um caminho praticamente desconhecido, estava receoso de que sua teimosia pudesse lhe custar caro. Precisava encontrar um local seguro para parar. Talvez uma casa à beira da estrada. As notícias de assaltos naquela região eram freqüentes e aquilo o intranqüilizava sobremaneira.
No entanto qualquer sinal de moradia estava demorando muito. Não levaria muito tempo para que a noite chegasse. A viagem que em sua previsão demoraria não mais que duas horas estava se prolongando muito mais que isto.
Com dificuldade o veículo seguia adiante. Mas o rapaz estava certo de que mais cedo ou mais tarde precisaria parar. Lá fora o mundo escurecia com uma velocidade vertiginosa. Era o céu coberto por nuvens escuras, associado à proximidade da noite.
De repente uma verdadeira cratera, coberta pela água da chuva fez com que o veículo parasse por completo. Tentou escapar daquele obstáculo, mas depois de alguns minutos de tentativa, concluiu que estava definitivamente preso pelo menos até o dia seguinte. Passar a noite na boléia do carro não estava em seus planos. Mentalmente amaldiçoou sua teimosia. Desligou o motor, encostou-se no banco, aquietou-se. Curiosamente aos poucos as nuvens, que quase anoiteceram aquele mundo, começaram a se espalhar. Consultou o relógio de bolso: quinze para as quatro. Muito cedo ainda. Havia pelo menos duas horas antes da escuridão de fato.
Ao ver que a chuva se afastara de vez, tentou mover o veículo, mas novamente não obteve sucesso. Nem o motor entrava em funcionamento. Deduziu logo que ele havia sofrido alguns danos em virtude da água em que ficou parcialmente mergulhado ao cair no buraco. Nada poderia ser feito, não naquele momento. Aquilo era serviço para quem entendia do assunto. Começara mal a sua vida de comerciante, concluiu com certa tristeza.
Com cuidado desceu do carro e tentou mensurar as dificuldades. A situação estava mais complicada que de verdade havia imaginado. Retirar a caminhonete dali ia requerer, no mínimo uma parelha de bois, coisa que somente conseguiria se encontrasse alguma casa por perto. Tornou a entrar no carro. Estava certo de que ali passaria a noite. Na manhã seguinte tomaria as devidas providências. Nada poderia ser mesmo feito naquele momento. Aos poucos o céu foi dando espaço aos últimos vestígios do sol. Alfredo consultou outra vez o relógio: cinco e meia. Ainda havia tempo e luminosidade suficiente para procurar ajuda. Estava se preparando para deixar outra vez o veículo quando percebeu, pelo retrovisor, a aproximação de um cavaleiro.
Imediatamente saiu do carro e aguardou a chegada do homem.
- Estou vendo que o senhor está com um problema – disse o sujeito ao apear do cavalo.
- Não tive como evitar. Quando vi a caminhonete já estava dentro do buraco.
- Estas estradas nesta época do ano ficam assim mesmo. Se o senhor veio de Lençóis, acho até que andou bastante.
- É, mas pelo visto este é o fim da estrada, pelo menos por enquanto.
- Hoje não tem jeito de fazer mais nada. Se quiser pouso, vamos lá para casa, amanhã arrumamos um jeito de retirar o carro daí – disse o homem em tom cortês.
- É que tenho aqui no carro umas mercadorias...
- Quanto a isto fique sossegado. Com este temporal que está vindo aí outra vez, por aqui não vai passar ninguém, não até amanhã cedo. Vamos ter chuva durante a noite toda. Amanhã cedo viremos aqui e damos um jeito na coisa.
Em poucos minutos os dois homens cavalgavam em direção à casa do sertanejo. Alfredo ia na garupa do cavalo.
- O senhor não é o filho de dona Ana...
- Sou.
- Você não se lembra de mim, mas fui muito amigo de seu pai. Meu nome é Júlio Damasceno. Garimpamos juntos por este mundo de meu Deus durante mais de vinte anos. Naquela época achar diamantes era muito fácil, mas hoje em dia...
- Mas ouvi dizer que ainda tem muita gente encontrando de vez em quando alguma coisa.
- Tem, mas é muito mais difícil. Agora só com muita sorte. Estou enganado, ou ouvi dizer que o senhor estava estudando para ser médico?
- E estava mesmo. Mas deixei a escola e virei vendedor.
- Vendedor? Para lhe dizer a verdade estamos precisando por aqui muito mais de doutores que de vendedores.
- Este negócio de estudar para uma coisa ou outra é tudo coisa de vocação. Se você não tem, não adianta. Tenho certeza de que não seria um bom médico. Então...
- E o que o senhor vende?
- Muita coisa. Estava indo para um lugarejo aí adiante fazer umas vendas.
- Por aqui de vez em quando aprecem uns vendedores. Mas para dizer a verdade prefiro comprar as coisas na cidade. Tem mais variedade.
- Está dizendo isto porque ainda não viu ainda o que trago na caminhonete.
- Pois gostaria de ver. Estou aí para receber um dinheirinho. Se confiar, lhe pago quando voltar.
- E por que não confiaria? Escolha o que quiser. O dinheiro não é problema. Me paga quando puder.
Aquela noite realmente foi, como havia sido previsto pelo anfitrião, de chuva torrencial. Somente pela manhãzinha o tempo mudou. Apesar do mau tempo Alfredo teve uma noite tranqüila. Dormiu a maior parte do tempo, só vindo a acordar já com dia claro.
Ao sair da cama, olhou pela janela e lá fora uma junta de bois estava pronta para a tarefa de rebocar seu veículo. Era o suficiente para resolver o problema, tanto que duas horas mais tarde já estavam em casa.
- Acha que consegue consertar? – indagou Damasceno observando de perto o trabalho do rapaz enquanto este tentava colocar o motor em funcionamento.
- Acho que não. Vou precisar de um mecânico e isto só se consegue em Lençóis, não é mesmo?
- Não sei não. Tenho um vizinho aqui que é entendido destas coisas. Vou pedir um menino para ir lá falar com ele. Enquanto isto o senhor vai mostrando o que tem aí.
Não demorou e a mesa da sala da pequena casa estava repleta de tecidos, perfumes e toda uma sorte de artigos femininos.
- Pelo visto o senhor só tem coisa para mulher – observou Júlio.
- Não. Mas este é um truque que nós vendedores usamos. Primeiro mostramos as mercadorias destinadas às mulheres. Depois as ferramentas, as botinas...
- Onde está a Mariazinha? – procurou saber o dono da casa sobre o paradeiro da filha. – Vá chamar a menina que aqui tem umas coisas que ela vai gostar.
Não demorou e surgiu na sala uma menina de cerca de dezesseis anos, magra, de cabelos negros e presos à nuca por uma fita cor-de-rosa. Envergonhada a garota não olhou sequer para o visitante. Dirigiu-se logo à mesa onde se encontrava a mãe e a empregada.
- Cumprimente o rapaz, minha filha – pediu o pai.
Ouviu-se neste instante um quase inaudível bom dia. Imediatamente os olhos de Maria deslizaram por sobre os tecidos coloridos. Alfredo pôde então perceber que o rosto da menina se iluminou de repente. E aos poucos um sorriso encantador foi exibido. Maria estava fascinada com o que havia diante dela. Com delicadeza correu as mãos alvas por sobre algumas fazendas e pôde sentir a maciez da seda, a textura ímpar do linho...
- É tudo tão lindo, mamãe!!
- Conversei aqui com o nosso amigo e disse que compraria alguma coisa se pudesse pagar daqui a alguns dias.
- Escolha o que quiser, senhorita – disse o vendedor se aproximando, animado que estava com a reação do mocinha. – Já está tudo acertado. Recebo quando for possível.
- O senhor é quem fabrica? – questionou a menina, se dirigindo a Alfredo.
- Oh, não, minha cara. Sou apenas um simples vendedor. Quisera eu ter sabedoria suficiente para fazer algo tão maravilhoso. Acho que estes tecidos vêm de São Paulo. Alguns acho que são trazidos até da China.
- Onde fica a China, papai?
- Não sei ao certo, mas ouvi dizer que fica do outro lado do mundo.
- Do outro lado do mundo?! Tão longe assim?
Todos riram não só da pergunta feita pela menina, mas principalmente da maneira como a mesma fora entonada.
- Para uma pessoa tão bela quanto a senhorita, que viesse até de mais distante – disse de repente o vendedor. – Estou impressionado com sua beleza, senhorita.
Neste instante houve silêncio seguido de um ligeiro mal-estar entre os presentes. Imediatamente o rapaz compreendeu o que se passava e procurou se desculpar. Maria era apenas uma menina e aquele tipo de comentário não fora de fato apropriado.
Passados alguns instantes, o dano da casa tomou a palavra:
- Então vamos aos negócios que o rapaz que vai consertar o seu carro, o Tonho, já chegou.
Por volta do meio dia Alfredo deixou a casa de Júlio Damasceno com destino à região do garimpo. Antes de partir, no entanto, procurou com os olhos ansiosos a figura de Mariazinha. Lá estava ela na janela do quarto, junto à porta da sala. Com apenas um sorriso despediu-se da garota. Aquela última imagem da meninazinha ficaria gravada para a eternidade em sua mente como se fosse uma fotografia.
Menos de uma semana depois voltariam a se encontrar, mas em uma situação completamente diferente. Precisos cinco dias mais tarde começariam a viver uma das mais dramáticas situações pela qual o ser humano pode passar.

Alfredo atingiu o seu destino por volta das quatro da tarde. Estava exatamente um dia atrasado. A princípio sua chegada foi vista com certa desconfiança, mas logo depois que souberam de quem se tratava abriram-se as portas para os negócios. Imediatamente uma tenda foi armada para que as mercadorias fossem expostas.
- Então esteve na casa de seu Júlio? – indagou um dos garimpeiros.
- Passei a noite lá – confirmou o rapaz.
- E fez algum negócio com ele?
- Vendi umas coisinhas.
- Umas coisinhas?! – estranhou o interlocutor de Alfredo.
- Não comprou mais porque disse que estava sem dinheiro. Fiquei de voltar outra hora para receber.
- Sem dinheiro o seu Júlio?!
- Pelo menos foi o que me disse.
- Então não está sabendo de nada?
- E de que eu deveria estar sabendo?
- Aquele homem está rico.
- Rico??!!
- Ninguém comentou com o senhor sobre os diamantes que ele encontrou?
- Ouvi falar, mas achei que fosse boato.
- Boato?!
- São três diamantes. Tenho um amigo que viu as pedras. Ele me disse que o menorzinho é do tamanho de um umbu.
- Isto deve ser conversa. Se ele tivesse com essa dinheirama toda, teria comprado mais coisas. Isto é, eu acho.
- Não é conversa não, meu amigo.
- Então é por isso que ele disse que vai receber um dinheiro dentro de poucos dias. Talvez venha alguém de fora para comprar as pedras.
- Deve ser gente da capital. Por aqui ninguém tem tanto dinheiro.
- E onde estão estas pedras tão preciosas?
- Aí é que está o mistério, meu amigo. Que elas existem, ninguém tem dúvidas. O problema é saber onde elas estão. Aquele velho não é bobo. Deve ter guardado a fortuna em lugar bastante seguro. Dentro de casa é que não deve ser – completou o garimpeiro com uma ponta de inveja. – Se fossem minhas, também estaria preocupado com elas. Esta pedra, o diamante, é símbolo de riqueza, mas pode ser também de muita desgraça, meu amigo. Quem tem pedras deste tipo, não dorme tranqüilo enquanto não as passa adiante.
- Ele é que está certo. Ouvi dizer que tem havido até assaltos por aí.
- Aqui dormimos com um olho aberto e outro fechado.
O resto da tarde transcorreu sem maiores novidades. Muitos garimpeiros estavam acampados nas margens de alguns riachos e só voltariam no final de semana. Era preciso aguardar se quisesse aproveitar melhor a viagem.
Diante da possibilidade de futuros negócios somente dali a alguns dias, Alfredo resolveu seguir adiante até um outro povoado, distante dali apenas vinte quilômetros.
Não teve dificuldades para chegar até lá. Naquela localidade, permaneceu por três dias e fez mesmo bons negócios. No entanto, ao retornar resolveu tomar um atalho que lhe fora indicado por alguns dos moradores do local. A idéia era bem vinda, pois aquilo lhe economizaria algumas horas de viagem. Deixou o povoado ao romper do dia e outra vez ganhou o mundo.
Se a estrada que o levara até o garimpo já lhe trouxera problemas, aquela pela qual trafegava mostrou-se logo em estado de conservação muito pior. Em alguns trechos tinha dificuldade inclusive para manter o carro em seu leito, tamanha era a quantidade de buracos cavados pela enxurrada ao longo dos tempos. Em alguns lugares o mato era outro empecilho quase intransponível. Devido à quase total ausência de veículos por aquelas paragens, a natureza foi tomando conta de tudo, investindo de forma totalmente desordenada em todas as direções.
Não demorou e o carro precisou ser parado. Era impossível seguir adiante. Quem lhe falara daquele caminho, por certo por ali não havia passado há anos.
Apesar do velocímetro da caminhonete estar quebrado, calculou que não tinha avançado mais que uns quinze quilômetros, apesar de já estar na estrada há várias horas. De repente foi tomado por uma estranha sensação de que se continuasse por aquele caminho algo grave haveria de lhe acontecer.
Era preciso parar e tomar uma decisão. Estacionou o carro à beira da estrada e desligou o motor. O calor àquela hora do dia era quase insuportável. Enxugou com a barra da camisa o suor que lhe corria pelo rosto. Pensou nas horas. Mas não foi preciso consultar o relógio, pois a posição do sol indicava que não passava do meio dia. Era preciso beber, pois a sede já o importunava há algum tempo. Dirigiu-se à carroceria do veículo onde guardava um pequeno barril de madeira com água. Grande foi sua decepção quando percebeu que ele não estava ali. Que diabos havia acontecido?! Esquecera no acampamento dos garimpeiros ou fora simplesmente roubado? Não importava. Estava com sede e era necessário resolver aquele problema.
O que não começara bem, não poderia terminar de forma alguma de outra forma, concluiu. O pai costumava dizer que uma desgraça nunca vinha sozinha.
De onde estava era impossível visualizar qualquer promessa de água no meio da mata. Por ali certamente haveria algum córrego, mas em qual direção? Uma tomada de decisão impensada ou mal calculada poderia custar caro. Que a sede esperasse um pouco mais. Mais seguro seria voltar. Lembrou-se então de ter cruzado um riacho alguns quilômetros atrás. O mais lógico era voltar até lá.
Entrou outra vez no carro e deu a partida. O motor roncou, engasgou, mas não deu sinal de vitalidade. Seria ainda efeito do acidente sofrido quando acabou dentro de uma poça de água? Amaldiçoou mentalmente o mecânico que lhe prestara o serviço. Tentou outra vez e tantas outras que depois de alguns minutos a bateria havia perdido quase toda a carga. Era preciso poupar energia. Estava em maus lençóis! Com sede e sem nenhuma chance de sair dali sem ajuda.
Diante daquela situação não havia outro jeito a não ser ir em busca de água. Foi ao veículo e de lá retirou uma pequena lata onde a mãe havia acondicionado alguns biscoitos para a viagem. Alguma água extra deveria ser colhida para possíveis futuras necessidades.
Não pensou duas vezes qual direção deveria ser tomada. Deixou a estrada e enveredou pelo mato. Caminhava sem muita dificuldade, pois ali a mata era rala. Avançou por cerca de vinte minutos e não teve sequer um sinal do que buscava. As coisas estavam realmente tomando um rumo inesperado. A sede não dava trégua e, pelo visto, a água se distanciava cada vez mais. Pensou em voltar, mas aquela, sem dúvida, poderia ser uma decisão que lhe custaria muito caro. O negócio era continuar adiante mata adentro. A qualquer momento poderia surgir um curso d`água e tudo estaria resolvido. Tudo?! Pelo menos o problema daquele momento. O carro era outra coisa, e poderia esperar o tempo que fosse preciso. Lembrou-se da mercadoria que trazia. Inferno! Que roubassem tudo! O importante naquele momento era salvar a própria vida.
Aos poucos foi diminuindo a velocidade dos passos, pois começou a sentir o cansaço chegar de forma impiedosa. Santo Deus do céu! Estava em plena Chapada Diamantina e quase morrendo de sede! Se estivesse lá para os lados de Juazeiro, tudo bem, mas ali não encontrar água era uma triste ironia do destino.
De repente ouviu vozes. Parou e aguçou os ouvidos. Caçadores ou garimpeiros por perto. Se estava ouvindo alguém, era indicação de que estava salvo. Pensou em correr em direção ao local de onde vinha o som das vozes, contudo resolveu acautelar-se. Não soube por que, mas de repente uma idéia absurda lhe veio à cabeça: e se fosse um daqueles grupos de assaltantes que andavam pela região aterrorizando os garimpeiros? Até poderia ser verdade, no entanto a sede o impelia para frente. Era preciso, antes de qualquer precaução, encontrar água.
Devagar, procurou se aproximar das pessoas. Não teve dificuldades em vê-las, mas manteve-se ainda escondido por detrás de algumas árvores. Era um grupo de quatro homens e estavam em um pequeno acampamento composto de duas barracas construídas de forma rústica com material extraído da própria mata. Três deles eram jovens, um provavelmente com não mais de dezoito anos. Apenas um era mais velho, um senhor de cerca de cinqüenta anos, grisalho e de compleição forte.
Conversavam animadamente. De onde se encontrava, todavia, era impossível compreender o que falavam. Não teve dúvidas, depois de alguns minutos, de que se tratava de caçadores, pois não havia qualquer ferramenta ou utensílio utilizado em mineração. Além disso, encostadas em uma das árvores que circundavam o acampamento, havia duas espingardas. Uma logo de imediato Alfredo identificou como sendo um rifle.
De repente um dos jovens pôs-se de pé e em sua cintura apareceu um revólver, provavelmente um trinta e oito com cano longo. Seja lá o que estivessem fazendo ou caçando, o certo é que estavam deveras bem armados.
Não havia por que continuar ali. Era preciso encontrar o que viera buscar. Pediria água e logo se retiraria dali. Não interessava quem eram aquelas pessoas nem o que estavam fazendo ou pretendendo fazer.
Anunciou a sua presença com um sonoro boa tarde.
Impressionou-se com a reação de todo o grupo. Com armas em punho, os quatro homens puseram-se diante dele como se estivessem ameaçados por algo contra o qual deveriam agir de forma imediata.
- Calma, amigos! Só estou procurando um pouco de água. Estou em viagem e meu carro apresentou um problema. Saí a esmo. Não conheço nada por aqui. Acho que acabei me perdendo. Gostaria que me fizessem esta gentileza.
- Gentileza?! – indagou o mais velho do grupo, desconfiado.
- É. Me arranjar um pouco de água. Estou deste cedo sem beber.
- Vá pegar água aqui para o moço! – ordenou a um dos rapazes aquele que aparentemente liderava o grupo.
Em poucos segundos Alfredo estava bebendo. Bendita água!
- Quem o senhor disse que era? – procurou saber um dos jovens.
- Meu nome é Alfredo Maia e sou caixeiro viajante.
- Mascate?
- Isto mesmo. Meu carro enguiçou e...
- Não tinha água?
- É.
- Onde já se viu um mascate que anda aí pelos sertões não levar água, pai? Ele está mentindo.
Inesperadamente o rapaz que fez aquele comentário foi atingido por uma coronhada no rosto, o que fez com que ele desabasse no chão.
- Quantas vezes já lhe disse para não se dirigir a mim desta maneira, imbecil?!
Atordoado, o garoto pôs-se de pé.
O vendedor estava atônito diante do que presenciara. Jamais havia assistido a uma agressão daquela natureza. Eram pai e filho? O que o velho queria dizer com se dirigir a ele daquela maneira? Chamá-lo de pai? Identificarem-se como parentes? Tudo levava a crer que era mesmo aquilo.
- Olha, amigos, se me permitem, eu já vou indo – disse Alfredo. – Só queria mesmo um pouco de água.
- Sente-se! – disse calmamente o autor da agressão contra o rapaz.
- O quê?!
- É isto mesmo que você ouviu. Sente-se! O senhor não vai a lugar algum!
- Afinal o que está acontecendo aqui? Como lhe disse só vim buscar água. Estava quase morrendo de sede. Se não tivesse encontrado vocês, teria seguido adiante até encontrar um córrego qualquer.
- Sente-se, droga!! – voltou a dizer o chefe do grupo, desta vez aos gritos.
- Meu Deus!! Deixem-me voltar. Prometo que não direi nada a ninguém sobre vocês.
- E o que poderia dizer? Que encontrou um grupo de caçadores entocados na mata?
- Então?
Não houve tempo para nenhum comentário por parte do velho. De uma das barracas veio um gemido fino. Ali dentro havia outra pessoa.
- Vá lá e faça aquela infeliz ficar calada! Diga a ela que se não calar a boca, vou lá e meto uma bala na cabeça dela.
Imediatamente o vendedor concluiu que chegara no lugar e na hora errada.
- Não vai ser preciso muita conversa para que o senhor entenda o que está acontecendo por aqui, vai? Se já era complicado deixar o senhor ir embora há alguns minutos, agora é praticamente impossível.
- A garota está passando mal. Está quente como se estivesse no fogo – anunciou o encarregado de fazer a pessoa que estava dentro da barraca ficar calada.
- Merda!! Só faltava esta agora! – disse o mais velho dos componentes do bando.
- Ela está mesmo passando mal. Vamos precisar resolver isto o mais rápido possível, caso contrário pode acabar muito mal. Se a garota morrer...
- Cale a boca, infeliz!! – gritou um outro rapaz.
- Posso ver a pessoa que está doente? – arriscou Alfredo.
- E por que eu deixaria que o senhor fosse lá dentro?
- Sou médico.
- Médico?! Há menos de dez minutos era vendedor ambulante, agora já é médico. Daqui a pouco será delegado de polícia e aí vamos ter que matar o senhor.
- Na verdade não sou médico formado, mas estudei medicina alguns anos em Salvador. Entendo um pouco destas coisas. Ela deve estar com febre. Pode ser coisa simples, mas também pode ser algo que leve a pessoa à morte em algumas horas.
- Está dizendo a verdade? – procurou saber um outro membro do grupo, mostrando-se desconfiado com aquela história toda.
- Podem confiar em mim.
Sob a mira de um rifle o rapaz foi conduzido ao interior da cabana. A um canto, sobre um amontoado de folha de coqueiro, estava uma menina. Imediatamente Alfredo a reconheceu: era Mariazinha, a filha de Júlio Damasceno. A garota estava, visivelmente, abatida. Tinha o semblante cansado, mas ainda assim, mantinha os vestígios de sua beleza singular.
Devido a pouca luminosidade do local e ao efeito da febre provavelmente Maria não reconheceu a pessoa que estava junto dela.
Com as mãos trêmulas, o ex-estudante de medicina tateou o pescoço da garota. Não teve nenhuma dúvida quando ao diagnóstico: maleita.
- A menina está com maleita.Se não for tratada, pode acabar morrendo – sentenciou o rapaz ao deixar a cabana.
Instantaneamente houve um silêncio aterrador entre todos os presentes. Por aquela o bando não esperava. Seqüestrar alguém e esta pessoa vir a morrer. Era muita falta de sorte. Tudo a princípio parecia tão simples: esconderiam Maria e a devolveriam ao pai quando este enviasse os três diamantes. Nada era para dar errado. Mas algo estava começando a mostrar que não seria tão simples assim. Se a menina morresse, todo o plano iria por água abaixo e ainda seriam cassados como assassinos. Crime de roubo, ou seqüestro era uma coisa, mas se no meio de tudo acontecesse uma morte, a situação poderia ficar mesmo feia.
- Tenho em meu carro quinina. É um remédio para este tipo de doença – anunciou Alfredo.
- Você está blefando. Não tem remédio coisa nenhuma. Quer que nós o deixemos ir. Vai, chama a polícia e aí pronto – disse o velho.
Sentindo que a situação, pelo menos naquele momento estava a seu favor, o rapaz disse:
- Se deixarem a menina como está, ela vai acabar morrendo. Se não acredita em mim, mande um ou dois destes rapazes comigo. Garanto que voltarei com o remédio. Não vou fugir e deixar uma pessoa morrendo à míngua. E é isto que vai acontecer se não for tratada a tempo. Ela pode até apresentar alguma melhora, mas esta doença é estranha. A febre vai e volta com certa freqüência até acabar de vez com vida da pessoa.
A partir de um simples aceno do líder, o grupo se reuniu a um canto. Ali cochicharam por alguns segundo, voltando em seguida com uma decisão tomada.
- Caso você tente alguma coisa, os meninos aqui têm ordem de matá-lo, está ouvindo?
- Fique tranqüilo. Estarei de volta o mais rápido possível.
E foi o que se confirmou menos de uma hora mais tarde.
- Me dêem água para dissolver o remédio – pediu Alfredo.
Acompanhado de um dos rapazes do bando o vendedor entrou outra vez na cabana. Maria estava deitada de lado, com o rosto metido por entre as folhas que lhe serviam de cama.
- Tome isto, minha querida – pediu. – É um remédio para baixar a febre. Vai ficar boa logo.
- Senhor Alfredo??!! – exclamou a menina ao reconhecer o vendedor. – O senhor também faz parte desta coisa toda?
Instintivamente sua boca foi tampada pelas mãos do rapaz.
- Não diga nada. Apenas beba o remédio e vai ficar boa logo logo.
Quando Alfredo se voltou para observar o bandido que o estava acompanhando, percebeu que ele não estava mais lá.
- Não faça nada por enquanto. Vim parar aqui por acaso. Sinto muito por tudo que está passando, mas francamente não sei como ajudá-la. Acho que minha vida neste momento está mais em perigo que a sua.
- Disseram que se papai não der a eles os diamantes, vão me matar. Estou com tanto medo, senhor Alfredo!
- Vou tentar ganhar tempo. Mas lhe digo uma coisa, farei o que for possível para levá-la daqui sem qualquer risco. Agora preciso sair, caso contrário eles vão desconfiar de alguma coisa – disse o vendedor ao se afastar.
- Então conhece a moça, senhor...
- Alfredo. Meu nome é Alfredo.
- Me chame de Zé. Os outros não interessam os nomes, pois é comigo que o senhor vai se entender a partir de agora.
- Me perguntou se conheço a moça. Conheço de vista. Estive em sua casa há alguns dias. Vendi algumas coisas para o pai dela.
- Meu caro, acho então que o senhor é a pessoa certa para um servicinho.
- Não estou entendendo aonde o senhor quer chegar.
- É simples. O senhor é quem vai à casa do tal Júlio buscar os diamantes. Viu a menina e pelo visto entende mesmo das coisas. Pode dizer a ele que se não fizer o que estamos mandando, a filha dele vai morrer de malária. Nem vamos precisar matar a moça, não é mesmo? Vamos tirá-la daqui e deixar a pobrezinha aí pelos matos. É morte certa, não é?
Alfredo engoliu em seco. Por aquela não esperava. Estava certo de que quando chegasse à casa de Damasceno e lhe contasse a história, acabaria preso acusado de cumplicidade naquela trama sórdida.
- Não há saída, meu caro. E lhe digo mais: se não voltar com o que queremos, pode ter certeza de que vamos atrás do senhor. E não vai demorar para que o encontremos. Aí vai se arrepender de ter deixado a escola de doutor para virar vendedor de bugigangas.
- Quando devo ir? – procurou saber o rapaz, certo de que não havia nenhuma saída à frente que o livrasse daquela maldita tarefa.
- Amanhã cedo. Como o senhor não vai poder usar o carro deve caminhar ligeiro. Como são mais de vinte quilômetros, calculo que deve levar em torno de quatro horas para ir e quatro para voltar.
- E como acha que vão acreditar na história que vou lhes contar? Podem achar que é tudo besteira ou que eu estou envolvido nesta trama toda.
- Quanto acreditarem que o senhor está envolvido no seqüestro da filha deles, isto é um problema seu, não nosso. Agora, para saberem que o senhor está falando a verdade, vai levar alguma coisa que pertence à menina. Uma roupa ou talvez um punhado de cabelo.
- Tudo isto é loucura!
- Loucura ou não, isto não importa. O que importa é que o senhor fará o que queremos. E para começar a compreender a seriedade da situação, vamos deixá-lo aqui fora, amarrado a uma destas árvores. A única coisa com a qual precisa se preocupar é com as formigas. Não sei porque, mas nestes dias de chuva elas ficam alvoroçadas que é o diabo.
Alfredo viu a escuridão sombria descer sobre a floresta. Aquela foi, sem dúvida alguma, a mais longa das noites de sua vida. Já alta madrugada, ainda sem conseguir conciliar o sono, acompanhou a chegada de mais uma chuva. Esta veio vindo furiosa, provocando um verdadeiro estardalhaço na copa das árvores. Junto com a chuva chegaram, impiedosas, as formigas profetizadas pelo bandido. Talvez aquele tenha sido para Alfredo o contato mais íntimo com o lado cruel da natureza até então.
Na manhã seguinte, antes mesmo das seis horas estava pronto para partir. Antes, porém, foi ver como a menina estava passando. O remédio aparentemente havia produzido o efeito esperado. Outras doses deveriam ser ministradas até a sua volta. Instruiu um dos rapazes para fazê-lo em sua ausência.
- Se manhã antes do meio dia não estiver de volta, não precisa mais vir – advertiu o chefe do bando. – Avise então para o pai da menina vir procurar pela filha. Ela vai estar por aí.
Alfredo já estava pronto para partir quando outra vez Zé o chamou. O rapaz parou e viu o bandido se aproximar. Em seguida viu o sujeito encostar em sua testa o revólver que trazia na mão direita.
- Não tenho nada contra o senhor, meu caro, mas se alguma coisa sair errada ou se avisar a polícia, a menina morre e os seus dias estarão contados. Vou buscá-lo no inferno e mato-o sem piedade.
- Nada sairá errado – garantiu o vendedor pondo-se a caminhar.
Em poucos minutos Alfredo estava de volta à estrada. Com o carro sabia que não podia contar, pois acreditava que não conseguiria fazê-lo funcionar. Mesmo assim arriscou. Grande foi a sua surpresa quando sentiu que o motor respondeu ao girar da chave na ignição.
- Graças a Deus!! – falou alto consigo mesmo. Dos males o menor.
Aquilo sem dúvida o faria ganhar várias horas.

Chegou à casa do velho amigo de seu pai por volta das oito da manhã. Quem veio recebê-lo à porta foi Madalena, a esposa de Júlio.
- Onde está seu Damasceno?
- Não está não. Foi na casa de um vizinho. Na casa daquele homem que consertou o carro do senhor no outro dia.
- E onde é?
- Fica aqui perto.
- Eu preciso muito falar com ele. É coisa muito importante. Vou até lá e gostaria de que a senhora fosse comigo. Preciso conversar com vocês dois.
- E o que o senhor tem de tão importante para falar com a gente?
- Venha comigo, por favor. Quando encontrar com o seu Damasceno eu explico tudo.
Já estavam dentro do carro quando avistaram Júlio que retornava para casa.
- Seu Alfredo! Se já veio buscar o dinheiro, não tenho boas notícias. Ainda não recebi nada – adiantou o sertanejo sorrindo.
- Não vim tratar de negócios, meu amigo. Vim falar sobre sua filha Mariazinha.
- Minha filha. O que tem a menina?!
- Onde está ela?
- Na casa de uma tia. Foi anteontem. Volta no domingo.
- Não está não. E é sobre isto que vim lhe falar, seu Júlio.
- Aconteceu alguma coisa com a nossa filha?! – procurou saber, ansiosa, dona Madalena.
- Aconteceu sim, sinto muito. Ela foi seqüestrada.
- O quê??!! – indagaram em uníssono os pais da garota.
Em poucos minutos Alfredo colocou o casal a par de toda a situação.
- O senhor deve estar brincando! – comentou o pai de Maria. – Isto tudo que o senhor está dizendo não faz sentido algum.
- Infelizmente esta é a verdade – afirmou o vendedor.
- E como quer que acreditemos no senhor?
- Trouxe aqui um pouco do cabelo dela para terem certeza de que eu estou falando a verdade – disse Alfredo exibindo o que trazia em um dos bolsos da calça.
- Santo Deus, Júlio! É mesmo o cabelo de nossa menina.
- Moço, tudo isto está muito estranho. Para falar a verdade, não sei nem o que fazer. A primeira idéia que me veio à cabeça foi ir a Lençóis e entregar o senhor à polícia. Mas pode ser que o senhor esteja falando a verdade.
- Pelo amor de Deus, seu Damasceno, não faça isto! Disseram que vão deixar a menina no mato se desconfiarem que a polícia está atrás deles. E para piorar as coisas Maria está com maleita.
- Jesus Cristo!! – exclamou a mãe aflita.
- Mas quanto a isto não se preocupem. Tinha quinino comigo e já a mediquei. Ela está passando bem. Deixei inclusive mais remédio que lhe dessem em minha ausência.
- E o que querem estes bandidos? – indagou Júlio.
- Diamantes.
- Diamantes?! De que diamantes o senhor está falando?
- Sabem que o senhor tem três diamantes e são exatamente estas pedras que eles querem.
- O que foi que aconteceu com o senhor? – Procurou saber, de repente, dona Madalena. - Está com os braços feridos. Parece que foi atacado por um enxame de abelhas.
- Dormi esta noite amarrado a uma árvore no meio do mato. Acho que foi um recado bastante convincente que me deram sobre o que poderia acontecer se eu não fizesse o que eles querem.
- Venha para dentro que vou cuidar disso – determinou a dona da casa.
- Obrigado – disse o vendedor depois de ter tratado os ferimentos. – Sinto muito por tudo que está acontecendo. Acreditem em mim, eu não pude fazer nada. Quando descobriram que os conhecia, decidiram que eu é que viria até aqui.
- Acredito no senhor, seu Alfredo, e pode estar certo de que meu marido também. Sabemos de quem o senhor é filho. Conhecemos sua família há muitos anos. Filho de quem é, não podia ser má pessoa.
Neste momento Júlio entrou na sala. Trazia em uma pequena caixa de madeira em uma das mãos. Com cuidado, colocou o objeto sobre a mesa.
- Já viu pedras genuínas, senhor Alfredo? – perguntou Júlio abrindo a caixinha.
- Meu Deus!! – exclamou o rapaz atordoado com o que tinha diante dos olhos.
Dentro da caixa havia três pedras de tamanhos e formatos diferentes. Eram muito mais belas do que se podia imaginar. Ali estava uma verdadeira fortuna.
- Se é isto que querem em troca da vida de minha filha, vão ter, meu amigo. Leve-as e entregue tudo a estes desalmados. Nada vale mais que a felicidade de ter de volta a minha garota. Não sei, mas desde que encontrei estas pedras, não tenho mais sossego – comentou Júlio Damasceno de forma enfática.
- Até quando precisa estar de volta? – perguntou Madalena.
- Me deram prazo até amanhã ao meio dia. Mas vou voltar agora mesmo. Estou preocupado com Maria. É melhor que ela volte logo para casa.
- Deus o abençoe por tudo que está fazendo, senhor Alfredo – disse a mãe da menina, ao acompanhá-lo até a porta.
- Acho melhor o senhor colocar a caixinha dentro de uma capanga – aconselhou Júlio, enquanto entregava ao rapaz o resgate da filha.
- Prometo que farei o possível para voltar ainda hoje com a menina – disse Alfredo entrando no carro e dando a partida.
No entanto o rapaz sentiu um imenso vazio no estômago ao perceber que outra vez o motor não respondia ao seu comando.
- Maldito motor!!
- Outro defeito?! – lastimou Júlio.
- Infelizmente, meu amigo. Acho bom chamar novamente aquele seu vizinho para vir dar uma outra olhada.
- Acabei de vir da casa dele. Foi para Lençóis. Só volta à tardinha.
- E agora? – indagou a si mesmo o rapaz.
- A que distância estão?
- Umas quatro léguas daqui – respondeu Alfredo se negando a acreditar que mais uma vez a caminhonete não correspondia ao esperado. – De que vale uma porcaria destas?
- Tenho aqui um bom cavalo. Se sair agora, vai estar lá bem antes do anoitecer. Tem costume de andar a cavalo?
- Já faz uns dez anos que não monto, mas isto a gente nunca esquece, não é mesmo?
- Vou buscar o animal, anunciou o pai de Maria.
O sol já castigava o mundo lá do topo do céu quando Alfredo partiu. Não ia a galope para não cansar o cavalo, mas mantinha um trote ligeiro. Pelos cálculos chegaria ao acampamento por volta das quatro da tarde. E foi com este pensamento que seguiu caminho não parando um minuto sequer para descanso do animal.
Antes do previsto, chegou ao local onde no dia anterior havia deixado a estrada e entrado na mata. Estava decidido que não perderia tempo em chegar ao acampamento. No entanto, num piscar de olhos mudou de idéia. Puxou o cavalo para dentro do mato e o amarrou a uma árvore. Ele por certo seria de grande utilidade quando estivesse de volta à casa de Júlio e Madalena. Tinha tempo ainda de sobra para regressar oficialmente. Se fosse ao acampamento naquela tarde, mesmo que tudo corresse bem, certamente teriam dificuldades para deixar a mata em meio à escuridão.
Aproveitando ainda a claridade do dia, dirigiu-se ao seu destino final, no entanto não tinha a intenção de deixar-se ver. Com cautela abeirou-se do local desejado. A noite já estava chegando quando visualizou as duas choupanas. Permaneceu oculto por detrás de algumas árvores e pôs-se a observar atentamente o movimento. Do lado de fora se encontrava apenas um dos rapazes, aquele que havia sido espancado pelo pai. Procurou um local adequado para se sentar e ficou de olho no mundo ao seu redor.
Lentamente a noite foi deixando tudo às escuras. Junto às barracas uma pequena fogueira insistia em iluminar parte daquele universo de trevas.
Curiosamente ninguém deu sinal de vida além da sentinela. Mesmo depois de ele entrar e sair de uma das choupanas várias vezes, ninguém apareceu. Estaria o rapaz sozinho? Como o seu retorno só estava sendo esperado para o dia seguinte, por certo teriam saído e deixado apenas um dos componentes do bando tomando conta da menina. E os demais? Poderiam ter ido a qualquer lugar, a um dos muitos povoados da região, por exemplo. Talvez estivessem comemorando antecipadamente o sucesso de toda a operação.
Dormindo não estavam, pois era ainda muito cedo. Aquietou-se e esperou. No breu da noite não havia como consultar o relógio, mas depois de um bom tempo calculou que já passavam das oito horas. Se até aquele momento nenhum outro bandido havia se mostrado era sinal de que por ali não estariam mesmo. Estavam, sem dúvida, certos de que Alfredo só voltaria no outro dia.
Sem pestanejar, mas se arrastando como um gato selvagem em busca de suas presas, o vendedor dirigiu-se aos fundos da cabana onde estivera com Maria. Não teve dificuldades para entrar passando por debaixo da palha das paredes. A menina estava dormindo e isto era bom. Sinal de que a febre havia mesmo cessado por um tempo. Com muito cuidado procurou seu corpo na escuridão, mas o fez de forma cuidadosa. Era preciso outra vez tapar-lhe a boca. Com o susto pela sua presença a garota poderia gritar, colocando tudo a perder.
- Sou eu, Alfredo. Estou de volta – disse quase ao seu ouvido.
- Achei que não voltaria nunca mais. Tive muito medo de morrer.
- Ninguém vai morrer, pode estar certa – disse o rapaz querendo com isto deixar a menina mais tranqüila.
- Não estou tão segura disso. Não depois do que aconteceu hoje à tarde.
- E o que aconteceu hoje à tarde?
- Reconheci um dos homens que me trouxeram para aqui.
- O que está dizendo?! Reconheceu um deles?! Qual?
- O mais velho.
- E ele sabe disso?
- Não sei, mas acho que está desconfiado.
- E quem é ele?
- Um comprador de diamantes. Esteve lá em casa certa vez, conversando com meu pai. Eu o reconheci pela voz. Já viu como ele fala de forma meio fanhosa?
- Meu Deus! Se ele sabe mesmo que você o reconheceu...
- Não temos chance não é mesmo?
- Onde estão os outros homens? Lá fora só há um.
- Saíram. Acreditavam que o senhor só voltaria amanhã.
- Para onde foram?
- Não sei. Só ficou um mesmo.
- Precisamos sair daqui o mais rápido possível.
- Acho que não conseguiria caminhar de jeito nenhum. Sinto o corpo todo dolorido.
- E não há como sair daqui carregando você sem ser percebido – concluiu Alfredo. - Iria chamar a atenção. Só há uma maneira.
- Qual?
- Nos livrando deste que está aí fora. É a única maneira. Tenho um cavalo próximo à estrada. Saímos daqui e nos escondemos na mata por aí. Quando o dia clarear, pegamos o cavalo e vamos embora.
- Falando assim parece tudo tão fácil. Papai mandou as pedras?
- Estão escondidas em um lugar seguro. Agora preste atenção no que quero que você faça: finja que está passando mal e chame o sujeito aqui dentro. O resto deixe comigo que dou um jeito.
- O que está pensando em fazer?
- Conversar com ele é que não pretendo. Se for preciso vou matá-lo.
- Matá-lo??!!
- Com gente desta espécie não podemos pensar duas vezes. Chame o homem. Ou é ele ou somos nós.
Foi necessário apenas um grito de Maria para que o rapaz, munido de uma lamparina, surgisse na porta da cabana. Mal colocou a cabeça para dentro Alfredo o golpeou com um pedaço de madeira na altura dos olhos. O infeliz não deu sequer um gemido. Desabou como um pesado fardo no chão, espalhando o azeite que servia de combustível à lâmpada que conduzia. Imediatamente um fogaréu intenso se alastrou pelas paredes de palha. Em poucos instantes a noite ganhou vida.
- Vamos logo sair daqui – gritou Alfredo, tomando nos braços a menina que, assustada, agarrou-se a ele com força.
Com esforço sobre-humano, o rapaz procurou se afastar dali o mais rápido possível. No entanto, não demorou para que desse sinais de exaustão. Meu Deus! Somente podemos avaliar quanto pesa uma pessoa quando nos dispomos a carregá-la em uma situação como aquela. Aos poucos, já distante da claridade provocada pelo fogo, sentiu que avançar pela mata levando nos braços a menina seria uma tarefa muito além de suas possibilidades. Um simples tropeço em uma raiz fez com que sua correria fosse interronpida.
- Desculpe, mas estou quase morrendo. Eu preciso de alguns minutos de descanso – desabafou Alfredo.
- Coitado do rapaz, deve ter morrido queimado – comentou Maria, pesarosa.
- Sinto muito, mas não havia outra maneira de sairmos de lá. O fogo foi apenas uma conseqüência inesperada. Nada podia ser feito.
- O que vamos fazer agora?
- Precisamos alcançar a estrada. O problema é que não tenho nem noção de onde estamos. Só vamos ter condições de fazer alguma avaliação quando o dia clarear.
- Precisamos nos afastar mais do acampamento. Quando os outros chegarem e descobrirem o que aconteceu, vão nos caçar até nos encontrar.
- Tem razão. Não podemos ficar aqui parados. Vamos adiante.
Quando Alfredo se aproximou da garota para outra vez carregá-la, esta comentou:
- Acho que posso andar. Estou bem melhor.
- Deram a você o remédio como eu pedi?
- Fizeram tudo direitinho.
- Pode mesmo andar? – observou o rapaz ao amparar Maria nos primeiros passos.
- Posso.
Devagar voltaram a avançar mata e noite adentro.
- Estou com o cavalo próximo à estrada. Se conseguirmos chegar até ele...
Maria não fez qualquer comentário, mas uma estranha sensação de angústia foi, devagar, tomando conta dela. A cada passo sentia as pernas fraquejarem, no entanto, não fez qualquer comentário com Alfredo. Não queria preocupá-lo ainda mais. Contudo, mais alguns metros e exauriram-se por completo suas forças.
- Sinto muito, não agüento mais nada. Mal consigo mudar os pés do lugar. É melhor que o senhor continue sozinho. Será mais fácil chegar à estrada e conseguir ajuda.
- Jamais a deixaria aqui sozinha.
- Em poucas horas estarão atrás de nós. Juntos não teremos qualquer chance de escapar. Vá em frente, se não morri até agora, não morrerei até o nascer do sol.
- Está decidido. Não a deixarei aqui sozinha. Acho que onde estamos já é o suficiente para nos mantermos longe dos olhos daquela gente. Não vão nos encontrar de jeito nenhum.
Resolvida aquela questão, só restava mesmo aguardar que o sol surgisse para, pelo menos, dar-lhes uma orientação de que destino tomar. Encostados em um tronco de árvore os dois jovens permaneceram quietos e em silêncio por longos minutos. Quem enfim quebrou aquela monotonia com uma pergunta foi Maria.
- Tenho um estranho pressentimento de que não vamos conseguir escapar deste inferno.
- Não diga uma coisa destas. Tenha fé em Deus. Amanhã a esta hora vamos estar em casa.
- Deve ser muito triste morrer em um lugar desses – continuou dizendo a menina.
- Vamos mudar de assunto que este já está ficando muito chato – brincou o rapaz, tentando levantar o moral da garota.
- Papai mandou os diamantes?
- Mandou.
- Estão com o senhor?
- Não. Estão escondidos em um lugar seguro. Ninguém jamais os encontrará a não ser eu.
- O senhor os escondeu?! Não deveriam ser entregues àqueles sujeitos?
- O tempo que tenho para entregá-los é amanhã até o meio dia.
Aos poucos a conversa foi se tornado mais esparsa até se calarem por completo. Estavam os dois jovens finalmente sendo vencidos pelo cansaço. Mas era preciso manter os ouvidos aguçados e Alfredo sabia muito bem disso. Por certo os bandidos não retornariam ao acampamento com o dia claro. Não correriam este risco. Com resignação o rapaz pôs-se de pé com cuidado para não acordar Maria que àquela hora já dormia profundamente. Não poderia ser dominado pelo sono, sob pena de aquilo lhes custar as próprias vidas.
Lá em cima, na copa das gigantescas árvores, o ruído de alguns pássaros era tudo que podia ser ouvido na já alta madrugada. Por longos minutos Alfredo manteve-se atento ao mundo ao seu redor. De repente o som característico de um motor passou a ser ouvido. Um carro!! Aquilo era bom sinal. Estavam mesmo próximos da estrada. Aguçou os ouvidos mais ainda. O barulho veio vindo e, distante não mais de uns quinhentos metros dali, de um momento para outro, cessou.
Sentiu o coração acelerar, mas preferiu não acordar a menina. Por certo eram os bandidos que estavam de volta. Mas protegidos que estavam pela escuridão, não havia motivos para nenhuma atitude inconseqüente naquele momento.
Não demorou e um outro barulho varou a noite. Eram gritos de desespero. Quem chegara de fato era o bando e os homens já haviam descoberto o que ocorrera no acampamento. Em meio aos gritos, alguns tiros foram ouvidos. Aquilo soou aos ouvidos de Alfredo como um aviso de que a caçada aos dois estava prestes a começar.
Assustada, Maria acordou e procurou pelo rapaz.
- Afinal onde estavam?
- Não faço idéia, mas pelo visto não muito longe do acampamento.
- Precisamos nos afastar daqui. Em pouco tempo vão nos encontrar.
- Precisamos ter cuidado. Nossos movimentos podem ser percebidos por eles. Acho que o melhor a fazer neste momento é ficarem quietos e torcerem para que sigam em outra direção para nos procurar. Estamos mesmo próximos da estrada. Vamos aguardar até termos condições de caminhar com segurança. Por enquanto o mais acertado é não sair daqui.
De onde estavam, podiam ouvir as vozes do grupo. Estavam desesperados pela morte de um de seus membros e enfurecidos com a fuga dos dois.
De repente pararam de falar. Era sinal de que dariam início à busca. Em silêncio, Alfredo rezou, pedindo a Deus que os livrasse daquele martírio.
- Não os quero mortos! – avisou Zé. – Não por enquanto. Vamos achar estes dois desgraçados e pegar os diamantes. Depois vamos decidir que tipo de morte vão ter.
Aquelas palavras chegaram aos ouvidos dos dois fugitivos com uma nitidez impressionante. Todavia nada podia ser feito naquele momento, apenas esperar.
- João, você vai para a estrada – voltou a gritar o líder do bando.- Certamente é para lá que irão quando o dia amanhecer. Precisam de ajuda. Não irão muito longe, pois a menina está doente.
Depois destas palavras, outra vez o silêncio imperou naquele mundo. Aquilo era sinal que haviam tomado outras direções que não aquela onde se encontravam. Pelo menos por algum tempo estavam seguros.
Os dois jovens permaneceram imóveis por quase uma hora. Aos poucos viram o dia vir vindo devagar. O que a princípio significava uma saída, já não poderia ser visto dessa forma. Sabiam que a estrada estava sendo vigiada e chegar até lá poderia ser a sentença de morte para ambos. Mas era a única opção. Não podiam permanecer encravados no mato por mais tempo. Maria voltara a ter crises de febre e precisava ser tratada sob pena realmente ter complicações mais sérias.
- Vamos! – determinou Alfredo ao perceber que já era possível caminhar sem muita dificuldade.
No entanto concluiu logo que a menina não conseguiria ir muito longe. Estava deveras debilitada. Era necessário carregá-la outra vez. Não titubeou. Tomou-a nos braços, respirou fundo e pôs-se a caminhar. À medida que avançava, percebia que a menina estava praticamente desfalecida. Estaria morrendo? Pediu a Deus em pensamento que aquilo não fosse verdade. Sabia que a pouca distância dali havia um automóvel, o qual poderia lhe salvar a vida, mas este estava em poder exatamente daqueles que os queriam mortos.
Surpreendeu-se quando dali a pouco a estrada surgiu à sua frente. Era preciso encontrar o cavalo. Era o mínimo que poderia fazer para tentar salvar a vida da garota e talvez a sua própria.
- Você precisa ficar aqui, minha querida – disse Alfredo colocando Maria sentada ao pé de uma árvore, alguns metros distante do leito do caminho, longe da vista de quem, por ventura, por ali passasse.
Com cuidado começou a caminhar, tentando localizar-se e descobrir onde deixara o cavalo. Deveria ter procurado, quando ali estivera no dia anterior, uma referência qualquer, uma árvore talvez. Mas se esquecera. Poderia estar a alguns metros do animal ou a centenas deles. Estaria caminhando para o lado certo? Não havia sequer certeza quando ao rumo que deveria seguir. Para a direita ou esquerda? De repente uma angústia sem tamanho tomou conta dele. Precisava agir o mais rápido possível porque havia uma vida que dependia naquele instante de suas ações e elas precisavam ser acertadas.
Começou a correr por entre as árvores na direção que escolheu aleatoriamente. Não demorou para que avistasse o cavalo. Instintivamente deu um suspiro de alívio. Antes de montar, deu uma ligeira olhada no tesouro que colocara ao pé de uma frondosa aroeira. As pedras deveriam continuar ali. Tinha a impressão de que aquilo seria um trunfo com o qual poderia contar no caso de salvar a vida de Maria.
Em poucos minutos estava de volta ao local onde deixara a menina. Não teve dificuldades para colocá-la sobre a sela. Imediatamente saltou na garupa e pôs a galopar. Iam adiante torcendo para que não estivessem cavalgando para uma armadilha da qual não havia como escapar.
De repente o coração do rapaz disparou. Diante deles, a pouco mais de duzentos metros surgiu um jeep vindo naquela direção. Não houve tempo sequer para parar o cavalo. Mas sentiu-se aliviado por reconhecer o veículo. Era o mesmo visto no arraial onde estivera dias antes. Portanto...
No entanto, não era possível visualizar com nitidez quem o dirigia e nem quem estava ao lado no banco do passageiro. Eram dois homens. Isto era apenas o que se podia perceber.
- São eles!! – gritou Maria, mostrando-se visivelmente abalada alguns instantes depois.
Tarde demais. Não havia mais como fugir. Estavam fatalmente perdidos.
- Ora, ora. Veja quem temos aqui – ironizou o chefe do bando, descendo do carro.
O homem falava e se dirigia a eles com uma lentidão que deixou Alfredo surpreso. No entanto o que se via a seguir foi aterrador. Com um puxão inesperado na perna do rapaz o bandido derrubou os dois do cavalo. A partir daí uma seqüência de chutes e pontapés foram desferidos contra Alfredo. Indefeso contra tamanha brutalidade, o rapaz apenas procurava esconder o rosto dos violentos golpes. Nada mais naquele momento poderia ser feito.
A poucos metros dali Maria assistia a tudo. Estava desfigurada pela dor de ver o amigo sendo agredido daquela forma e pela febre que lhe corroía as entranhas.
- Pare!! – pediu a menina, num fio de voz enquanto se aproximava.
- Onde estão as pedras? – indagou o bandido parando a sessão de espancamento.
Não houve resposta. Não havia forças para articular nenhuma palavra.
- Só vou perguntar mais uma vez – avisou Zé.
Alfredo se contorcia no chão da estrada, mas permanecia calado.
- Eu as escondi – disse Maria.
- O quê?!
Munida de uma força sobrenatural, que até então nem mesmo ela conhecia, a menina voltou a dizer.
- Sei onde estão.
- E onde é?
- Levo você lá, mas não bata mais nele.
Depois de alguns instantes de silêncio, Zé olhou para Maria e comentou:
- Sabe quem sou eu, não sabe?
- Sei sim – confirmou a menina.
- Sabe quem sou eu, mas não sabe do que eu sou capaz. Já matei gente por muito menos.
Ao ver que Alfredo recobrava as forças, o líder do bando dirigiu-se a ele.
- Meu caro, temos aqui um probleminha: ela disse que sabe onde estão as pedras, mas para dizer a verdade não creio muito nisso. Por que ela saberia onde estão se foi o senhor que deveria trazê-las?
- Dei a ela para que as escondesse na mata – declarou o rapaz, sem nem mesmo entender o que queria a garota com aquela declaração sem sentido.
- Muito bem. Se é ela quem sabe, é com ela agora que vamos conversar. Onde estão? – indagou Zé em tom ameaçador, erguendo a mão direita para uma bofetada.
- Seu filho da mãe, se me encostar um dedo sequer, você vai me matar, mas não lhe digo nada – tornou a dizer Maria, surpreendendo-se com sua própria coragem.
- Pelo amor de Deus, minha querida. Jamais faria tal coisa com uma dama – ironizou o bandido. – Mas vamos ao que interessa. Onde estão?
- Não muito longe daqui – informou a menina. – Levo você lá.
- Fique aqui com o rapaz – determinou o bandido ao filho. – Se em meia hora eu não estiver de volta, mate este desgraçado.
Disse e saiu no veículo em companhia da garota. No chão, caído, permaneceu Alfredo. Ao lado, atento a qualquer movimento seu, estava o vigia. Neste momento a mente do caixeiro viajante viajava com uma velocidade vertiginosa. O que pretendia a menina, mentindo para alguém tão perigoso como aquela pessoa que a acompanhava? Que destino teriam quando Zé descobrisse que ela mentira? Em poucos minutos estariam de volta e desta vez o sujeito viria mais furioso do que nunca.
Alfredo ainda estava ali fazendo conjecturas quando um grito varou aquela manhã ensolarada do sertão baiano. De imediato o rapaz estremeceu, mas logo percebeu que algo diferente do esperado havia acontecido. Aquele grito não era de mulher, mas sim de um homem. De Zé, do bandido, estava certo. Foi o que entendeu de imediato também o filho de seu algoz.
Uma simples distração por parte do bandido foi o suficiente para que Alfredo o dominasse sem muita dificuldade. De posse da arma, um revólver, Alfredo determinou que ele se ajoelhasse para que tivesse as mãos amarradas com uma pequena corda retirada da sela do cavalo. Desvencilhado daquele obstáculo o rapaz tomou o cavalo e se dirigiu ao local de onde partira o grito. Não precisou ir muito longe para avistar o veículo parcialmente fora da estrada e com o pára-choque colado ao tronco de uma árvore. Ao volante estava Maria acelerando como se quisesse derrubar o que tinha pela frente.
Não precisou de nenhuma explicação para compreender o que estava acontecendo. Entre o pára-choque do jeep e o tronco de um gigantesco jacarandá estava o bandido que tanto lhes aterrorizara. O rosto do infeliz deixava transparecer a dor mais terrível que o ser humano pode suportar. Seu corpo estava parcialmente inclinado sobre o capô do carro com os braços abertos e a arma que sempre portara estava caída junto à roda dianteira do carro.
Em seus olhos, podiam ser percebidos os sinais de uma fúria mortal. Fora abatido da forma mais inusitada o homem que há tempos amedrontava toda uma região. Tivera as duas pernas esmagadas. A partir dali não havia mais como ameaçar, coagir, nem roubar ninguém. Estava definitivamente encerrada a carreira de crimes de José Menezes de Lima. Mas talvez o que mais torturava o bandido naquilo tudo era o fato de ter sido pego por uma meninazinha de pouco mais de quinze anos provavelmente. Mulheres! Jamais devemos subestimá-las, compreendeu o homem da forma mais cruel possível.

Lençóis, Bahia, 23 de janeiro de 1970

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